segunda-feira, 29 de dezembro de 2008

passo pelos passeios do paço, de albuquerque mello























sexta-feira, 26 de dezembro de 2008

A máquina de fusão de gotas.

Voltas, rodopio, passo leve, assim era a dança que se dançava no salão de baile la eterne, à rua do mundo.

Lá fora, a chuva miudinha fazia um ou outro estrago nas flores de papel coloridas que engalanavam as janelas em véspera de inauguração, e pingava do cigarro do velho trindade que com tal invernia não vendia cautelas.

À cautela lá iam, uns e outros, por debaixo dos varandins à lufa-lufa a ver se escapavam aos disparos que, entretanto, iam engradecendo quais projecteis disparados à queima roupa dos beirais onde só na primavera seguinte apareceriam as andorinhas.

No salão, aquecido de lareira e iluminado a petromaxes de latão e de petróleo, todos brilhavam, voluptuosos. Brilhavam as medalhas nas casacas, brilhavam as pérolas nas sedas, brilhavam os tocadores que com os metais faziam brilhar o baile e brilhava o próprio brilho num enlevo intemporal.

E lá fora o temporal abalroava os lampiões que ainda assim persistiam em quebrar o lusco-fusco da noite que, por aquela altura do calandário, mostrava no alto e recortado por entre os beirais um quarto miguante decidido a quem se arriscava pelas calçadas.

Agarrados, ambos com uma atracção forte e infinita, corríamos dançando a dança pendular, cá e lá, lá e cá, todos e cada um dos quatro cantos deste universo ao ritmo harmónico da camerata que, do centro e qual fonte luminosa radiando ondas frescas, irradiava a onda que nos embalava e na qual cavalgávamos as montanhas eternas do carroussel por entre cavalinhos, tigres e elefantes. E um pastor.

E foi num momento, num momento longo se houvesse forma de contar o tempo para além do tempo com que não se pode contar, que tudo aconteceu; entrava em cena, serena, a convidada mais aguardada com a sua máquina a tiracolo, que ela sempre se apresenta de maneira surpreendente.

No meio desta química, por entre cores e líquidos e sólidos iluminados pelos bemóis e colcheias, a máquina de comprimir o tempo veio a saber-se ser a máquina de fusão de gotas de chuva.

A velocidade lenta do disparo mostrou as duas gotas que se fundiam numa só e esta num mar tão grande, tamanho do mundo todo, e era tão grande o mundo visto da porta da frente.

E é mais do que certo que um dia destes, um dia em que menos se espere, ou se espere muito, num dia de baile, voltarão à rua do mundo para mais uma dança. Estas gotas e outras.

sábado, 20 de dezembro de 2008

A carta da portugueza.

Eu morava à rua dos moinhos e levava dias sem fim no pátio a desfiar o rosário de infindos rabiscos que, afinal, até não saiam assim tão mal.

O bairro, sempre calmo por aquele tempo de calma de um verão infernalmente abrazador, de traça e graça geométricas em torno do jardim da parada. A menina ofélia da retrosaria sempre bem disposta vendia aqueles botões com âncora dourados às caixas; o senhor januário das fotografias sempre em estado de prontidão a dar ao gatilho do seu photomaton; e os velhotes que, acompanhando de copinhos de porto do mesmo, lá iam dando umas miradelas às pernas das moçoilas, de soslaio e com os kentucky de morrão já apagado ao canto das bocas desdentadas, as deles que as delas radiavam sorrisos trocistas de quem tem a certeza que o tempo nunca há-de passar, ou quanto muito apenas para os que passam as passas do algarve, e o folguedo dura para sempre. Pois sim.

Fiquei de voltar com notícias mas só agora posso contar o que sucedeu, e tanta coisa passou.

