sexta-feira, 28 de novembro de 2008

Um crime ao palácio do duque.

Naquele ano fazia já meses que se falava não de outra coisa ao longo das semanas se não na estreia do crime no palácio do duque, e isto dias a fio pelos cafés de toda a lisboa. Lembro-me de, no grande dia e a caminho de casa do tio albuquerque mello, à rua nova dos mártires, pararmos com o pai e a mãe para a bica costumeira na ferrari, que havia de ser pasto para labaredas num dia de tempo mais à frente na régua do tempo, a caminho do chiado terrasse.

A sala fim de século brilhava de nova, iluminada de eléctrico e animada pela orquestra que, antes do rugir do leão - o da fita e não o da estrela, que esse entraria noutra fita - dava com os primeiros acordes em ritmo jazz um tom de felicidade à esplanada do animatógrafo.

Passariam por nós acelerados carlos e ega animados que, descendo da tipoia vindos do número dezoito do paço dos maias, acenavam à luisa que os esperava à porta lá ao fundo, elegante como sempre, e com as novidades frescas que trazia do ermitage e das terras de catarina, em são petersburgo, onde cantara como ninguém e todos a queriam ouvir uma e outra vez.

O pai deixou-me fazer de conta ser grande, mas a bilheteira de tão alta exigiu-me um bailado contorcionista em bicos de pés com as botas ortopédicas, um tanto ou quanto esfoladas, frente ao guichet defronte do qual, de esguelha e com os caracóis negros sobre os olhos, exibi três dedos. Rimos todos, elas avançaram, eles olharam as sedas pastel com que se fizeram passear nessa soirée. Eu, com três bilhetes numa mão e uma limonada meio entornada na outra, deslizava feliz coxia abaixo.

Fila agá, cadeiras ímpares, nós, eles nas pares. E logo os lampiões ouro e azul fizeram a sua noite que assim se juntava à noite azul estrelada da esplanada e o filme começava.

Na tela e num tempo que hoje sei que se passou no futuro, descia a rua do tesouro velho um chrisler impala limousine novo em folha que, logo a seguir ao teatro de são luiz, parava dele saindo um homem de porte jovem e entroncado que se dirigiu ao prédio defronte do palácio do duque que no filme já não lhe pertencia, nem hoje, e onde funcionava uma oficina sinistra de dobragem de pessoas.

A mensagem destinava-se à embaixatriz e, em tom frio, que não precisava de ficar tão preocupada com o que tinha visto porque afinal a pessoa não passava de um qualquer sem importância. Nem mais, nem menos.

Nunca esqueceríamos a cena, eu ainda miúdo e a destinatária da carta que nunca tal visto no seu filme e que, lívida, se dirigiu ao cardeal incrédula com o que presenciou apenas por uma fresta estreita. Na penumbra indistintos e a coberto de uma lei fora da lei, dois talvez três, empurravam um homem do terceiro andar abaixo estatelando-se no chão do pátio lá em baixo, que sucumbia à violência daquela gente que o torturou, descalço e por horas, pingo a pingo de água fria até mais nada de si sobrar, nem vontade para não ser.

A viatura seguiria depois para a patriarcal, mais abaixo duas ruas, à boa-hora e comentámos à saída que nunca se passaria nada parecido em lisboa porque não éramos assim em portugal. Enganámo-nos.

quinta-feira, 27 de novembro de 2008

Chuva miudinha em suaves pingos.

Tinhamos ido, eu e o meu pai, tratar de uns assuntos à baixa, já não me lembro bem de quê, mas lembro-me que foi num tempo em que as estações do metro ainda eram suficientemente pequenas para que nós, na última carruagem, tivéssemos que ir até ao apeadeiro seguinte, à avenida, e trocar de sentido para poder, por fim, voltar à anterior mais à mão do nosso destino.

Isto foi num tempo que aconteceu há muito tempo mas guardo na ideia que o meu pai me mostrara a ginjinha do rossio e me falara de umas fogueiras que um dia, há ainda mais tempo, atearam ali no largo.

Por ali passavam-se coisas estranhas desde fazia tanto tempo que parecia assim ter sempre sido, se considerarmos coisas estranhas as coisas estranhas que alguns, que só podem ser ruins, fazem a outros lá porque pensam por outra perspectiva, por outro postigo, com outro estado de alma.

