Havia em Campo d'Ourique um homem que não gostava de fotografias. Encontrava-o sempre, passeando pela calçada com o seu lobo de alsácia, entre o Santo Condestável e a esquina outrora lar de cinema com nome de continente por sinal moribundo no momento em que vos escrevo.
O cachorro, maneira de dizer, que tinha um porte altivo e garboso, dáva-se ao respeito espantando todos quantos por si passavam - e os que atravessam o empedrado para o ver apenas do outro lado - com o República preso entre as mandíbulas fortes mas elegantes, sempre lado a lado com o dono. Nem um passo adiante, nem um passo atrás e isto todos os dias anos a fio, o homem-que-não-gostava-de-fotografias e o seu Rebelde. Bom-dia, bom-dia e lá seguíamos aos nossos destinos. Destinos digo assim, a modo de não convencido, que isto de ir com destino ao nosso destino tem mais do que se lhe diga ou possa sequer imaginar no mais enleado dos sonhos.
O Rebelde, que imitava todos os gestos do dono - todos quantos a existência de cão lhe permitia - é, ainda hoje, o mais dócil dos cães lá do bairro. Ao vento do outono, solto e brilhante sob o sol dos verões, o Rebelde era o orgulho entre os adeptos do C.A.C.O. e o mais saudado dos convivas quando se apresentava, sempre com o dono e conduzindo-o com delicado cuidado.
Conhecido pelo Africano, do dono do Rebelde sabia-se que nascera numa aldeia, naquele tempo remota e muito para lá onde o suposto traidor teria perdido as botas, pelo sopé dos montes Hermínios. Um dia não se nota a diferença, dois ou três estalam que nem um relâmpago, um mês é passado distante e dei finalmente pela falta de ambos.
O Rebelde, hoje triste, sujo, uma sombra do lobo que foi, passeia-se ainda assim dócil mas desesperado de solidão pela calçada fria que conhece de cor, mas do Africano não mais ouvi falar mas ouvi dizer que desaparecera. As pessoas vão desaparecendo. Das que conheci, esfumaram-se umas hoje, outras por acolá, todas para além do pano fundo pintado de tinta esfumada que apenas consigo ver, desfocado.
O Africano tirava fotografias que a máquina registava e que ele nunca chegaria a ver. Tirava-as, sem parar, com a sua instamatic vinte-e-cinco de duas velocidades, daquelas que tinham o rolo em formato de cassete preta e que ganhara no longíquo Natal de setenta e poucos numa rifa que tirara no clube, com vontade mas sem fé. Foi a primeira vez que tinha tido sorte, teve-a ele e tive-a eu, que só assim fiquei a conhecer quem ele foi.
Tirava fotografias apontando ao som das coisas, dos pássaros e da brisa que agitava as árvores, tirava fotografias que só ele via na sua imaginação colorida e que hoje me mostraram a porta da sua alma, mas não gostava que lhe congelassem o olhar em pedaços de papel. Fazendo perguntas fiquei a saber que vivia numa apertada e fria água-furtada, ali mais abaixo para os lados de Santa Isabel, num prédio exíguo como exígua a escada que me levou à beira do seu mundo.
A senhoria ainda me deixou entrar por breves instantes, que a casa estava a ser esvaziada do espírito que lhe restava, mostrando-me uma velha arca, das que exitiram num tempo em que as arcas guardavam toda a vida de quem lhes confiava a vida toda, como o dono do Rebelde.
Encontrei cartas, fotografias ainda de um tempo mais antigo, recados em papel pardo de mercearia. O Africano tinha fabricado sonhos na África de outro tempo e desse império tinham sobrado dias de amargura, tendo voltado aqui mas para não voltar à sua aldeia, que vi emoldurada no fundo do tesouro. Libertei-a do pó da memória levando-a à luz breve que iluminava o espaço, coada pelo vidro sujo da janela e dela vi levantar-se um esfumado cor da pura cor que me disse onde devia procurá-lo.
Visitei-o em Nabainhos e dos que tinham partido todos se lembraram dele.
sexta-feira, 31 de outubro de 2008
quarta-feira, 29 de outubro de 2008
Terceira ordem, a contar do fundo do palco.
Segunda-feira, já o lusco-fusco húmido do fim de tarde amolecia o Chiado enquanto, em principio de semana e lá fora vistos da janela, se recolhiam a casa os obreiros das semanas que, alinhadas, se irmanavam no calendário quase esgotado desse ano.
Mas aquela não seria uma semana qualquer. Eu chegava do lado de lá a tempo, esgueirando-me pela magra frincha da porta que teimava em manter-se assim, segura de não querer ceder ao seu próprio capricho. Mas nascia, a tempo de assitir à missa de todos os santos na igreja da misericórdia, ali ao lado.
Medido na escala de tempo do tempo pelo qual agora acerto o relógio e marco-passo, fazia tanto tempo que estava fora que voltar à cena, ao borburinho que antecede o subir do pano e ao nervoso miudinho da estreia, era a mais fantástica aventura do último milénio. E os (meus) Supremes lançavam The hapenning.
Suponho - e hoje calculo melhor - que por aqueles dias de noites mal dormidas e de horas atrasadas para estar onde fazia falta, apenas a felicidade de uma nova vida para uma vida renovada, renascida, enfeitiçava os corpos cansados e as almas inquietas, alimentando-lhes de esperança a esperança na nova vida, de todos. E caminhavam.
Seria duro o caminho, como é sempre íngreme a colina do nascer. Assim foi na colina dos mártires noutro tempo, há muito tempo e agora também acontecia assim.
Mas bem colado com o fundo do palco, na terceira ordem fazia eco o sorver sôfrego do primeiro ar, a pleno pulmão, ecoando acordes desafinados de choro com poema de rima em felicidade, com São Francisco como anfitrião e coros celestiais.
A nossa colina tornar-se-ia bem ingreme, de uma calçada escorregadia de pedra grada sob o aguaceiro de lágrimas e de suor que nos estiveram reservados. Mas por fim a luz mostrou-se, como se mostra sempre, por detrás do negrume de um céu baixo que se esfumou aos poucos deixando espaço para o céu claro de luz radiante e bela, deixando ver, por fim, os coros que naquele dia fizeram questão em cantar à nova vida que encarnava.
O pano subia, depois da terceira ordem a contar do fundo do palco.
Mas aquela não seria uma semana qualquer. Eu chegava do lado de lá a tempo, esgueirando-me pela magra frincha da porta que teimava em manter-se assim, segura de não querer ceder ao seu próprio capricho. Mas nascia, a tempo de assitir à missa de todos os santos na igreja da misericórdia, ali ao lado.
Medido na escala de tempo do tempo pelo qual agora acerto o relógio e marco-passo, fazia tanto tempo que estava fora que voltar à cena, ao borburinho que antecede o subir do pano e ao nervoso miudinho da estreia, era a mais fantástica aventura do último milénio. E os (meus) Supremes lançavam The hapenning.
Suponho - e hoje calculo melhor - que por aqueles dias de noites mal dormidas e de horas atrasadas para estar onde fazia falta, apenas a felicidade de uma nova vida para uma vida renovada, renascida, enfeitiçava os corpos cansados e as almas inquietas, alimentando-lhes de esperança a esperança na nova vida, de todos. E caminhavam.
Seria duro o caminho, como é sempre íngreme a colina do nascer. Assim foi na colina dos mártires noutro tempo, há muito tempo e agora também acontecia assim.
Mas bem colado com o fundo do palco, na terceira ordem fazia eco o sorver sôfrego do primeiro ar, a pleno pulmão, ecoando acordes desafinados de choro com poema de rima em felicidade, com São Francisco como anfitrião e coros celestiais.
A nossa colina tornar-se-ia bem ingreme, de uma calçada escorregadia de pedra grada sob o aguaceiro de lágrimas e de suor que nos estiveram reservados. Mas por fim a luz mostrou-se, como se mostra sempre, por detrás do negrume de um céu baixo que se esfumou aos poucos deixando espaço para o céu claro de luz radiante e bela, deixando ver, por fim, os coros que naquele dia fizeram questão em cantar à nova vida que encarnava.
O pano subia, depois da terceira ordem a contar do fundo do palco.
terça-feira, 28 de outubro de 2008
Amanhã posso esperar por si?
Liberta da luva asfixiante que lhe estrangulava a alma, naquela manhã pude voltar a vê-la da varanda do miradouro enquanto procurava o vazio no rio de tantas travessias, sempre presente.
Não vos tinha contado ainda, mas estou seguro que, como eu, ficariam felizes por ver flutuar ao longe e tão perto aquela borboleta colorida, ave do paraiso, reflectida nas águas levemente onduladas do Tejo. Onduladas como foram os seus cabelos cheios de jeitos, penteados à vontade do vento na amurada do cacilheiro.
Soltas as grossas amarras, afastando-se primeiro lentamente e depois bem depressa da amarração, parte para mais uma viagem e outra ainda, espera-se pelo devir e pelo dia seguinte, pelo seguinte olhar, pelo próximo tocar de mãos, ao de leve, leve como a brisa que sopra dos lados de levante.
Amanhã posso esperar por si? E lá estava à sua espera como quem espera pela salvação de uma vida, trazida para bordo. No dia seguinte e em todos os que a esse se seguiram, até que dois se tornaram apenas num, antes de sermos três.
E lá na outra margem está hoje, pacientemente, à sua espera. Até ao infinito.