Com o empedrado da estrada dos prazeres pela frente, reluzente sob a soalheira até ao quatro de infantaria, e deixando as necessidades atrás, lá segui em passo acelerado rumo à praça da alegria, a são josé, porque queria encontrar-me com o senhor alfredo antes que partisse para o seu hamburgo e eu com ele, de aprendiz.

Quando nos encontrámos, mesmo a tempo de uma limonada no quiosque que também vendia almanaques raros, pincéis finos e mortalhas de enrolar, tinha em mãos as últimas pinceladas da carta. Hoje sei que aquela era a carta, a carta, mas o que sei hoje que então vi foi o acabar de escondê-la à vista de todos por todo este tempo.

Com o senhor dom carlos, keil passava umas temporadas à beira do zêzere, ali bem à beira da beira, que a ferreira do mesmo ainda é ribatejo, e por ali se apercebiam que os bretões haveriam de conspirar com outros tantos carbonatados para levar a água ao moinho de nigromantes que se pagariam de histórias velhas como o tempo, e decidiram deixar correr as belas águas pela ponte de vila que era do rei.

(A)guardariam (em) segredo até ao outro lado do tempo, quando fosse a hora de .

Foi muito tempo despois, já no destino distante daquele refresco fresco em tarde de canícula, que saberia da verdadeira carta na carta escondida porque foi preciso dar nova parede à tela. Lavando com cautelas e com terebentina ao de leve a página de branco zinco de pigmento quarenta e cinco, emergia do outro lado a pauta da real portugueza de heróis de mar e terra e guerra e tudo, que se vão levantar de novo num vento novo que lhes enfuna já as velas pelo mar do tempo que vem.

Cheguei hoje e vou agora, de metro, ao museu da música para ouvir tocar a portugueza e quero chegar a tempo ao alto dos moinhos neste monte de vendavais, com o rua da glória ao fundo. A ver se venho a tempo de ver devolvida a portugueza a portugal.

terça-feira, 16 de dezembro de 2008

A máquina de ouvir as vozes do éter.

O barulho seco do martelo de madeira ecoava na sala disparado à queima roupa sobre a mesa e ditava por fim o fim da ansiedade do lance, qual batalha surda de casino com a contenta resolvida a favor do tio.

Por uma razão que então escapava mas que hoje apresenta umas quantas pinceladas mais expressivas, o casal já entradote de anos e de farpela negra que do lado oposto da sala insistia em perseguir o lote que o tio tinha debaixo do seu olho arguto, levantava sempre a mão a cada tento, o que o enervava sobremaneira.

O interesse que o leilão tinha despertado entre os habituées era, na verdade, indescritível e no espírito irrequieto do meu tio desenhava-se intenso como o vento do início desse inverno arrancado de um só impulso ao final do verão que entretanto começara já a fazer a bagagem para deixar a capital.

O catálogo tinha-lhe chegado às mãos, vira-o no clube tauromático, ali à rua do chiado, mesmo a tempo da hasta, precisamente na véspera, e o que lhe despertara desde logo o interesse seria um estranho maço de cartas de rementente desconhecido que se anunciava e endereçado à academia das ciências e aí nunca recebido e nas quais se falava de emissões de rádio codificadas. Isso seria o princípio, mas era nada no tudo que as cartas - e uma em particular - teriam para contar, mas lá iremos.

Aquilo do criptado era apenas um pouco menos do que completamente desconhecido, pois o sempre infinitamente paciente tio lá se dera ao trabalho de me falar das portadoras, do ruído branco e do ruído de outras cores do firmamento das ondas da rádio, e sendo ele um dos que na lisboa daquele tempo se dedicava a trocar mensagens subversivas com o seu cê-bê da banda dos onze metros, dele recebi um par de walky-talkies e uma mão cheia de sabedoria de num tempo hertziano em que não imaginava ainda o que seria, num dia dos dias do tempo lá mais para diante, a escravatura do telemóvel às risquinhas, a tirania dos podcasts às bolinhas, e outras enfermidades que tais a povoarem os dialectos das tribos mais modernas desse tempo do futuro.

