A rádio lisboa inundava todas as manhãs a capital com a sua onda de oitenta metros levando as novidades em garrafas sonoras pelo mar de éter aos que podiam estar perto da novidade radiosa, pelo que os dias que naqueles dias se viviam cá no burgo corriam leves à tona da maré que se espraiava pelas esplanadas dos restauradores onde melhor se laureava a pevide. Que as havia.
Mais abaixo, para lá do éden e ao fundo o coliseu, que veio a ser dos recreios, as matinées dos sábados que assim começavam formavam filas intermináveis de novos à procura de um olhar furtivo e os outros à procura de se lembrarem do que teimava em fazer-se esquecer, e a menina da rádio falava aos microfones do desejo. Dias longos os dessa primavera que depressa se consumia em tão abrazadora estação.
E dos salões da moda radiava também uma onda da lisboa estrambólica, dos quais o mais alegre e chic, como anunciava a revista portuguesa, era o bristol club que exibia umas moçoilas sinuosas art-déco de cigarrilha longa insinuante e que defronte do palacete dos alverca fazia felicidades e desfazia enredos, e por todo o lado as bandas jazz tocavam fox-trotes e as portas de santo antão não davam vazão a tanta passagem de mascarados e aos inúmeros números eróticos ousados do olympia e do clube mayer, este lá mais acima na avenida.
E deste corropio feito baile de máscaras sobrou tantas vezes uma mão cheia de nada, pendurado que ficava tudo no prego da casa que se sabia ser liquidadora onde se tornava líquida a que um dia fora sólida fortuna, à conta de umas cambalhotas circenses dadas do trapézio alto e sem rede em baixo.
E nesta encruzilhada de deus fomos à cautela, com a mãe e o pai, ao trindade ver as vistas e as três máscaras de régio, e ainda guardo o libreto, a presença e tudo o mais. É tudo, porque ainda outro dia lá passei e as luzes caiam com a noite cerrada.