Não vos tinha contado ainda, mas estou seguro que, como eu, ficariam felizes por ver flutuar ao longe e tão perto aquela borboleta colorida, ave do paraiso, reflectida nas águas levemente onduladas do Tejo. Onduladas como foram os seus cabelos cheios de jeitos, penteados à vontade do vento na amurada do cacilheiro.
Soltas as grossas amarras, afastando-se primeiro lentamente e depois bem depressa da amarração, parte para mais uma viagem e outra ainda, espera-se pelo devir e pelo dia seguinte, pelo seguinte olhar, pelo próximo tocar de mãos, ao de leve, leve como a brisa que sopra dos lados de levante.
Amanhã posso esperar por si? E lá estava à sua espera como quem espera pela salvação de uma vida, trazida para bordo. No dia seguinte e em todos os que a esse se seguiram, até que dois se tornaram apenas num, antes de sermos três.
E lá na outra margem está hoje, pacientemente, à sua espera. Até ao infinito.
domingo, 26 de outubro de 2008
Do outro lado do rio.
Enquanto a mãe terminava o nosso almoço e o belo arroz doce da nossa predilecção, saíamos os dois a caminho da nossa aventura das manhã de domingo.
Para um miúdo de quatro anos tudo é aventura, ainda por cima pela mão do pai, pelo que a daquele domingo ficaria para sempre, soube isso hoje.
Passados pelos quiosque da praça da renovação que viria a chamar-se de outra forma e revigorados um com a sua bica escaldada e outro com a sua bola de berlim, com bê pequeno porque a daquela cidade nada têm que ver com estas, lá subíamos aos paços velhos.
Quando dávamos conta ali estava, à nossa beira, o coreto e a velha árvore de retorcidas raizes centenárias à sobra da qual tantas felicidades tiveram lugar e outra tantas se imaginaram.
O coreto lá está de pé, bonito, à espera das bandas, incríveis, que por lá nunca mais vi mas que sei existirem; da árvore sobra a memória da sombra que estendia a São Tiago, ali ao lado.
O meu pai sentava-se com o seu jornal, virado de frente para a sua e nossa cidade, lá no alto da varanda do miradouro – nome estranho tratando-se do Tejo – que nos oferecia o espelho da vida da capital lá longe, buliciosa e tão bela.
O pai ainda podia ler as notícias, que noutros domingos não mais pôde ler e eu corria e saltava, fazia chicanes que só não eram intermináveis porque lá me espalhava na calçada, terminando a minha meteórica carreira de piloto de fórmula um com uns quantos pensos rápidos alinhados nos joelhos, o que, de resto, até tinha a sua graça.
Encontrei-o esta manhã a ler as nossa notícias, o meu pai sorriu-me; vi-me a correr todo o recinto e ficámos juntos em todas as fotografias.
E a sombra do jornal diluiu-se, fundindo-se com os brilhos das luzes que vinham do outro lado do rio, porque a luz não pára de iluminar-nos, do outro lado do rio.
Para um miúdo de quatro anos tudo é aventura, ainda por cima pela mão do pai, pelo que a daquele domingo ficaria para sempre, soube isso hoje.
Passados pelos quiosque da praça da renovação que viria a chamar-se de outra forma e revigorados um com a sua bica escaldada e outro com a sua bola de berlim, com bê pequeno porque a daquela cidade nada têm que ver com estas, lá subíamos aos paços velhos.
Quando dávamos conta ali estava, à nossa beira, o coreto e a velha árvore de retorcidas raizes centenárias à sobra da qual tantas felicidades tiveram lugar e outra tantas se imaginaram.
O coreto lá está de pé, bonito, à espera das bandas, incríveis, que por lá nunca mais vi mas que sei existirem; da árvore sobra a memória da sombra que estendia a São Tiago, ali ao lado.
O meu pai sentava-se com o seu jornal, virado de frente para a sua e nossa cidade, lá no alto da varanda do miradouro – nome estranho tratando-se do Tejo – que nos oferecia o espelho da vida da capital lá longe, buliciosa e tão bela.
O pai ainda podia ler as notícias, que noutros domingos não mais pôde ler e eu corria e saltava, fazia chicanes que só não eram intermináveis porque lá me espalhava na calçada, terminando a minha meteórica carreira de piloto de fórmula um com uns quantos pensos rápidos alinhados nos joelhos, o que, de resto, até tinha a sua graça.
Encontrei-o esta manhã a ler as nossa notícias, o meu pai sorriu-me; vi-me a correr todo o recinto e ficámos juntos em todas as fotografias.
E a sombra do jornal diluiu-se, fundindo-se com os brilhos das luzes que vinham do outro lado do rio, porque a luz não pára de iluminar-nos, do outro lado do rio.
sexta-feira, 24 de outubro de 2008
Parabéns amigo e, já agora, obrigado.
Foi há muito tempo, mas com o tempo nunca se sabe bem o que pensar, dizer, sentir. Naquela manhã do princípio da escola, da primeira escola, num tempo em que o tempo ainda não tinha pensado sequer em surpreender-nos com umas surpresas, conheci aquele que é o meu amigo há mais tempo. Agora que penso nisso, penso que isso do tempo é mesmo interessante, como se tivesse sido ainda ontem, ou mesmo agora.
De facto, daqueles primeiros dias que não podem voltar a acontecer, pelo menos no espaço em que se passa o tempo a que nos habituámos, guardo no coração a magia de brincar e pular e aprender mais e mais e guardo dois nomes apenas.
Um deles não voltaria a encontrar, o outro nunca desapareceria. E ficámos amigos. Porque sim e ainda bem, porque deste lado do tempo, passou tanto tempo afinal, seria eu a perder se não tivesse acontecido ter ido ali parar.
Mas aconteceria, pelos dias do auge da acção das corridas a perder de vista com os novos amigos da nova escola, o maior dos dramas, mudar escola. Todo o castelo de cartas se desmoronaria, numa tragédia do tamanho de um vale de lágrimas, uma desilusão tamanho do mundo conhecido que ia de nossa casa à rua da escola primária.
E o tempo passa, qual rastilho ateado correndo à velocidade da luz, no filme produzido nos estúdios do grande
realizador universal, levantando o véu do que há-de vir, escondendo os detalhes do guião dos nossos personagens, por decifrar.
E voltámos a encontar-nos uma e outra vez, outra e mais uma, sem nos perdermos mais de vista, porque uma pessoa não pode deixar de estar no filme que é o seu, de sofrer as suas dores tantas vezes excrucitantes demais e agarrar as felicidades, sempre sublimes, que se lhe destinam.
É uma bênção tê-los por perto ou mesmo tendo-os ao longe no espaço, passe o que passar, eles estão por ali tão perto, apenas à espera de poder abraçar-nos, porque estão no nosso tempo à distância de um pensamento. Amigos de uma vida.
Parabéns amigo e, já agora, obrigado.
De facto, daqueles primeiros dias que não podem voltar a acontecer, pelo menos no espaço em que se passa o tempo a que nos habituámos, guardo no coração a magia de brincar e pular e aprender mais e mais e guardo dois nomes apenas.
Um deles não voltaria a encontrar, o outro nunca desapareceria. E ficámos amigos. Porque sim e ainda bem, porque deste lado do tempo, passou tanto tempo afinal, seria eu a perder se não tivesse acontecido ter ido ali parar.
Mas aconteceria, pelos dias do auge da acção das corridas a perder de vista com os novos amigos da nova escola, o maior dos dramas, mudar escola. Todo o castelo de cartas se desmoronaria, numa tragédia do tamanho de um vale de lágrimas, uma desilusão tamanho do mundo conhecido que ia de nossa casa à rua da escola primária.
E o tempo passa, qual rastilho ateado correndo à velocidade da luz, no filme produzido nos estúdios do grande
realizador universal, levantando o véu do que há-de vir, escondendo os detalhes do guião dos nossos personagens, por decifrar.
E voltámos a encontar-nos uma e outra vez, outra e mais uma, sem nos perdermos mais de vista, porque uma pessoa não pode deixar de estar no filme que é o seu, de sofrer as suas dores tantas vezes excrucitantes demais e agarrar as felicidades, sempre sublimes, que se lhe destinam.
É uma bênção tê-los por perto ou mesmo tendo-os ao longe no espaço, passe o que passar, eles estão por ali tão perto, apenas à espera de poder abraçar-nos, porque estão no nosso tempo à distância de um pensamento. Amigos de uma vida.
Parabéns amigo e, já agora, obrigado.
quinta-feira, 23 de outubro de 2008
O cobrador.
Fui astronauta, fui mergulhador, também fui electricista, num tempo em que ser o personagem de uma história bizarra era o tema principal da conversa apressada entre os putos lá da rua, qualquer que ela fosse.
Um dia fui gatuno de verdade e não escapei sem castigo, justo como um castigo justo deve ser. Num outro também fui bombeiro imaginário de um incêndio que haveria de lavrar noutra rua, anos mais tarde ali para os lados onde nasci, umas ruas mais abaixo logo depois do Chiado. Mas aos cinco anos o que eu gostava mesmo era de ser cobrador.
Cobrador dos que existiam no tempo em se passeavam pelo autocarro ao ritmo das curvas, lá da frente até lá ao fundo, ida e volta sem parar, fazendo tilintar a malinha das moedas e distribuindo bilhetes coloridos aos felizardos que se dirigiam de encontro às surpresas, boas e más, de mil encontros. Era o que aquele cobrador achava, mas ele apenas fazia a carreira número cinco.
