O bairro, sempre calmo por aquele tempo de calma de um verão infernalmente abrazador, de traça e graça geométricas em torno do jardim da parada. A menina ofélia da retrosaria sempre bem disposta vendia aqueles botões com âncora dourados às caixas; o senhor januário das fotografias sempre em estado de prontidão a dar ao gatilho do seu photomaton; e os velhotes que, acompanhando de copinhos de porto do mesmo, lá iam dando umas miradelas às pernas das moçoilas, de soslaio e com os kentucky de morrão já apagado ao canto das bocas desdentadas, as deles que as delas radiavam sorrisos trocistas de quem tem a certeza que o tempo nunca há-de passar, ou quanto muito apenas para os que passam as passas do algarve, e o folguedo dura para sempre. Pois sim.
Fiquei de voltar com notícias mas só agora posso contar o que sucedeu, e tanta coisa passou.
Com o empedrado da estrada dos prazeres pela frente, reluzente sob a soalheira até ao quatro de infantaria, e deixando as necessidades atrás, lá segui em passo acelerado rumo à praça da alegria, a são josé, porque queria encontrar-me com o senhor alfredo antes que partisse para o seu hamburgo e eu com ele, de aprendiz.
Quando nos encontrámos, mesmo a tempo de uma limonada no quiosque que também vendia almanaques raros, pincéis finos e mortalhas de enrolar, tinha em mãos as últimas pinceladas da carta. Hoje sei que aquela era a carta, a carta, mas o que sei hoje que então vi foi o acabar de escondê-la à vista de todos por todo este tempo.
Com o senhor dom carlos, keil passava umas temporadas à beira do zêzere, ali bem à beira da beira, que a ferreira do mesmo ainda é ribatejo, e por ali se apercebiam que os bretões haveriam de conspirar com outros tantos carbonatados para levar a água ao moinho de nigromantes que se pagariam de histórias velhas como o tempo, e decidiram deixar correr as belas águas pela ponte de vila que era do rei.
(A)guardariam (em) segredo até ao outro lado do tempo, quando fosse a hora de
.Foi muito tempo despois, já no destino distante daquele refresco fresco em tarde de canícula, que saberia da verdadeira carta na carta escondida porque foi preciso dar nova parede à tela. Lavando com cautelas e com terebentina ao de leve a página de branco zinco de pigmento quarenta e cinco, emergia do outro lado a pauta da real portugueza de heróis de mar e terra e guerra e tudo, que se vão levantar de novo num vento novo que lhes enfuna já as velas pelo mar do tempo que vem.
Cheguei hoje e vou agora, de metro, ao museu da música para ouvir tocar a portugueza e quero chegar a tempo ao alto dos moinhos neste monte de vendavais, com o rua da glória ao fundo. A ver se venho a tempo de ver devolvida a portugueza a portugal.