sábado, 13 de dezembro de 2008

Esta é a maçã nossa de cada dia.

De caminho, de volta da visita que fizera à minha tia, jovem de espírito mas miseravelmente confinada na sua embalagem mortificadora que não só a impedia de andar pelo seu mundo como lhe ia acentuado as mazelas de pele inevitavelmente dolorosas, sentia-me a um tempo destroçado mas pacífico.

Está bem de ver que a coisa teve por aqueles dias daquele tempo um efeito que não pôde deixar de me causar uma infinita amargura.

O que poderia parecer de um estranho e vil sadismo dito assim e a frio, como a manhã em que vos escrevo, foi o calor das tardes de verão eterno que a tia me ofereceu ao coração.

E guardo essa lembrança tão intensamente como se fosse hoje, neste preciso momento, agora mesmo a acontecer. Se calhar estou a ver mal e o ontem, hoje e amanhã são afinal a mesma coisa, assim como que uma minhoca muito longa em caminhada anelar infinita e infinda pelos buracos que vai construindo na sua maçã. Assim seremos porventura, escorregando pelo tecido do nosso espaço-tempo, mas avancemos que o tempo, que dizem urgir, está mesmo é para estas coisas.

A coisa passou-se num dia que, eufemisticamente, dizemos ser útil, como se úteis não fossem todos os dias e todas as noites de todos os dias do tempo que vamos inventando e tecendo nesta manta de retalhos da vida toda da vida de cada um e de todos, autêntico patchwork colorido das mil-cores de todos os arco-íris que as nossas retinas captam e de todos os outros que os outros bichos, que invejamos, podem ver.

De volta pela linha do oeste, dos lados onde se tem dito pôr-se o sol e a caminho do sol nascente, lá vim ao ritmo que as chulipas da linha insistiam a imprimir na pauta da sua sinfonia minimalista a embalar a minha dormência até à entrada binocular do túnel para o bocadinho final da viagem.

Pelo túnel adiante imaginei o fumo negro que, lá fora, encheu o espaço vazio e de que o meu pai me falava, porque a auto-motora se movia a electricidade. Um fumo negro como se fosse respirado pela chaminé de locomotivas dos comboios de um tempo diferente do tempo das confortáveis pendulares que agora nos levam pela nossa maçã.

A composição detinha-se no cais número um, por debaixo das arcadas de ferro da claraboia que em miúdo me parecia imensa e que hoje vejo monumental, e vi cruzaram-se com os que, como eu, pisavam o cais de entrada, os que saiam de cena, as cartolas desalinhadas e as gastas saias por se arrastarem pelo chão poeirento e onde os que chegavam vinham render na contrução de mais um anel do tonel do mundo novo sempre que despontava por entre as vinhas da nossa ira.

Era a luz, que ao fundo do túnel se mostrava no esplendor da manhã do rossio maior da minha vida, e lá fui ao meu caminho.

Não comprei balas de prata no armeiro ali ao lado da estação, que os lobisómens não poderiam jamais apararecer e mesmo que venham não lhes passarei cartucho, e lá fui calçada do duque de cadaval acima e não resisti a entrar na pérola branca de café negro logo depois, ali à anchieta, e comprei balas de todas as cores e sabores para todas as almas que se cruzem no meu caminho, e para a minha, e lá fui pela gruta mágica de lisboa.