Tantos que coleccionei, uma miríade de quadradinhos azuis, amarelos, encarnados, de todas as cores dos destinos possíveis que a minha carreira desenhava; enxameariam o chão da nossa cozinha e o resto da casa, para desespero da minha mãe. Cidade-a-cima, cidade-a-baixo, viagens repetidas até à conversa que haveria de mudar o destino do cobrador que aquele cobrador tinha sonhado ser.
Levei velhotas ao hospital velho, que o novo nasceria quase uma eternidade depois, bilhete encarnado, dois tostões se faz favor. Viajei a todas as partes que sabia e a outras tantas no momento inventadas, bilhete amarelo e mais umas caricas de gasosa BB no seu papel de moedas reluzentes.
Mas com a dona Ermelinda era diferente, ia até perto do talho e aí sim, aí a deixava que ela sofria e caminhar, mesmo que pouco, era sempre um valente esforço nos seus oitentas e qualquer coisa já nesse tempo. Não lhe cobrava bilhete.
Nunca mais vi a dona Ermelinda, mas lembro-me do valente choque eléctrico que apanhei no fio do candeiro que ela tinha na sua sala e no qual tive que mexer apenas porque sim, numa tarde em que, por uma qualquer razão, a minha mãe me levou consigo na breve visita que lhe fez. Caramba. Se a carreira tivesse saído nessa tarde não tinha apanhado aquele choque. Mas não saiu e ainda me lembro do esticão.
Para compensação contar-me-ia a verdade. O que a verdade me doeu, porque a verdade tem esse condão. Tanta esperança e agora aquilo.
Não é que a minha mãe me dizia, com a sua paciência infinita e um jeito que só ela, que as moedas não eram dos senhores cobradores, que afinal pertenciam a uma tal de empresa, que no fim do dia o autocarro ia para a garagem e o senhor lá deixava cheia a sua malinha e que no outro dia, isso sim, lá começava tudo de novo, agora com a maldita malinha vazia. Que balde água fria. Podia lá ser, que injustiça.
E assim descobri como funcionava o mundo no mundo prático das coisas do mundo de todos os dias, como só as mães sabem ensinar aos filhos.
As aparências iludem neste jogo de sedução e de so(m)bras e terminava a carreira do cobrador da carreira número cinco.
Um dia fui gatuno de verdade e não escapei sem castigo, justo como um castigo justo deve ser. Num outro também fui bombeiro imaginário de um incêndio que haveria de lavrar noutra rua, anos mais tarde ali para os lados onde nasci, umas ruas mais abaixo logo depois do Chiado. Mas aos cinco anos o que eu gostava mesmo era de ser cobrador.
Cobrador dos que existiam no tempo em se passeavam pelo autocarro ao ritmo das curvas, lá da frente até lá ao fundo, ida e volta sem parar, fazendo tilintar a malinha das moedas e distribuindo bilhetes coloridos aos felizardos que se dirigiam de encontro às surpresas, boas e más, de mil encontros. Era o que aquele cobrador achava, mas ele apenas fazia a carreira número cinco.
Tantos que coleccionei, uma miríade de quadradinhos azuis, amarelos, encarnados, de todas as cores dos destinos possíveis que a minha carreira desenhava; enxameariam o chão da nossa cozinha e o resto da casa, para desespero da minha mãe. Cidade-a-cima, cidade-a-baixo, viagens repetidas até à conversa que haveria de mudar o destino do cobrador que aquele cobrador tinha sonhado ser.
Levei velhotas ao hospital velho, que o novo nasceria quase uma eternidade depois, bilhete encarnado, dois tostões se faz favor. Viajei a todas as partes que sabia e a outras tantas no momento inventadas, bilhete amarelo e mais umas caricas de gasosa BB no seu papel de moedas reluzentes.
Mas com a dona Ermelinda era diferente, ia até perto do talho e aí sim, aí a deixava que ela sofria e caminhar, mesmo que pouco, era sempre um valente esforço nos seus oitentas e qualquer coisa já nesse tempo. Não lhe cobrava bilhete.
Nunca mais vi a dona Ermelinda, mas lembro-me do valente choque eléctrico que apanhei no fio do candeiro que ela tinha na sua sala e no qual tive que mexer apenas porque sim, numa tarde em que, por uma qualquer razão, a minha mãe me levou consigo na breve visita que lhe fez. Caramba. Se a carreira tivesse saído nessa tarde não tinha apanhado aquele choque. Mas não saiu e ainda me lembro do esticão.
Para compensação contar-me-ia a verdade. O que a verdade me doeu, porque a verdade tem esse condão. Tanta esperança e agora aquilo.
Não é que a minha mãe me dizia, com a sua paciência infinita e um jeito que só ela, que as moedas não eram dos senhores cobradores, que afinal pertenciam a uma tal de empresa, que no fim do dia o autocarro ia para a garagem e o senhor lá deixava cheia a sua malinha e que no outro dia, isso sim, lá começava tudo de novo, agora com a maldita malinha vazia. Que balde água fria. Podia lá ser, que injustiça.
E assim descobri como funcionava o mundo no mundo prático das coisas do mundo de todos os dias, como só as mães sabem ensinar aos filhos.
As aparências iludem neste jogo de sedução e de so(m)bras e terminava a carreira do cobrador da carreira número cinco.
terça-feira, 21 de outubro de 2008
Navio preso nos baixios.
Hoje senti o cansaço da vida. Senti-o tão forte que doi de pensar na impotência que me paraliza quando penso na vontade que me sobra, mas solucionar o caso é magia muito além.
O que eu gostava mesmo era de vos contar hoje uma história alegre, do tipo das que se recordam quando pensamos nos baloiços, nos escorregas e nos cavalinhos dos jardins de outro tempo, do tempo em que o tempo sobrava e o cansaço nem existia na paleta de cores, jardins do tempo em que o tempo se escoava em câmara lenta dentro da clepsidra com a areia escrita com recentes aventuras.
O navio sobrevive a custo, rangendo o madeirame, apenas unido pela força que o fez juntar, encalhado num mar de baixios, continua ao sabor da maré a marcar o ritmo de um tempo excêntrico com os cabos esgaçados, uns e frouxos, outros, na amarração que a vida lhe destinou.
E assim vamos baloiçando nesse mar incerto, escorregando pelas ondas alterosas que o destino, soprando, vai lançando contra a amurada, vagas para cavalgarmos com o nosso cavalinho de madeira de sempre, como se de outra aventura se tratasse.
Vejo ao longe a ampulheta numa mão mas recusar-me-ei sempre a conceder o ponto à foice que, ligeira, pretende fazer-se visível na outra. Vejo que o transitório acelera de forma nada linear mas nada quero ter a ver com isso enquanto fôr deste mundo.
Qualquer dia conto-vos uma história feliz.
O que eu gostava mesmo era de vos contar hoje uma história alegre, do tipo das que se recordam quando pensamos nos baloiços, nos escorregas e nos cavalinhos dos jardins de outro tempo, do tempo em que o tempo sobrava e o cansaço nem existia na paleta de cores, jardins do tempo em que o tempo se escoava em câmara lenta dentro da clepsidra com a areia escrita com recentes aventuras.
O navio sobrevive a custo, rangendo o madeirame, apenas unido pela força que o fez juntar, encalhado num mar de baixios, continua ao sabor da maré a marcar o ritmo de um tempo excêntrico com os cabos esgaçados, uns e frouxos, outros, na amarração que a vida lhe destinou.
E assim vamos baloiçando nesse mar incerto, escorregando pelas ondas alterosas que o destino, soprando, vai lançando contra a amurada, vagas para cavalgarmos com o nosso cavalinho de madeira de sempre, como se de outra aventura se tratasse.
Vejo ao longe a ampulheta numa mão mas recusar-me-ei sempre a conceder o ponto à foice que, ligeira, pretende fazer-se visível na outra. Vejo que o transitório acelera de forma nada linear mas nada quero ter a ver com isso enquanto fôr deste mundo.
Qualquer dia conto-vos uma história feliz.
segunda-feira, 20 de outubro de 2008
Letras na areia.
Foi a minha mãe que me ensinou as primeiras letras. E isto por uma simples razão: o calendário. Naquela altura, os miúdos nascidos em Outubro e ainda com seis anos não podiam, por regra, ingressar na escola primária. Isto que parece hoje - e é, de facto - completamente deslocado da realidade, tinha um preço alto a pagar. Demasiadamente elevado.
Na nossa terra de então as possibilidades de frequentar a escola antes da escola eram remotas demais para nós e o preço daquela frustração pagava-se esperando todo um interminável ano inteiro após o que, aí sim, as portas da escola se abririam de par-em-par, franqueando-se aos excluídos do ano anterior o acesso ao bê-á-bá oficial, a partir daí sentados naquelas carteiras de pau duras que se fartava. Era assim, nada mais do que assim. E pronto.
E foi deste modo, náufrago da escola depois do batel que traria a esperança de novas aventuras, de fantásticas letras e de infinitos números ter ido a pique, que cheguei à minha praia. E lá encontrei, como sempre, sob um sol ameno, a minha primeira professora de muitas lições da vida.
Que paciência infinita ensinando-me o desenho preciso das minúsculas e o decalque das maiúsculas como se de um treino para artífice da rua da prata se tratasse. Desenhei tantas páginas com éfes-de-faquinha, com ís-de-pintinha e com zês-de-zorro que provavelmente dariam para fiar um enorme rosário.