Arrematada a coisa para gáudio do tio e acabrunhanço dos outros que lá tinham ido ao mesmo e que assim voltavam tosquiados, lá fomos caminho do cê-cê-cê, o centro de comunicações do chiado como carinhosamente lhe chamavamos lá em casa e de que o pai ria a bandeiras despregadas, nada mais nada menos do que a casa do tio de que avizinhança faria chalaça com a tamanha antena plantada, erecta, lá no quintal entre o medronheiro de estimação sempre carregado de bagas rubras e o canteiro preferido do gato siamês de olho azulado da tia, que se entretinha a alisar nas suas longas e ensonadas tardes ensolaradas à sombra da emissão clandestina que teoricamente seria ouvir os noticiários da londrina bê-bê-cê.

A revelação das cartas, quais chapas de fotografia antiga em salas escuras, revelava na sala escura do maior
desconhecimento, o nosso, a maior das revelações da existência. Aquela em particular falava de uma frequência mágica, secreta por assim dizer, que daria acesso ao passo seguinte, para além do limiar da invenção da rádio, que já sabiamos o que era, e da janela da televisão, de que nada sabíamos então.

Dizia que sintonizando o his master voice de seis válvulas com cinco faixas de ondas na onda onze-onze seria possível ouvir o que pareciam vozes, conhecidas umas e desconhecidas outras, fantásticas todas, que mostrariam aos que deste lado da cortina que as ouvissem o nível seguinte do jogo sem fim.

E fomos ver o que nos dizia o relato do jogo sem fim que acontece nas bandas do éter.

sábado, 13 de dezembro de 2008

Esta é a maçã nossa de cada dia.

De caminho, de volta da visita que fizera à minha tia, jovem de espírito mas miseravelmente confinada na sua embalagem mortificadora que não só a impedia de andar pelo seu mundo como lhe ia acentuado as mazelas de pele inevitavelmente dolorosas, sentia-me a um tempo destroçado mas pacífico.

Está bem de ver que a coisa teve por aqueles dias daquele tempo um efeito que não pôde deixar de me causar uma infinita amargura.

O que poderia parecer de um estranho e vil sadismo dito assim e a frio, como a manhã em que vos escrevo, foi o calor das tardes de verão eterno que a tia me ofereceu ao coração.

E guardo essa lembrança tão intensamente como se fosse hoje, neste preciso momento, agora mesmo a acontecer. Se calhar estou a ver mal e o ontem, hoje e amanhã são afinal a mesma coisa, assim como que uma minhoca muito longa em caminhada anelar infinita e infinda pelos buracos que vai construindo na sua maçã. Assim seremos porventura, escorregando pelo tecido do nosso espaço-tempo, mas avancemos que o tempo, que dizem urgir, está mesmo é para estas coisas.

A coisa passou-se num dia que, eufemisticamente, dizemos ser útil, como se úteis não fossem todos os dias e todas as noites de todos os dias do tempo que vamos inventando e tecendo nesta manta de retalhos da vida toda da vida de cada um e de todos, autêntico patchwork colorido das mil-cores de todos os arco-íris que as nossas retinas captam e de todos os outros que os outros bichos, que invejamos, podem ver.

De volta pela linha do oeste, dos lados onde se tem dito pôr-se o sol e a caminho do sol nascente, lá vim ao ritmo que as chulipas da linha insistiam a imprimir na pauta da sua sinfonia minimalista a embalar a minha dormência até à entrada binocular do túnel para o bocadinho final da viagem.

Pelo túnel adiante imaginei o fumo negro que, lá fora, encheu o espaço vazio e de que o meu pai me falava, porque a auto-motora se movia a electricidade. Um fumo negro como se fosse respirado pela chaminé de locomotivas dos comboios de um tempo diferente do tempo das confortáveis pendulares que agora nos levam pela nossa maçã.