A última das coisas que por ali acontecera e que a todos por ali pareceu tão estranho foi o lavrar em labaredas imensas o teatro naquela noite do primeiro de dezembro que nunca deveria ter acontecido. Era como se o espírito do lugar e dos que aí padeceram às mãos dos seus carrascos dissesse de sua justiça na ribalta ardente desse palco. Um dia também a casa da masmorra, ao rossio, dita santa assim terminaria para não se levantar nunca.

No balcão e à nossa beira vicente, não o santo, o do autos, que por esse tempo andava a esculpir a custódia que hoje habita às janelas verdes e que também ela se salvou à fornalha da casa da moeda, e o garrett, às voltas com um auto de gil vicente para estrear na rua dos condes onde hoje apenas sobra nada, falavam da encenação que preparavam e que um dia faria cada um em lisboa representar o seu papel.

Entretanto lá fora foi correndo a azáfama das gentes, de tantas cores e humores, a correr e desenhando o dia e o fim da tarde sombria, e levantando do traço do arquitecto o teatro de dona maria defronte a são domingos que, por ser dezembro ameno, não se safava da chuva miudinha em suaves pingos.

Fez-se tarde, chegava de ginjinhas com elas umas, e outras sem. Fomos cada um ao seu destino à espera do destino de cada um, gil vicente lá no alto, joão baptista ao panteão da santa a quem chamaram engrácia, e todos ao mesmo destino de lidar com o desatino da nossa (ence)nação.

domingo, 23 de novembro de 2008

A última ceia de perugino.

Gostava de contar-vos o que foi possível, entre o espólio que recebemos do nosso tio-avô, descobrir no velho pergaminho o nos deu a certeza de que os rumores que passavam de geração em geração e que comentávamos nos jantares de natal, todos os anos, correspondiam a qualquer coisa que não apenas à fantasia de jovens à procura de ilusão para pintarem a cores as suas vidas de estudantes entre as pastelarias da praça de londres, com as cores do preto do café e do branco do leite com que lhe estragavam o vigor.

Antepassado nosso, mateus comandava a esquadra que acompanhaou a princesa que em florença se casava com o filho mais novo do doge mas levava também recomendações d'el rei para que contratasse os trabalhos de um tal pietro di cristoforo vanucci a quem chamavam perugino, porque ele e só ele saberia tornar eternas as feições, pose e porte da sua real pessoa e das ofuscantemente brilhantes que o secundavam pois trabalhava o óleo como nenhum outro no reino podia sequer adivinhar nem no mais descarado vislumbre do tempo que viria no futuro.

Não sabia o rei o que tal decisão traia de enleio junto da mesa do tribunal do lápis azul de então, ali às portas de santo antão.

Depositada a princesa na caixa forte do palazzo de destino e de cuja janela apenas podia ver, de viés e à custa de algum torcicolo a que seguramente ganhara direito, a torre vecchia, matias ainda se foi recomendar a santa maria novella e encaminhou-se de seguida para a judiaria velha onde, por informações, curava dar com o artista na casa de pasto mesmo ao lado da sinagoga grande. Não foi difícil de dar com a coisa já que a placas indicavam o local em caracteres hebraicos, não o da taberna mas o da casa mosaica.

Encontrou-o em irada troca de impressões com um rapaz já então famoso - e por força da exposição prolongada às tintas quase cego - a quem o de perúgia dirigia uma avalanche de sarcasmos, uma torrente de ironias e um degelo de metáforas visuais que até mesmo ele, o quase-cego, não podia deixar de ver tal a amplitude do movimento e intensidade da tónica.

Porque, perguntava o nosso homem, porquê se tinha ele decidido a encobrir com as suas tintas de um juizo final os seus afrescos da sistina, porquê? E este porquê saiu-lhe rouquenho, dilacerado, perdido, final. Fez-se silêncio e apenas os olhos de dante, na mesa ao lado, se levantaram do papel onde rascunhava, com tinta sépia de um tintureiro do rialto, as últimas linhas da comédia que disse divina e bem a propósito diriamos nós. Que lhe tinham roubado parte da sua alma mas faria ainda algo com o que dela restava e disso haveriam de ouvir falar em toda a cristandade e mais qualquer coisa. Faria e fez, e falaremos disso adiante.

Era a deixa de mateus e pagando uma rodada de vinho frizante meteu conversa e, puxando-o pelo braço, sentaram-se a uma mesa bem perto do balcão e suficientemente próximos do candeeiro de petróleo de chama trémula e luz escassa que lhes povoava os rostos com rugas mais profundas e que também aquecia um pouco o ambiente gélido. Acertariam missão, âmbito e orçamento, e partiriam sem demora, nessa mesma madrugada com a primeira luz ténue que banhasse o arno florentino onde esperavam os homens que os levariam a lisboa.