E assim, de uma só vez, aprendi também a contagem com os números que, inteiros, me levavam do primeiro ao infinito na contagem dos cadernos da família pituxa que ia devorando, um após outro à cadência de fiadas de ditados, cópias e contas.
E quando demos conta, tinha passado o ano, eu tinha passado ao próximo nível do jogo, a minha mãe sobrevivia ao embate. Eu já sabia escrever, ler e contar e lá ia, inchado que nem um sapo ao amazonas, a caminho da escola oficial com a mala nova pintada com o pélé, o pico-pico e o zé.
Um ano passou, passou outro e tantos passaram, porque os dias passam devagar e os anos a correr, já alguém disse. Ainda bem que pudémos escrever muitas páginas com as letras que a minha mãe me ensinou. Escreveríamos uma enciclopédia de dificuldades, alegrias e felicidades.
Também ele de ritmo imparável, o ourives do tempo teceu de prata os seus cabelos, como de prata é o mar que reflete a luz das estrelas, levando da areia as letras das suas e nossas memórias ao ritmo dos dias que passam, rapidamente, rumo ao mar maior.
E é assim, até nada sobrar escrito nas folhas do caderno, de novo em branco, que continuaremos a escrever até ao outro lado do mar.
Na nossa terra de então as possibilidades de frequentar a escola antes da escola eram remotas demais para nós e o preço daquela frustração pagava-se esperando todo um interminável ano inteiro após o que, aí sim, as portas da escola se abririam de par-em-par, franqueando-se aos excluídos do ano anterior o acesso ao bê-á-bá oficial, a partir daí sentados naquelas carteiras de pau duras que se fartava. Era assim, nada mais do que assim. E pronto.
E foi deste modo, náufrago da escola depois do batel que traria a esperança de novas aventuras, de fantásticas letras e de infinitos números ter ido a pique, que cheguei à minha praia. E lá encontrei, como sempre, sob um sol ameno, a minha primeira professora de muitas lições da vida.
Que paciência infinita ensinando-me o desenho preciso das minúsculas e o decalque das maiúsculas como se de um treino para artífice da rua da prata se tratasse. Desenhei tantas páginas com éfes-de-faquinha, com ís-de-pintinha e com zês-de-zorro que provavelmente dariam para fiar um enorme rosário.
E assim, de uma só vez, aprendi também a contagem com os números que, inteiros, me levavam do primeiro ao infinito na contagem dos cadernos da família pituxa que ia devorando, um após outro à cadência de fiadas de ditados, cópias e contas.
E quando demos conta, tinha passado o ano, eu tinha passado ao próximo nível do jogo, a minha mãe sobrevivia ao embate. Eu já sabia escrever, ler e contar e lá ia, inchado que nem um sapo ao amazonas, a caminho da escola oficial com a mala nova pintada com o pélé, o pico-pico e o zé.
Um ano passou, passou outro e tantos passaram, porque os dias passam devagar e os anos a correr, já alguém disse. Ainda bem que pudémos escrever muitas páginas com as letras que a minha mãe me ensinou. Escreveríamos uma enciclopédia de dificuldades, alegrias e felicidades.
Também ele de ritmo imparável, o ourives do tempo teceu de prata os seus cabelos, como de prata é o mar que reflete a luz das estrelas, levando da areia as letras das suas e nossas memórias ao ritmo dos dias que passam, rapidamente, rumo ao mar maior.
E é assim, até nada sobrar escrito nas folhas do caderno, de novo em branco, que continuaremos a escrever até ao outro lado do mar.
domingo, 19 de outubro de 2008
O homem que soprava a varinha mágica.
A visita de estudo que na primavera a professora promovera mudaria para sempre a minha vida. Apresentou-me o homem que soprava a varinha mágica.
A vida activa de um catraio irrequieto de oito anos leva-o todos os dias do mundo a um mundo de imaginários, mas daquela vez a coisa estava para além do que a imaginação tivesse podido desenhar.
Qual encantador de serpentes num mundo de calor infernal e hipnótico, o homem da varinha mágica soprava vida dando vida ao vidro vivo na outra ponta da fina vara metálica que fazia rodar num contínuo eterno, habilidoso e com a mestria de quem o faz desde o princípio do mundo.
De inúmeras cores e raças, nascia à cadência da sua vontade um mundo de figurinhas de vidro destinadas a uma vida frágil e transitória, com um tempo contado pela ampulheta incansável do tempo infindo até ao momento de se partirem e partirem.
Há dias, anos após esse momento tão marcante para o pirralho que então se espantava e tantos bonecos depois, disseram-me que da varinha mágica continuam a nascer vidas coloridas, vidas frágeis, na ilusão de tudo poderem porque nascem da varinha do homem da varinha mágica, numa sofreguidão tentando em vão contrarir o descer do pano da sua deixa.
Aos bonecos de vidro coloridos tinha sido dada a vontade de decidir e decidiram abandonar o homem da varinha mágica e o seu esforço de criação de harmonia, até que por fim voltaram a acreditar nele como um filho acredita no seu pai.
Eu tinha aprendido que o homem da varinha mágica comandava a dádiva da vida dos bonecos de vidro. Ele é; eles existem.
A vida activa de um catraio irrequieto de oito anos leva-o todos os dias do mundo a um mundo de imaginários, mas daquela vez a coisa estava para além do que a imaginação tivesse podido desenhar.
Qual encantador de serpentes num mundo de calor infernal e hipnótico, o homem da varinha mágica soprava vida dando vida ao vidro vivo na outra ponta da fina vara metálica que fazia rodar num contínuo eterno, habilidoso e com a mestria de quem o faz desde o princípio do mundo.
De inúmeras cores e raças, nascia à cadência da sua vontade um mundo de figurinhas de vidro destinadas a uma vida frágil e transitória, com um tempo contado pela ampulheta incansável do tempo infindo até ao momento de se partirem e partirem.
Há dias, anos após esse momento tão marcante para o pirralho que então se espantava e tantos bonecos depois, disseram-me que da varinha mágica continuam a nascer vidas coloridas, vidas frágeis, na ilusão de tudo poderem porque nascem da varinha do homem da varinha mágica, numa sofreguidão tentando em vão contrarir o descer do pano da sua deixa.
Aos bonecos de vidro coloridos tinha sido dada a vontade de decidir e decidiram abandonar o homem da varinha mágica e o seu esforço de criação de harmonia, até que por fim voltaram a acreditar nele como um filho acredita no seu pai.
Eu tinha aprendido que o homem da varinha mágica comandava a dádiva da vida dos bonecos de vidro. Ele é; eles existem.
sexta-feira, 17 de outubro de 2008
Até logo.
Nem em gaiato gostava de dizer adeus.
Parecia-me que o tempo não poderia acabar em tempo algum, pelo que estragar o tempo disponível, sempre pouco e em despedidas fúteis, era luxo que não podíamos oferecer-nos e adiavamos, assim, a inevitabilidade do adeus irreversível.
E foi assim por tanto tempo, até que o tempo inevitável chegou por fim, para assim lhe pôr fim. Longo até sempre, largo sofrimento, visto da minha janela escancarada para entender, sem nada perceber.
Conversámos nesse tempo eterno para recuperar o tempo perdido e o que não viríamos a ter, minutos para sempre escritos a preto na memória e tão breves na longa duração da dor. De ambos.
Havia anos que o pai estava confinado ao seu espaço, numa eterna encenação onde apenas a ele esteve reservado o papel de ver para lá de ver, antes de ver absolutamente.
Foi duro, como o seu próprio carácter, mas nunca desistindo, jamais quebrando, chama intensa, farol do Bugio, onde em miúdo chegava a vau com a maralha do seu tempo num tempo tão diferente do tempo de hoje.
Naquele Junho o espaço do pai voltava a encolher, num rude golpe, para o confinar a si próprio e aos sons que lhe chegavam da rua, da música que amava e que fiz ouvir num desespero intransponível, do zumbir das pás da ventoínha que atenuavam o calor insuportável daquele seu derradeiro verão conosco.
Era isto a inevitabilidade do adeus inadiável. Dissémos até logo e pelo final dessa tarde naquele Outubro já não existia dor e estávamos a caminho do nosso Bugio.
Até logo, meu pai.
Parecia-me que o tempo não poderia acabar em tempo algum, pelo que estragar o tempo disponível, sempre pouco e em despedidas fúteis, era luxo que não podíamos oferecer-nos e adiavamos, assim, a inevitabilidade do adeus irreversível.
E foi assim por tanto tempo, até que o tempo inevitável chegou por fim, para assim lhe pôr fim. Longo até sempre, largo sofrimento, visto da minha janela escancarada para entender, sem nada perceber.
Conversámos nesse tempo eterno para recuperar o tempo perdido e o que não viríamos a ter, minutos para sempre escritos a preto na memória e tão breves na longa duração da dor. De ambos.
Havia anos que o pai estava confinado ao seu espaço, numa eterna encenação onde apenas a ele esteve reservado o papel de ver para lá de ver, antes de ver absolutamente.
Foi duro, como o seu próprio carácter, mas nunca desistindo, jamais quebrando, chama intensa, farol do Bugio, onde em miúdo chegava a vau com a maralha do seu tempo num tempo tão diferente do tempo de hoje.