A composição detinha-se no cais número um, por debaixo das arcadas de ferro da claraboia que em miúdo me parecia imensa e que hoje vejo monumental, e vi cruzaram-se com os que, como eu, pisavam o cais de entrada, os que saiam de cena, as cartolas desalinhadas e as gastas saias por se arrastarem pelo chão poeirento e onde os que chegavam vinham render na contrução de mais um anel do tonel do mundo novo sempre que despontava por entre as vinhas da nossa ira.

Era a luz, que ao fundo do túnel se mostrava no esplendor da manhã do rossio maior da minha vida, e lá fui ao meu caminho.

Não comprei balas de prata no armeiro ali ao lado da estação, que os lobisómens não poderiam jamais apararecer e mesmo que venham não lhes passarei cartucho, e lá fui calçada do duque de cadaval acima e não resisti a entrar na pérola branca de café negro logo depois, ali à anchieta, e comprei balas de todas as cores e sabores para todas as almas que se cruzem no meu caminho, e para a minha, e lá fui pela gruta mágica de lisboa.

quinta-feira, 11 de dezembro de 2008

O baile de mascarados.

A rádio lisboa inundava todas as manhãs a capital com a sua onda de oitenta metros levando as novidades em garrafas sonoras pelo mar de éter aos que podiam estar perto da novidade radiosa, pelo que os dias que naqueles dias se viviam cá no burgo corriam leves à tona da maré que se espraiava pelas esplanadas dos restauradores onde melhor se laureava a pevide. Que as havia.

Mais abaixo, para lá do éden e ao fundo o coliseu, que veio a ser dos recreios, as matinées dos sábados que assim começavam formavam filas intermináveis de novos à procura de um olhar furtivo e os outros à procura de se lembrarem do que teimava em fazer-se esquecer, e a menina da rádio falava aos microfones do desejo. Dias longos os dessa primavera que depressa se consumia em tão abrazadora estação.

E dos salões da moda radiava também uma onda da lisboa estrambólica, dos quais o mais alegre e chic, como anunciava a revista portuguesa, era o bristol club que exibia umas moçoilas sinuosas art-déco de cigarrilha longa insinuante e que defronte do palacete dos alverca fazia felicidades e desfazia enredos, e por todo o lado as bandas jazz tocavam fox-trotes e as portas de santo antão não davam vazão a tanta passagem de mascarados e aos inúmeros números eróticos ousados do olympia e do clube mayer, este lá mais acima na avenida.

E deste corropio feito baile de máscaras sobrou tantas vezes uma mão cheia de nada, pendurado que ficava tudo no prego da casa que se sabia ser liquidadora onde se tornava líquida a que um dia fora sólida fortuna, à conta de umas cambalhotas circenses dadas do trapézio alto e sem rede em baixo.

E nesta encruzilhada de deus fomos à cautela, com a mãe e o pai, ao trindade ver as vistas e as três máscaras de régio, e ainda guardo o libreto, a presença e tudo o mais. É tudo, porque ainda outro dia lá passei e as luzes caiam com a noite cerrada.

Cada vez são mais à porta da sopa.

Tínhamos ido dar uma volta ao castelo e lá descansámos sentados nas ameias a contemplar a largueza das vistas e do terreiro que já foi do paço lá em baixo, e lá ao fundo a costa; e na volta ainda demos de caminho dois dedos de conversa com o costa entretido com o ensaio da aula de guitarra que começava e, qual maçã lançada lá do alto, da graça e pelo bem formoso abaixo, antes de dar com a rua de um newton lá tomámos a esquerda para um pastel de bacalhau no perna de pau que nesse tempo era assim como que a mais aperaltada locanda da lisboa fidalga.