Passaream três semanas de navegação conturbada, no final das quais e não sem o alívio que a chegada naquele tempo significava não só no imaginário mas principalmente no corpo, aportaram à fonte da aguada no pontal de cacilhas e daí apontaram, por fim, no bote do mestre elias rumo ao jardim do tabaco que por ali ainda se descarregava em folhas largas das américas.

Perugino estava finalmente na lisboa que não pôde deixar de lhe fazer lembrar a velha casa na umbria da sua infância à medida que subia as tortuosas vielas, encosta acima até lá acima, com as suas tintas, paletas e telas, passando pelo limoeiro onde mãos encardidas se assomavam às grades ferrugentas e pela sé velha onde o orgão entoava um te deum emocionado por mãos lustrosas e bem tratadas, ao encontro da alcáçova do castelo onde seria presente à presença do rei.

Ficaria alojado num casebre que lhe serviria de estúdio, vizinho da travessa do funil, do beco do recolhimento e da cantora lírica que ensaiava todo o dia o minuete que cantava nas soirées do teatro dona amélia onde era cabeça de cartaz e que, contudo, não chegaria a conhecer.

Trabalhou dia e noite, semanas a fio, pressionado pelo mateus que pressionado pelo rei andava que mais não podia de aflição e nervoso miudinho. Até que pelo final de um dia de um tempo de que não fala o pergaminho mas que tardava para o patrono e que escasseava para o mastro do pincel, a obra sonhada completa vê a luz do dia e dá-se por concluída. Concluída ficaria assim a sua obra prima, que primava pelo que mostrava tanto no ângulo directo como no de paralaxe.

O retrato deixou de queixo caído todos e cada um dos cavaleiros da câmara do rei, damas da corte e o próprio monarca, principalmente este. Nunca em tempo algum do que tempo que já tinha existido nem no que poderia ser sonhado nos sonhos mais selvagens e destemidos de cada um dos presente se tinha vislumbrado algo semelhante em luz translúcida, cor profunda e sentimento perplexo.

E no entanto havia qualquer coisa essa sim perplexa com, principalmente, dois dos personagens da alegoria que deixava
paralizados os que nela repousavam os olhos ligeiramente de esguelha e apenas dessa forma e nesse curto ângulo, invadindo-os de imediato o desassossego de quem contempla o impossível.

O rei transformava-se em jesus, o judas lá estava, cada um dos cortesãos se transformava em apóstolo aureolado, mas era principalmente a figura da rainha que, transfigurada na imagem de maria madalena, repousando lânguidamente no regaço do rei, e tudo isto acometia todos de um frio glacial que lhes enregelava os ossos, lhes toldava o raciocínio e os invadia de desespero.

Porque esta foi a obra prima feita com a metade não acabada da alma de perugino, que assim fazia o seu juizo final em forma de última ceia.

sexta-feira, 21 de novembro de 2008

A conspiração da casa dos diamantes.

Fazia tempo que se sentiam observados. Não havia dia em que se juntassem, ali à vila nova dos andrades, no palacete que nesse tempo ainda ostentava na esquina o seu cunhal de bolas resplandecentemente douradas, e que olhar para trás por cima do ombro não lhes dissesse que as sombras se moviam mais depressa do que a própria sombra, e isso não era nada bom sinal.

O cunhal ainda lá está mas já não brilha, que cunhal como aquele não haverá outro por muito tempo. Os nobres membros de ideais por demais liberais para os ditames da época que alinhavam pela partitura da academia dos generosos, identificavam-se entre si assobiando um estribilho da canção de lisboa, mas naquela noite o toque era outro. Soava a toque de caixa com passo acelerado.

Nessa noite, por precaução, os três não desceriam por são luiz dos franceses, antes se esgueirariam logo ao cair da tarde, juntando-se no destino aos restantes. Tomariam os passos do município, vindos das bandas da travessa do cotovelo e meteriam à rua da conceição, escapando-se pelo alçapão defronte do setenta e sete e ao lado da paragem do eléctrico vinte e oito. Descia da estrela e ali se apeou outro deles, cruzaram-se como se nunca se tivessem visto e este foi calcando rápido o empedrado escorregadio por força da neblina que entretanto se agarrara ao caminho como um moribundo assustado se agarra à mão última que o consola e que lhe lembra a vida que deixa.