Naquele Junho o espaço do pai voltava a encolher, num rude golpe, para o confinar a si próprio e aos sons que lhe chegavam da rua, da música que amava e que fiz ouvir num desespero intransponível, do zumbir das pás da ventoínha que atenuavam o calor insuportável daquele seu derradeiro verão conosco.
Era isto a inevitabilidade do adeus inadiável. Dissémos até logo e pelo final dessa tarde naquele Outubro já não existia dor e estávamos a caminho do nosso Bugio.
Até logo, meu pai.
A caixa de lápis de cores.
Houve um tempo, num tempo não assim tão distante, em que havia coisas que valiam pela força dos sonhos que ajudavam a construir.
E assim aconteceu com aquela caixa de lápis de cores: fizémo-nos companhia por horas esquecidos do mundo ao lado. Lápis de todas as cores do arco-íris de luz de todas as luas e sóis.
Com eles, afiados uma e outra vez até não sobrar mais do que o traço imaginado, pintei meninos e meninas que, de mãos dadas, brincavam em pomares floridos de macieiras quase a despontar por todo o mundo.
Pintei caravelas desbravando os mares da nossa descoberta, valorosa, premiada. Pintei lugares em lugares de todas as cores e estrelas do firmamento.
E de tantas cores riscadas com os meus lápis, no papel se juntaram sombras e luz que do outro lado da vidraça da janela do sonho sopravam lufadas de cor dando vida aos meus bonecos, aos bonecos toscos que saiam do papel para fazer o papel dos bonecos que, juntos, eu sou.
Guardo ainda a minha caixa de lápis de cores e os desenhos do meu sonho.
E assim aconteceu com aquela caixa de lápis de cores: fizémo-nos companhia por horas esquecidos do mundo ao lado. Lápis de todas as cores do arco-íris de luz de todas as luas e sóis.
Com eles, afiados uma e outra vez até não sobrar mais do que o traço imaginado, pintei meninos e meninas que, de mãos dadas, brincavam em pomares floridos de macieiras quase a despontar por todo o mundo.
Pintei caravelas desbravando os mares da nossa descoberta, valorosa, premiada. Pintei lugares em lugares de todas as cores e estrelas do firmamento.
E de tantas cores riscadas com os meus lápis, no papel se juntaram sombras e luz que do outro lado da vidraça da janela do sonho sopravam lufadas de cor dando vida aos meus bonecos, aos bonecos toscos que saiam do papel para fazer o papel dos bonecos que, juntos, eu sou.
Guardo ainda a minha caixa de lápis de cores e os desenhos do meu sonho.
quinta-feira, 16 de outubro de 2008
As flores são lindas.
A minha mãe gosta tanto de flores. Tem por elas um amor como o que se tem por um filho e por um filho têm-se um amor infinito. E sempre gostou.
E eu gosto muito que esse amor exista porque assim existe uma força que nos continua a levar à nossa casa.
Hoje, com a nossa casa silenciosa depois que o pai voltou para casa e que a mãe lentamente se lhe vai juntando num irreversível e inexorável baile, as flores da mãe e também as minhas são a cola do que foi com o que há-de acontecer-nos.
Nos finais de tarde dos dias de enfrentar o espaço vazio e escondidos dos olhares a mais, matamos sede e saudades. Juntos, eu e as flores da minha mãe.
Dizem os antigos que tudo se herda. Se calhar é mesmo assim e assim deve ser há tanto tempo. Eu também gosto. Muito. E tenho tanta e tanta sorte que as flores gostem também de mim.
E são tão bonitas as flores do meu jardim do meu mundo. As mais lindas, tão lindas que fazem calar o barulho silencioso de um tempo que voltará apenas quando o tempo de partir chegar.
E eu gosto muito que esse amor exista porque assim existe uma força que nos continua a levar à nossa casa.
Hoje, com a nossa casa silenciosa depois que o pai voltou para casa e que a mãe lentamente se lhe vai juntando num irreversível e inexorável baile, as flores da mãe e também as minhas são a cola do que foi com o que há-de acontecer-nos.
Nos finais de tarde dos dias de enfrentar o espaço vazio e escondidos dos olhares a mais, matamos sede e saudades. Juntos, eu e as flores da minha mãe.
Dizem os antigos que tudo se herda. Se calhar é mesmo assim e assim deve ser há tanto tempo. Eu também gosto. Muito. E tenho tanta e tanta sorte que as flores gostem também de mim.
E são tão bonitas as flores do meu jardim do meu mundo. As mais lindas, tão lindas que fazem calar o barulho silencioso de um tempo que voltará apenas quando o tempo de partir chegar.
quarta-feira, 15 de outubro de 2008
Cromos do Vicky pelas missangas.
Naquela tarde de um dia do verão quente daquele ano, emudeceu de espanto o meu pai ao chegar a casa.
Eu, corado que nem um perú do Natal ainda distante à conta da corrida empenhada em que nos esforçámos em força lá na rua durante horas, deambulava decorado com uma pulseira de missangas com tantas voltas que forçosamente me fazia enganar na contagem. Das voltas e das missangas.
Ainda me lembro dos longos fios de pedrinhas de uma miríade de cores que um dia, depois do negócio, fiz espalhar, por acidente planeado, pelo chão lá em casa.
Não podia ser, uma coisa daquelas era simplesmente impossível. De pequeno se torce o pepino, que o dito popular sempre teve o seu fundo e o hábito faz o monge. Ná! Nada de pulseiras e ademais de missangas. Missangas, imagine-se.
Pois que a coisa a frio nunca funcionou em tempo algum com garoto algum desde que o mundo é mundo e disso o meu pai sabia, da natureza humana. E vá de propôr uma negociaçãozinha a ver se o catraio agarrava a ideia e se se resolvia a bem a coisa e de uma vez. Missangas!
Vinte carteiras de cromos do vicky por uma pulseira mesclada de missangas, que por acaso até era bem gira. Missão afinal dificil. Hey, hey, Vicky! Hey, Vicky, hey!
Se os cromos representavam o elan supremo dos bonecos do momento, num tempo em que os quadradinhos coloridos se colavam com cola feita com papas de farinha, a bela da pulseira representava a irreverência tentada em território movediço.
A coisa acabou por fazer-se com vinte e cinco carteiras de cromos, que guardo ainda religiosamente, brilhantes e lindos, desfilando na sua caderneta perfilados. Eternamente.
O meu pai ensinava-me uma arte a cada passo mais rara, negociar a cada passo a sobrevivência da vida, com o valor do nós solidário infinitamente mais forte do que o eu solitário.
Obrigado, pai, (e)ternamente.
Eu, corado que nem um perú do Natal ainda distante à conta da corrida empenhada em que nos esforçámos em força lá na rua durante horas, deambulava decorado com uma pulseira de missangas com tantas voltas que forçosamente me fazia enganar na contagem. Das voltas e das missangas.
Ainda me lembro dos longos fios de pedrinhas de uma miríade de cores que um dia, depois do negócio, fiz espalhar, por acidente planeado, pelo chão lá em casa.
Não podia ser, uma coisa daquelas era simplesmente impossível. De pequeno se torce o pepino, que o dito popular sempre teve o seu fundo e o hábito faz o monge. Ná! Nada de pulseiras e ademais de missangas. Missangas, imagine-se.
Pois que a coisa a frio nunca funcionou em tempo algum com garoto algum desde que o mundo é mundo e disso o meu pai sabia, da natureza humana. E vá de propôr uma negociaçãozinha a ver se o catraio agarrava a ideia e se se resolvia a bem a coisa e de uma vez. Missangas!
Vinte carteiras de cromos do vicky por uma pulseira mesclada de missangas, que por acaso até era bem gira. Missão afinal dificil. Hey, hey, Vicky! Hey, Vicky, hey!
Se os cromos representavam o elan supremo dos bonecos do momento, num tempo em que os quadradinhos coloridos se colavam com cola feita com papas de farinha, a bela da pulseira representava a irreverência tentada em território movediço.
A coisa acabou por fazer-se com vinte e cinco carteiras de cromos, que guardo ainda religiosamente, brilhantes e lindos, desfilando na sua caderneta perfilados. Eternamente.
O meu pai ensinava-me uma arte a cada passo mais rara, negociar a cada passo a sobrevivência da vida, com o valor do nós solidário infinitamente mais forte do que o eu solitário.
Obrigado, pai, (e)ternamente.
segunda-feira, 13 de outubro de 2008
O meu amigo infinito.
Naquela tarde, bem ao lusco-fusco do final da luz que o outono nos deixava de prenda pela hora do jantar, avistei o meu pai lá do alto da janela do meu quarto.
Com o seu passo acelerado, o calcar nervoso na calçada lá da rua, lá vinha, apressado e com o Lisboa debaixo do braço, a caminho do nosso abraço. De baixo do braço vinha também aquele que se tornaria o meu novo amigo do peito: o meu novo livro de aviões. De aviões, imagine-se. Aviões!
Lá no alto, o mais parecido com os pássaros, os aviões que levantavam da Portela rumo a distantes paragens de imaginadas aventuras que o metro-e-meio que fui imaginava de todas as cores, como as bandeiras desses destinos das mil-e-uma histórias dos aventureiros tirados dos livros com que me deixava adormecer em todas as noites de conquista de novas paragens.
O meu livro de aviões. Tantas folhas! Tantos momentos de suspense nas infindáveis descolagens no cockpit imaginado da mais possante das aeronaves, concretizado na bandeja das bolachas e na bomba de desentupir canos como manche que, passado vê-dois, me elevava nos céus de todo o mundo desconhecido.