Naquele tempo em que ainda não se subia a avenida do almirante mas podia descer-se a de dona amélia com opção sempre aceite para umas taças de clarete sincero no retiro dos pacatos, fomos caminho da cerâmica a ver se o painel mourisco estaria já pronto, lustroso e alinhado para rumas ao seu destino de esquadria na parede à entrada do salão ensolarado e repleto de plantas de mil verdes que a tia fazia gosto em tornar felizes, elas e todos os que a viamos dar-lhes de beber.

Já com os pacotes atados com corda de sisal na mala do riley eleven verde com rodas raiadas daqueles loucos anos que lá vão ao longe mais rápidos que o vento, passámos ao largo do diogo geral do contrabando e dos descaminhos a quem as ideias faziam uma especial comichão e que hoje partilha o largo que teve um tempo em que foi apenas e só seu e que hoje partilha com as pombas que por ali saltitam de pedra em pedra da calçada gasta de tanto o ser, e lá fomos.

Deixámos para trás a igreja de anjos onde uns quantos desgraçados aos caídos - uns quase são ainda do tempo em que o regueirão por ali banhava os pés da santa outros noviços nesse calvário - se prostram à porta da sopa do matemático sidónio e a quem o grão e massa com chouriço sem falta do casqueiro mata quem vai teimando em querê-los matar.

Hoje, qual fábrica do tijolo, quase nada de viúva e de azulejos lá vai sobrando uma fachada escondida dos olhos dos ávidos da cidade que mais dia menos dia por ali vão passar a direito e queira deus que me engane mas à sopa andam cada vez mais caidos como nós, e tudo cai. E que os tempos da fome em fila de espera voltaram aos bairros pobres de lisboa, lá isso voltaram.

segunda-feira, 8 de dezembro de 2008

O croupier recolhe sempre a mesa.

Era manhã de inverno e sentia-se pela frescura da relva, das flores do canteiro e pela mole de terra mole do jardim lá fora na rua, amolecidas umas e outras pelo cacimbo da noite.

Acordei cheio de pressa e cheio de espaço vazio para preencher nos espaços vazios do carderno diário dos dias marcado com as margens previsíveis. Ainda me atrevi na chuva que caía, copiosa, como deus a dava.

Vi tragédias em ruas com outras flores de todas as cores da paleta impressionista, encontrei padres em crimes no alto de santo amaro que fugiam assim do seu desamparo.

De caminho fui pelo caminho de canaviais onde passaram outrora morgadinhas no estalar do seu verniz.

Na volta ao mundo de quase cem dias e de balão tiradas de cinco dias e outras tantas noites vi o que quis, o que imaginei e o não sonhado, tantas voltas qual jogador de vidas em fuga de um croupier que, sereno, recolhe a mesa, e recolhe-as umas cheias de nada, outras vazias de tudo.

Vi um mundo cruel, mescla de guerra e paz, verdadeiro auto de danados. E pelas bandas do casario intrincado de alfama bebi com o últimos dos cabalistas, o primeiro que me mostrou grafitis a rimar com mensagem e com o vibrar das guitarras em fundo de rio.

Era por fim comigo a causa das coisas na rua do mundo inteiro desembarcado no cais das colunas de jachim e boaz por tantas naus antes de nós, e tive a certeza que se trata de uma ilha misteriosa este onde, miseráveis e insubmissos, temos a sorte de poder transformar em vida maior a maior sorte da vida.

Sempre no fio da navalha, desconfio que não sou daqui, e não deve ser por acaso que sorte rima com eternidade e a orquestra ensaia pela partitura de genesis. Tudo me faz esta impressão.

sexta-feira, 5 de dezembro de 2008

A caneta de escrever destinos.

Certa vez li num livro do autor dos miseráveis que a vida sendo curta, é tornada ainda mais curta por nós próprios sempre que desperdiçamos tempo, mas adiante porque não quero alinhar no pelotão dos que gastando-o mal tanto se queixam da velocidade com que o perdem.

