sábado, 20 de dezembro de 2008

A carta da portugueza.

Eu morava à rua dos moinhos e levava dias sem fim no pátio a desfiar o rosário de infindos rabiscos que, afinal, até não saiam assim tão mal.

O bairro, sempre calmo por aquele tempo de calma de um verão infernalmente abrazador, de traça e graça geométricas em torno do jardim da parada. A menina ofélia da retrosaria sempre bem disposta vendia aqueles botões com âncora dourados às caixas; o senhor januário das fotografias sempre em estado de prontidão a dar ao gatilho do seu photomaton; e os velhotes que, acompanhando de copinhos de porto do mesmo, lá iam dando umas miradelas às pernas das moçoilas, de soslaio e com os kentucky de morrão já apagado ao canto das bocas desdentadas, as deles que as delas radiavam sorrisos trocistas de quem tem a certeza que o tempo nunca há-de passar, ou quanto muito apenas para os que passam as passas do algarve, e o folguedo dura para sempre. Pois sim.

Fiquei de voltar com notícias mas só agora posso contar o que sucedeu, e tanta coisa passou.

Com o empedrado da estrada dos prazeres pela frente, reluzente sob a soalheira até ao quatro de infantaria, e deixando as necessidades atrás, lá segui em passo acelerado rumo à praça da alegria, a são josé, porque queria encontrar-me com o senhor alfredo antes que partisse para o seu hamburgo e eu com ele, de aprendiz.

Quando nos encontrámos, mesmo a tempo de uma limonada no quiosque que também vendia almanaques raros, pincéis finos e mortalhas de enrolar, tinha em mãos as últimas pinceladas da carta. Hoje sei que aquela era a carta, a carta, mas o que sei hoje que então vi foi o acabar de escondê-la à vista de todos por todo este tempo.

Com o senhor dom carlos, keil passava umas temporadas à beira do zêzere, ali bem à beira da beira, que a ferreira do mesmo ainda é ribatejo, e por ali se apercebiam que os bretões haveriam de conspirar com outros tantos carbonatados para levar a água ao moinho de nigromantes que se pagariam de histórias velhas como o tempo, e decidiram deixar correr as belas águas pela ponte de vila que era do rei.

(A)guardariam (em) segredo até ao outro lado do tempo, quando fosse a hora de .

Foi muito tempo despois, já no destino distante daquele refresco fresco em tarde de canícula, que saberia da verdadeira carta na carta escondida porque foi preciso dar nova parede à tela. Lavando com cautelas e com terebentina ao de leve a página de branco zinco de pigmento quarenta e cinco, emergia do outro lado a pauta da real portugueza de heróis de mar e terra e guerra e tudo, que se vão levantar de novo num vento novo que lhes enfuna já as velas pelo mar do tempo que vem.

Cheguei hoje e vou agora, de metro, ao museu da música para ouvir tocar a portugueza e quero chegar a tempo ao alto dos moinhos neste monte de vendavais, com o rua da glória ao fundo. A ver se venho a tempo de ver devolvida a portugueza a portugal.