Anos depois, ainda me lembro das tardes dos dias que se seguiram e do tempo ínfimo em que as páginas ainda se mantiveram unidas. O voo não podia parar, o vento soprava dos beirais e o livro converteu-se no aeroporto babilónico de uma nova conquista do mundo feita aviões de papel pelo céu infinito entre o nosso terceiro andar e as florestas dos quintais da vizinhança. Tanto voos, tanta ilusão, tanta felicidade.
Fiquei amigo dos aviões e dos livros; uns levavam pelos ares a minha felicidade, os outros de encontro ao meu destino.
De uma vez, o meu pai mostrou-me o mundo visto dos céus e um universo de amigos que não podia encontrar na rua.
Com o seu passo acelerado, o calcar nervoso na calçada lá da rua, lá vinha, apressado e com o Lisboa debaixo do braço, a caminho do nosso abraço. De baixo do braço vinha também aquele que se tornaria o meu novo amigo do peito: o meu novo livro de aviões. De aviões, imagine-se. Aviões!
Lá no alto, o mais parecido com os pássaros, os aviões que levantavam da Portela rumo a distantes paragens de imaginadas aventuras que o metro-e-meio que fui imaginava de todas as cores, como as bandeiras desses destinos das mil-e-uma histórias dos aventureiros tirados dos livros com que me deixava adormecer em todas as noites de conquista de novas paragens.
O meu livro de aviões. Tantas folhas! Tantos momentos de suspense nas infindáveis descolagens no cockpit imaginado da mais possante das aeronaves, concretizado na bandeja das bolachas e na bomba de desentupir canos como manche que, passado vê-dois, me elevava nos céus de todo o mundo desconhecido.
Anos depois, ainda me lembro das tardes dos dias que se seguiram e do tempo ínfimo em que as páginas ainda se mantiveram unidas. O voo não podia parar, o vento soprava dos beirais e o livro converteu-se no aeroporto babilónico de uma nova conquista do mundo feita aviões de papel pelo céu infinito entre o nosso terceiro andar e as florestas dos quintais da vizinhança. Tanto voos, tanta ilusão, tanta felicidade.
Fiquei amigo dos aviões e dos livros; uns levavam pelos ares a minha felicidade, os outros de encontro ao meu destino.
De uma vez, o meu pai mostrou-me o mundo visto dos céus e um universo de amigos que não podia encontrar na rua.
Castelo de cartas.
A emergir na linha de defesa das batalhas de conquista de territórios da dimensão infinita da minha infância, o castelo de cartas configurava-se como a mais recente construção a dominar.
Depois que a avó veio viver conosco, foi todo um mundo novo de jogos antigos com que me encontava nas longas e sempre instantâneas tardes de glória, depois da escola e até muito depois de se pôr o sol.
A avó, já o tempo lhe pesava sobre os ombros e lhe soprava a luz dos seus bonitos olhos azuis, comandava os regimentos que marchavam em conquista pelo mapa estendido em cima da mesa. E lá estava eu, perfilado, encantado com o seu comando, irrequieto dentro do fardamento imaginário. Vamos a eles.
Construímos castelos, cidadelas, impérios. Tão altos os fizemos, tantas cartas recolhemos do chão e vezes sem conta. Fizemos-los cada vez mais fortes, o comandante nunca permitiu que fizessemos alto.
Jogo do burro, teimosia, aprendi a subir a pulso os alambores escorregadios da vontade num jogo de faz-de-conta, qual escorrega invisível de mundo em declínio. Jogo de vida e de morte, de queda certa e de sorte incerta.
Figura de Escher, a minha vida é hoje um bater de coração à espera de surpresas da vida, um passeio de mãos dadas com as flores do meu jardim. Este lado do mundo é bonito.
Do outro lado vejo o pouco que a fresta deixa passar mas não a compreendo a partir daqui, ainda é cedo, vem longe o tempo. E é daqui que vou partir.
A avó tinha-me ensinado a resistir às derrocadas dos castelos de cartas.
Depois que a avó veio viver conosco, foi todo um mundo novo de jogos antigos com que me encontava nas longas e sempre instantâneas tardes de glória, depois da escola e até muito depois de se pôr o sol.
A avó, já o tempo lhe pesava sobre os ombros e lhe soprava a luz dos seus bonitos olhos azuis, comandava os regimentos que marchavam em conquista pelo mapa estendido em cima da mesa. E lá estava eu, perfilado, encantado com o seu comando, irrequieto dentro do fardamento imaginário. Vamos a eles.
Construímos castelos, cidadelas, impérios. Tão altos os fizemos, tantas cartas recolhemos do chão e vezes sem conta. Fizemos-los cada vez mais fortes, o comandante nunca permitiu que fizessemos alto.
Jogo do burro, teimosia, aprendi a subir a pulso os alambores escorregadios da vontade num jogo de faz-de-conta, qual escorrega invisível de mundo em declínio. Jogo de vida e de morte, de queda certa e de sorte incerta.
Figura de Escher, a minha vida é hoje um bater de coração à espera de surpresas da vida, um passeio de mãos dadas com as flores do meu jardim. Este lado do mundo é bonito.
Do outro lado vejo o pouco que a fresta deixa passar mas não a compreendo a partir daqui, ainda é cedo, vem longe o tempo. E é daqui que vou partir.
A avó tinha-me ensinado a resistir às derrocadas dos castelos de cartas.
sábado, 11 de outubro de 2008
Bicicleta para três.
O expresso partia ao meio-dia, saímos já atrasados.
Era um tempo em que o tempo que ia daquele meio-dia ao destino das nossas férias demorava tempo que se fartava. Curvas e outras tantas, paragens intermináveis, faziam infindável a jornada a caminho do nosso verão azul. E o céu era então tão azul.
Lá chegávamos ao final do dia, carregados de aventuras mentais que havíamos desenhado no nosso imaginário e que desenrolaríamos no mês que chegava para nos fazer companhia.
Anos depois ainda a vi a um canto do sobrado, ferrugenta, mas naquela manhã aquela bicicleta reluzia, encarnada, ao sol que já escaldava lá pela planície a sul.
E lá partímos os três nessa mesmíssima pasteleira para a corrida que começava no adro e terminou no valente trambolhão presidido pela igreja lá ao cimo e acolitado pelos divertidos velhotes que, à porta do valente, lembravam assim a sua (e agora nossa) meninice passada.
Correríamos vidas separadas depois daquele ensaio juntos e haveria quem não viesse a levantar-se das muitas quedas no futuro. Mas não o sabíamos ainda.
Não voltámos a correr rua abaixo, cada um faria a sua corrida solitária no meio da multidão. Aquele verão não voltaria e o velho Chanquete também já partiu.
Era um tempo em que o tempo que ia daquele meio-dia ao destino das nossas férias demorava tempo que se fartava. Curvas e outras tantas, paragens intermináveis, faziam infindável a jornada a caminho do nosso verão azul. E o céu era então tão azul.
Lá chegávamos ao final do dia, carregados de aventuras mentais que havíamos desenhado no nosso imaginário e que desenrolaríamos no mês que chegava para nos fazer companhia.
Anos depois ainda a vi a um canto do sobrado, ferrugenta, mas naquela manhã aquela bicicleta reluzia, encarnada, ao sol que já escaldava lá pela planície a sul.
E lá partímos os três nessa mesmíssima pasteleira para a corrida que começava no adro e terminou no valente trambolhão presidido pela igreja lá ao cimo e acolitado pelos divertidos velhotes que, à porta do valente, lembravam assim a sua (e agora nossa) meninice passada.
Correríamos vidas separadas depois daquele ensaio juntos e haveria quem não viesse a levantar-se das muitas quedas no futuro. Mas não o sabíamos ainda.
Não voltámos a correr rua abaixo, cada um faria a sua corrida solitária no meio da multidão. Aquele verão não voltaria e o velho Chanquete também já partiu.
quinta-feira, 9 de outubro de 2008
Balão azul e farturas.
Naquela tarde de domingo solarenga de final de verão desci, inchado de orgulho e pela mão da minha mãe, a alameda das barracas de farturas e algodão doce da feira. Tinha ansiado e sonhado esse passeio maravilhoso durante toda a manhã, de tal forma que nem outra qualquer coisa fora suficiente para acalmar o meia-léca.
A miríade de luzes coloridas haveriam ainda de voltar a acender-se, recobravam agora do esfoço da noite longa da véspera.
Era dia de São Felizardo. Para mim e para a imensa multidão ruidosa de miniaturas de gente em volta do homem dos moinhos de papel, da tenda dos tirinhos, da mulher dos bonecos de loiça.
Já lambuzado, empunhava a fartura como espada afiada ávido do combate imaginário e imaginado contra os invasores azuis, infinitamente maiores que os estrunfes, que ondulavam em cardume nas mãos do senhor dos óculos grossos que ganhava a vida com as moedas das mães, distribuindo em troca felicidade à catraiada. Nunca fui à bola com os estrunfes mas escolhi o balão azul.
Sempre fui um miúdo metido comigo mesmo. Eventualmente demasiado, mas as coisas são como são e isso tinha fortes desvantagens para mim. Não sendo um gordo mas sem conseguir fugir ao estatuto de muito bom candidato, os outros miúdos, que por sinal até gostavam bastante de jogar à bola, podiam eleger com relativa facilidade o seu alvo a abater. A chatice é que lá na minha rua não era habitual não gostar de jogar à bola e a feira era infinitamente mais sexy para um miúdo de cinco anos.