A coisa estava dita mais uma menos assim, que a minha memória já me vai pregando uma partidas, por vezes breves, de outras mais intensas dando uma perspectiva que desejo ainda longe de verosímil do que será viver num tempo sem memória ou, ainda pior, num tempo que de não haja memória.

E assim, e porque recentemente tinha voltado a tentar as travessias ribeirinhas tejo adentro até à outra margem, das quais até estava a gostar, peguei da prateleira lá em cima na estante que guarda o que vai sobrando do tempo que depressa vai passando e fiz-me ao caminho com o diário de anne frank.

Eu nunca tive a sorte de ter vontade de escrever um diário, e tenho pena, mesmo muita pena, mas tive a sorte de ter pegado naquele naquele dia, para aquela viagem curta, que mudaria a minha vida para sempre. Wilde terá dito, que isto do diz-que-disse tem também a sua bruma de mistério e incerteza mas deve ter dito mesmo, que cada um ao viajar deve fazer acompanhar-se de algo extraordinário e assim, não tendo o meu próprio diário, peguei no meu examplar do dela. E lá fui.

Aquele diário nunca deveria ter existido, mas tendo acontecido muito me enriqueceu e me fez chorar. Eu não gosto de chorar mas as lágrimas, se bem que tímidas, rolavam pela minha cara gelada contra o fresco da manhã e do fresquinho do rio, misturadas com umas quantas pingas que, metediças em seara alheia, entornaram da coberta de lona do ferry enrugando o papel.

Na sua ode à sua caneta de tinta permanente que a sua querida avó lhe oferecera num dia de anos, anne rendia homenagem aquela que poderia ter escrito tantas histórias e que, apenas porque sim, acabava em holocausto no forno da sala. A sua caneta de tinta permanente calava-se para sempre e o ferry acostava terminando a viagem por aquele tempo de holocasto.

Na vida as coisas que acontecem à vida acontecem sempre com uma razão mesmo que escondida, um propósito mesmo que sinuoso, uma vontade mesmo que invisível, numa cadência afinal harmónica qual pauta de uma partitura escrita com a força da alma e inspirada pelo maestro de uma orquestra universal com o instrumento da preferência de cada um.

Saí do barco aperando o cachecol e saltando o portaló que se entretinha a subir e a descer à cadência que a ondulação do rio lhe ditava - e visto pelas gaivotas lá em cima o rio até dava pasto a uns quantos carnerinhos de branca espuma - e fui direito ao meu destino com o livro debaixo do braço e pensando na vontade decidida do homem do leme que governa as coisas da existência a partir da estátua que nos saúda à saída do terminal em pleno cais do sodré e que ali está apenas para nos dizer isso mesmo.

Dei comigo à porta do número oitenta e dois, e dava a impressão de que lá ao fundo ainda parecia poder ouvir-se o clamor do dia em que tinham morto el-rei. Deu-me vontade de escrever, de escrever tudo, de escrever como se não houvesse amanhã, como se se acabasse hoje o papel e as árvores e a tinta toda e não pudesse voltar a fazê-lo, toda a tinta que correu, corre e correrá a contar como o mundo foi, é e será. Entrei na tabacaria do rei das canetas, que ficava logo a seguir à travessa do cotovelo como quem vem dos lados do corpo santo.

Queria muito uma caneta nova de aparo brilhante, com tinta nova, sépia que é a mais bonita, e papel por estrear para dar asas à ilusão de escrever de um mundo fraterno e de um tempo novo, lisinho e sem marcas da página anterior, como se tratasse do caderno pautado que se estreou no primeiro dia da primeira classe na escola primária de um tempo que aconteceu há tanto tempo.

E lá fui ao meu novo destino, que se calhar era o mesmo destino que estava destinado desde o tempo em que achava que não me sobrava destino nenhum, com a minha krone que ainda guardo na minha colecção e com a qual vos escrevo a contar das coisas de que me vou lembrando e que um dia, se se proporcionar, vos mostrarei.

segunda-feira, 1 de dezembro de 2008

Do paço da ribeira à ajuda definitiva.