A curiosidade pelas coisas da feira, dos combates e das corridas era maleita que não se curava com um gargarejo qualquer de porta-te bem, uma aplicação tópica de está-lá-quieto ou mesmo uns pinguinhos de assim-não-se-faz. E ainda bem.
Com a feira ainda me encontro, das farturas terei a doce memória por muito tempo, para lá do tempo para onde envio esta carta.
Tinha começado o outono.
Já não posso descer a alameda das farturas e o balão azul voou para sempre.
A miríade de luzes coloridas haveriam ainda de voltar a acender-se, recobravam agora do esfoço da noite longa da véspera.
Era dia de São Felizardo. Para mim e para a imensa multidão ruidosa de miniaturas de gente em volta do homem dos moinhos de papel, da tenda dos tirinhos, da mulher dos bonecos de loiça.
Já lambuzado, empunhava a fartura como espada afiada ávido do combate imaginário e imaginado contra os invasores azuis, infinitamente maiores que os estrunfes, que ondulavam em cardume nas mãos do senhor dos óculos grossos que ganhava a vida com as moedas das mães, distribuindo em troca felicidade à catraiada. Nunca fui à bola com os estrunfes mas escolhi o balão azul.
Sempre fui um miúdo metido comigo mesmo. Eventualmente demasiado, mas as coisas são como são e isso tinha fortes desvantagens para mim. Não sendo um gordo mas sem conseguir fugir ao estatuto de muito bom candidato, os outros miúdos, que por sinal até gostavam bastante de jogar à bola, podiam eleger com relativa facilidade o seu alvo a abater. A chatice é que lá na minha rua não era habitual não gostar de jogar à bola e a feira era infinitamente mais sexy para um miúdo de cinco anos.
A curiosidade pelas coisas da feira, dos combates e das corridas era maleita que não se curava com um gargarejo qualquer de porta-te bem, uma aplicação tópica de está-lá-quieto ou mesmo uns pinguinhos de assim-não-se-faz. E ainda bem.
Com a feira ainda me encontro, das farturas terei a doce memória por muito tempo, para lá do tempo para onde envio esta carta.
Tinha começado o outono.
Já não posso descer a alameda das farturas e o balão azul voou para sempre.
quarta-feira, 8 de outubro de 2008
A gaiola de arame.
Em minha casa havia uma gaiola de arame, uma daquelas que se compravam nas feiras. Sim, daquelas em que o arame fica áspero e a madeira encardida em pouco tempo, pelo que a gaiola rapidamente ganhou um ar de masmorra.
Lembro-me do puto que eu fui a olhar horas sem descanso para o passaroco que por ali habitava. Ele, um pintasilgo lindo de esguias guias amarelas e cabeça encarnada, crescera ali, ali fora criado à pipeta. Lembro-me, como se fosse hoje, da sua mãe a rejeitá-lo, a minha que o recolhia e lhe dava micro-doses de papa amassada de miolo de pão e água. Que bonito. O bonito bicharoco parecia sorrir agradecendo com um leve piar de encanto lá no canto do seu ninho improvisado no copo do meu iogurte natural Lisboa.
Num belo dia de irreverente aborrecimento de tanto olhar tanta quietude na gaiola, agora em cima da mesa na nossa cozinha, abri-lhe a porta facilitando a liberdade que ao miúdo parecia fazer falta. Miúdo e pássaro nas suas respectivas gaiolas, num tempo que não existe nem mais existirá no tempo do futuro.
Tantas voltas deu no infinito espaço, na infindável trajectória errática desenhada no perfume que da panela saia pelo meio-dia do domingo em que nela quase mergulhou irremediavelmente. Mas não, quase sempre nos salvamos no último instante, levados pela leve brisa soprada do outro lado do espaço para nossa felicidade, no lado de cá do momento.
Um dia pela manhã, ao acordar, ouvi o barulho do ar vazio e frio porque o pássaro já lá não estava. Tinha rumado ao seu destino e fiquei triste por não o voltar a ver, mas feliz por sabê-lo a voar porque me ensinaram a não gostar de gaiolas.
Como gosto da liberdade gostava de saber voar.
Lembro-me do puto que eu fui a olhar horas sem descanso para o passaroco que por ali habitava. Ele, um pintasilgo lindo de esguias guias amarelas e cabeça encarnada, crescera ali, ali fora criado à pipeta. Lembro-me, como se fosse hoje, da sua mãe a rejeitá-lo, a minha que o recolhia e lhe dava micro-doses de papa amassada de miolo de pão e água. Que bonito. O bonito bicharoco parecia sorrir agradecendo com um leve piar de encanto lá no canto do seu ninho improvisado no copo do meu iogurte natural Lisboa.
Num belo dia de irreverente aborrecimento de tanto olhar tanta quietude na gaiola, agora em cima da mesa na nossa cozinha, abri-lhe a porta facilitando a liberdade que ao miúdo parecia fazer falta. Miúdo e pássaro nas suas respectivas gaiolas, num tempo que não existe nem mais existirá no tempo do futuro.
Tantas voltas deu no infinito espaço, na infindável trajectória errática desenhada no perfume que da panela saia pelo meio-dia do domingo em que nela quase mergulhou irremediavelmente. Mas não, quase sempre nos salvamos no último instante, levados pela leve brisa soprada do outro lado do espaço para nossa felicidade, no lado de cá do momento.
Um dia pela manhã, ao acordar, ouvi o barulho do ar vazio e frio porque o pássaro já lá não estava. Tinha rumado ao seu destino e fiquei triste por não o voltar a ver, mas feliz por sabê-lo a voar porque me ensinaram a não gostar de gaiolas.
Como gosto da liberdade gostava de saber voar.
No dia do lego grande.
Naquela manhã daquela primavera mais brilhante que eu sei lá, nasci no futuro. Sim, o futuro e a dois degraus apenas de distância. Dois degraus levaram-me nessa manhã fresca a um mundo de fantasia novo. Ainda lá está, trinta e tantos anos depois.
Na manhã fresca ainda tivémos tempo de dar um saltinho ali à Primorosa onde o meu pai tinha um dia conhecido Gago Coutinho, ali mesmo ao lado da farmácia Frazão. No tempo do três-vintes, pedimos a bica do meu pai e a minha larajina-C. Todos partiram.
As legiões de soldadinhos de arfix alinhavam-se prontas para o primeiro combate das suas existências, as hostes de hulks esverdeados perfiladas para batalhas decisivas, os legos reluzentes nas suas caixas coloridas diziam à imaginação dos míudos como seria a próxima realidade delirante; as caixas dos legos.
O pensamento já não soltava das amarras sólidas do chamado colorido daquelas caixas, trampolins para as batalhas do tempo lá adiante de voos picados e razantes.
Foi o dia do meu lego grande. O meu primeiro e inesquecível lego grande.
Fui mestre de cacilheiros reluzentes, piloto de bólides estrondosamente velozes, capitão de frontas astrais por universos longínquos. Todos os autocarros do lugar, todas as aventuras pelas ruas, todas as visitas a primas, primos e tios, todas as travessias do rio tiveram direito a uma materialização no teatro novo que o meu inesquecível amigo era agora.
Continuo a gostar de juntar as peças do lego da vida, o teatro ainda cá está para representar o papel do teatro transitório e aqueles degraus fizeram toda a diferença.
O meu pai tinha-me mostrado o mundo.
Na manhã fresca ainda tivémos tempo de dar um saltinho ali à Primorosa onde o meu pai tinha um dia conhecido Gago Coutinho, ali mesmo ao lado da farmácia Frazão. No tempo do três-vintes, pedimos a bica do meu pai e a minha larajina-C. Todos partiram.
As legiões de soldadinhos de arfix alinhavam-se prontas para o primeiro combate das suas existências, as hostes de hulks esverdeados perfiladas para batalhas decisivas, os legos reluzentes nas suas caixas coloridas diziam à imaginação dos míudos como seria a próxima realidade delirante; as caixas dos legos.
O pensamento já não soltava das amarras sólidas do chamado colorido daquelas caixas, trampolins para as batalhas do tempo lá adiante de voos picados e razantes.
Foi o dia do meu lego grande. O meu primeiro e inesquecível lego grande.
Fui mestre de cacilheiros reluzentes, piloto de bólides estrondosamente velozes, capitão de frontas astrais por universos longínquos. Todos os autocarros do lugar, todas as aventuras pelas ruas, todas as visitas a primas, primos e tios, todas as travessias do rio tiveram direito a uma materialização no teatro novo que o meu inesquecível amigo era agora.
Continuo a gostar de juntar as peças do lego da vida, o teatro ainda cá está para representar o papel do teatro transitório e aqueles degraus fizeram toda a diferença.
O meu pai tinha-me mostrado o mundo.
terça-feira, 7 de outubro de 2008
Vão-me faltando os truques de circo.
Hoje gostava de vos falar do circo. Eu gosto muito de circo. Em miúdo aprendi com a minha mãe que o mundo do circo é realmente belo.
Em tardes de domingo solarengas visitava o circo na feira que então acontecia lá perto de casa; cheirava mal mas, de tão bonito, preenchia de alegria, suspense e excitação o imaginário de um miúdo traquinóide, como era o miúdo que eu fui, num tempo em que a televisão ainda vinha longe na carruagem do tempo que tarde chagaria à estação onde eu ficava horas a olhar o infinito e a fazer desenhos toscos.
Treinei bem para palhaço pobre. Sabias que o palhaço pobre é o mais rico de todos? Pelo menos em alegria. E não é coisa de pouca monta. Eu era um miúdo alegre. O miúdo que eu era foi muito feliz.
Um dia dei conta, vê bem, que no circo também havia feras. Feras é mais perigoso que bichos. Bichos são bichos; são gatos, são cães. Pois, pássaros não são bichos, são aves, seres de liberdade sublime.
As feras são bonitas. As feras da natureza são bonitas. Prenderam as feras e elas ficaram bravas e começaram a fazer maldades, porque as tinham presas. Às vezes as feras comiam. Depois, passava algum tempo sem que, com o circo já desbotado, dessem de comer às feras. Elas não eram más. Mas passaram a ter muita fome.
Houve um dia em que se fartaram e fugiram. Disseram-me depois, lá na rua, que tinham visto as feras a fugir silenciosamente primeiro, depois com urros tais que todos os miúdos lá dos pátios ali à volta correram a esconder-se em casa. As feras hoje estão por todo o lado; elas eram bonitas mas de tanto sofrer são hoje como são hoje. E os miúdos que me tinham dito, estão hoje assustados com medo de que as feras lhes façam mal.
O circo bonito ainda existe, nalgum lugar. Um lugar assim vive no pensamento, eternamente e hoje, do miúdo que fui, sobra o miúdo que sou, que vive fora do circo porque o tempo do circo feliz acabou.
A minha mãe já não pode levar-me ao circo.
Em tardes de domingo solarengas visitava o circo na feira que então acontecia lá perto de casa; cheirava mal mas, de tão bonito, preenchia de alegria, suspense e excitação o imaginário de um miúdo traquinóide, como era o miúdo que eu fui, num tempo em que a televisão ainda vinha longe na carruagem do tempo que tarde chagaria à estação onde eu ficava horas a olhar o infinito e a fazer desenhos toscos.
Treinei bem para palhaço pobre. Sabias que o palhaço pobre é o mais rico de todos? Pelo menos em alegria. E não é coisa de pouca monta. Eu era um miúdo alegre. O miúdo que eu era foi muito feliz.
Um dia dei conta, vê bem, que no circo também havia feras. Feras é mais perigoso que bichos. Bichos são bichos; são gatos, são cães. Pois, pássaros não são bichos, são aves, seres de liberdade sublime.
As feras são bonitas. As feras da natureza são bonitas. Prenderam as feras e elas ficaram bravas e começaram a fazer maldades, porque as tinham presas. Às vezes as feras comiam. Depois, passava algum tempo sem que, com o circo já desbotado, dessem de comer às feras. Elas não eram más. Mas passaram a ter muita fome.
Houve um dia em que se fartaram e fugiram. Disseram-me depois, lá na rua, que tinham visto as feras a fugir silenciosamente primeiro, depois com urros tais que todos os miúdos lá dos pátios ali à volta correram a esconder-se em casa. As feras hoje estão por todo o lado; elas eram bonitas mas de tanto sofrer são hoje como são hoje. E os miúdos que me tinham dito, estão hoje assustados com medo de que as feras lhes façam mal.
O circo bonito ainda existe, nalgum lugar. Um lugar assim vive no pensamento, eternamente e hoje, do miúdo que fui, sobra o miúdo que sou, que vive fora do circo porque o tempo do circo feliz acabou.
A minha mãe já não pode levar-me ao circo.
segunda-feira, 6 de outubro de 2008
Ode a todos quantos.
Escrevo-vos hoje, dedicando-vos o tempo que merecem.
Como pessoas que prezo, gostava de vos dizer quanto vos estimo e porque vos estimo não queria deixar passar mais tempo sem vos dedicar um pouco do meu muito tempo. Que já é pouco.
Sempre que vos olhei pensei que pudessem ajudar-me. Um abuso.
Na vida cometi alguns erros. Alguns. Penso, ainda assim, que não tão graves nem com prejuizo para as pessoas. Bem, alguns seriam, mas sem impacto nas suas vidas. Nem tão sérios que não pudessem ser manobrados a tempo e no tempo, no rio da vida. Tratava-se de expectativas, apenas. Bem, as expectativas vistas de ambos os lados da barreira podem não ser exactamente coincidentes, tipicamente não o são.
Aprendi tarde de mais. De um lado, espera-se o dobro por metade. Do lado, o justo pelo justo. Mas deixem lá, afinal parece não ser assim tão relevante. E não é. Trata-se apenas de um transitório que, de tão breve, nem deveria doer.
Mas doi quando nos vira(va)m as costas. E, provavelmente por minha culpa, são alguns.
Com mais sorriso, com menos sorriso.
Com mais desculpa, com menos desculpa. Tantos telefonemas que fiz. Tantos, tantos, imensos, mails que enviei. Com tantos de vós com quem falei. Silêncio na linha, mesmo que em conversa animada. Quantos de vós já precisaram de enviar mail, de fazer telefonemas e de falar com pessoas. Aliás, com amigos. E com pessoas, das outras, também. Estas às vezes conseguem ouvir melhor do que os amigos que não ouvem.
Quantos de vós enviasteis mails a pedir socorro, mesmo que a palavra estivesse disfarçada de conheces alguém que precise, sabes de algum contacto que, ouvisteis de alguma oportunidade que. Quantos de vós. Dos que viraram as costas, alguns ainda me olham por vezes com olhares de quem se revê, mas a memória é selectiva em todos nós.
Cansei-me de esperar pelos amigos que podiam ter ajudado e não o fizeram. Simplesmente porque. Simplesmente porque.
Gostava de vos deixar um último presente, que no futuro será uma peça esquecida deste passado. Esta é a ode possível, que vos deixo.
Ode é a palavra dos mavros para rio. Rio odemira, de onde vejo correr a água que levará esta memória, rio odiana porta última antes dessas lágrimas se juntarem ao infinito mar azul, a caminho do início.
Penso que do outro lado afinal sempre me ajudam. A mim e a ti, mesmo que a antena que usamos esteja a captar tanto ruído branco que nem distingamos onde comutar para o outro satélite.
Do outro lado onde nos encontraremos, num destes dias. Inesperado, de surpresa.
E para sempre, mais coisa, menos coisa.
Não voltarão a ouvir falar de mim, não vos incomodarei mais pedindo a ajuda que não me puderam dar.
Até sempre. E, de qualquer forma, obrigado.
Como pessoas que prezo, gostava de vos dizer quanto vos estimo e porque vos estimo não queria deixar passar mais tempo sem vos dedicar um pouco do meu muito tempo. Que já é pouco.
Sempre que vos olhei pensei que pudessem ajudar-me. Um abuso.
Na vida cometi alguns erros. Alguns. Penso, ainda assim, que não tão graves nem com prejuizo para as pessoas. Bem, alguns seriam, mas sem impacto nas suas vidas. Nem tão sérios que não pudessem ser manobrados a tempo e no tempo, no rio da vida. Tratava-se de expectativas, apenas. Bem, as expectativas vistas de ambos os lados da barreira podem não ser exactamente coincidentes, tipicamente não o são.
Aprendi tarde de mais. De um lado, espera-se o dobro por metade. Do lado, o justo pelo justo. Mas deixem lá, afinal parece não ser assim tão relevante. E não é. Trata-se apenas de um transitório que, de tão breve, nem deveria doer.
Mas doi quando nos vira(va)m as costas. E, provavelmente por minha culpa, são alguns.
Com mais sorriso, com menos sorriso.
Com mais desculpa, com menos desculpa. Tantos telefonemas que fiz. Tantos, tantos, imensos, mails que enviei. Com tantos de vós com quem falei. Silêncio na linha, mesmo que em conversa animada. Quantos de vós já precisaram de enviar mail, de fazer telefonemas e de falar com pessoas. Aliás, com amigos. E com pessoas, das outras, também. Estas às vezes conseguem ouvir melhor do que os amigos que não ouvem.
Quantos de vós enviasteis mails a pedir socorro, mesmo que a palavra estivesse disfarçada de conheces alguém que precise, sabes de algum contacto que, ouvisteis de alguma oportunidade que. Quantos de vós. Dos que viraram as costas, alguns ainda me olham por vezes com olhares de quem se revê, mas a memória é selectiva em todos nós.
Cansei-me de esperar pelos amigos que podiam ter ajudado e não o fizeram. Simplesmente porque. Simplesmente porque.
Gostava de vos deixar um último presente, que no futuro será uma peça esquecida deste passado. Esta é a ode possível, que vos deixo.
Ode é a palavra dos mavros para rio. Rio odemira, de onde vejo correr a água que levará esta memória, rio odiana porta última antes dessas lágrimas se juntarem ao infinito mar azul, a caminho do início.
Penso que do outro lado afinal sempre me ajudam. A mim e a ti, mesmo que a antena que usamos esteja a captar tanto ruído branco que nem distingamos onde comutar para o outro satélite.
Do outro lado onde nos encontraremos, num destes dias. Inesperado, de surpresa.
E para sempre, mais coisa, menos coisa.
Não voltarão a ouvir falar de mim, não vos incomodarei mais pedindo a ajuda que não me puderam dar.
Até sempre. E, de qualquer forma, obrigado.
Subscrever:
Mensagens (Atom)