Fazia maio naquele ano da graça de oitocentos e oitenta e quatro. Tendo-se conhecido em paris por entre um calendário completo de saraus literários e soirées musicais românticas, o tio albuqurque mello convidava verne a visitá-lo em lisboa quando na próxima viagem cruzasse os mares a caminho do seu destino de cadiz.

Pelas cinco da tarde o vapor saint michel aportava ao cais da ribeira e os dois, jules e o tio, apertavam-se com um daqueles abraços de levantar os mares qual sopro de hidroavião dos que por esse tempo começavam já e também eles a visitar o tejo.

Dirigem-se ao hotel bragança ali à rua do ferragial de cima onde cearão e onde trocarão ideias sobre o mar, os navegantes e as descobertas de novos mundos, que de novas latitudes de mundos por descobrir tanto o galo como o luso gostavam de falar e ali tinham oportunidade de juntar passado e futuro numa conversa de longas horas noite dentro até ao clarear da manhã levantando-se dos lados do outro lado do rio.

A decisão estava tomada e não levantaria ferro, ou por outra, levantaria mas uma semana depois e inspirado pela cidade que num tempo de outro tempo viu partir lá mais abaixo, da praia de belém, os que abriram o mar e o mostraram ao mundo. Decide escrever les conquistadores de l'amérique centrale quando, pelo meio-dia do dia seguinte, o tio lhe apresenta a biblioteca da ajuda.

Os dias seguintes serão de leitura ávida, lendo quase sem dormir numa vigília incansável os tomos salvos do desastre que naquele dia de novembro varreu sem piedade o paço da ribeira. Imaginou-se a olhar o rio, naquele dia de iradas água plúmbeas.

Das janelas do segundo andar da biblioteca do paço, à ribeira, via a casa da ópera do traço de terzi e radiante de acordes barrocos, admirava as torres do paço dos corte-real, a outra margem lá ao fundo do rio e o rio lá ao fundo que naquele dia de novembro de há tanto e em tão pouco tempo vareu de uma vez, enxorrada imparável, paço e biblioteca e tudo levando para sempre o saber que ali sempre se guardou desde que o paço era ali pela mão do rei manuel.

Viu a destruição como viu a viagem à volta do mundo, e viu que ainda assim alguma coisa sobrava e muitas voltas pelo mar daria, das docas empacotados e esquecidos, ao brasil no outro lado do mar e finalmente no seu canto ao alto da ajuda, lá em cima.

Do maço de cartas que o arquivo da ajuda lhe oferecia via sair em forma de espanto o tanto que o conteúdo impossível lhe dizia. Dirigidas a seu pai fernando, salvador escrevia sobre as sortes da sua sorte, e sobre a sorte de sua mãe isabel que não voltou a ver. Verne não pôde não dizer ao tio o que descobria e ambos os queixos não podiam cair mais do que o imenso espanto. Não estavam atónitos mas absolutamente vencidos.

Os papeis velhos do tempo e novos para o mundo diziam na sua tinta negra sobre manchas húmidas tratar-se da descoberta que mudaria o mundo conhecido para sempre.

Numa, colombo relatava como conseguira iludir todos em castela recorrendo à rede de influência infalível que o rei joão montara, das sortes com que se insinuara na corte em madrid e como isabel, a usurpadora, o aceitara e que seduzira.

Noutra desvendava a cifra da fórmula criptada da sua assinatura misteriosa; noutra ainda rendia homenagem a seu avô joão gonçalves, o zarco. Assim, tão simples. Na última das cartas que dirigiu a seu pai, verne descobre que em debaixo rubricava num enlaçado ao jeito de bordado.

Fazia-se por fim luz, juntavam ambos as peças às peças que tantos lançaram e concluiram que tinham diante de si as cartas de salvador fernandes zarco.