Por essa altura do ano e além do criptopórtico subterrâneo, a inundação das água do tejo, dos regatos que escorriam pela colinas abaixo e dos esgotos a céu aberto que para lá saltavam tornavam a progressão no terreno para além de silenciosa absolutamente nojenta e a exigir-lhes tanto da alma e da vontade como da força das pernas atascadas até à cintura. Mas era absolutamente necessário e a opção clara. Ou o esgoto ou o braseiro a são domingos.

Iam estafados, mas depois de passarem pelo pedestal do esculápio dos subterrâneos, que ali guardava segredos desde sempre, era como se um elixir de esperança dado por ele lhes aclarasse a vista, retemperasse os músculos e lhes tornasse os espíritos mais fluídos.

Chegavam a alfama do mar, proletária, já noite cerrada, não que sentissem a diferença da luz mas livravam-se daquela garra nauseabunda das entranhas da baixa, passando pela cerca moura a caminho da alfama que no alto se espraiava pelos miradouros. Tiveram ainda que demorar-se pelo ambiente de casbá, vielas e escadarias, à cautela, antes de se dirigirem por fim à casa dos diamantes, pelas trazeiras, mais sombrias e não vigiadas pelos ouve aqui e conta na mesa do tribunal.

O anfitrião, brás, e os que puderam chegar antes, já os esperavam com um belo repasto em que tinham sacrificado em holocausto um anho à moda de bagencas de baião, no ponto e regado com um branco novo das lezírias, já desse ano. O céu, era o céu que os esperava, que os tempos não estavam para brincadeiras.

A coisa conta-se assim. Um antepassado nosso de que o pai falava, gonçalo inácio de loiola e que assinava a correspondência por albuquerque mello, enviara certa vez para o reino um maço de cartas em que falava de uns quantos textos antigos e onde ficava mais clara que a água límpida a sua inocência, mas como na sua terra ninguém consegue ser profeta, coisa que se verifica com muita intensidade a cada dois mil anos, não se safaria sem que o fuzilassem. No pacote chegava também uma proibidíssima primeira edição de jesus na índia e isso seria, definitivamente, o fim.

Estudioso, investigava por essa altura umas dicas que um goês já bebido e que ficara pelo pernambuco numa escala da carreira da índia lhe contara certa vez no botequim acerca de um barco mítico a que chamavam de jesus e que poderia estar enterrado nos baixios arenosos das praias de areia branca - como um forno à temparatura de cozer pão e fina como a farinha para o amassar - para as bandas de diu.

Escândalo quando se soube e em menos de um fósforo, a queimar o rastilho breve a caminho da pólvora assassina, o pobre gonçalo que o povo chamava de padre mororó, e que ainda hoje assim chama, caía fulminado diante de um pelotão de desgraçados sem eira numa praça sem beira de fortaleza, lá para os lados dos brasís.

A academia juntava na casa dos bicos nessa noite os homens que mais sabiam sobre a índia, a carreira, os amores e os temores dos nativos e da raiva que nos tinham uns e o que outros poderiam ajudar. Conspirava-se, se conspiração for a fórmula correcta. Estavam alí os vice-reis de agora, os de outro tempo e ainda aqueles de todos tempos passados e futuros e até ao fim do futuro.

Discutiam-se as chances de sucesso da empresa. Argumentava o brás citando lucas que jesus falava em passar para a outra margem do lago, afonso e matias que os demónios tinham soprado o barco onde jesus navegava e, todos em côro, que o tinham feito com tamanha ferocidade que a embarcação só poderia ter ido parar para lá da taprobana. Aí estava, era possível ser bem sucedido.

Partiriam na carreira que sairia de lisboa em fevereiro logo ao dobrar do calendário desse ano bissexto que não era porque só inventariam tal coisa muito tempo depois, pouco tempo restava para preparar em segredo a missão mais secreta das suas vidas de homens do mar, da terra e da guerra.

Sei que foram e que voltaram, afonso ficaria por goa para sempre, sei que não encontraram a esteira do barco mas que os sutras esquecidos lá estavam disso não sobrou qualquer dúvida e falavam do mestre do barco.

quarta-feira, 19 de novembro de 2008

De schönbrunn ao rossio.

Em toda a lisboa nada mais servia tanto de chalaça pública como o galheiteiro ali à praça dos chapeleiros de que restam apenas quase nenhuns, no rossio, que os chapéus apesar de passarem por muitos estão afinal em extinção e pelas ruas da amargura.

Aquele amontoado pedregulhoso de coisa nenhuma erguia-se, medonho, no centro da praça projectando uma sobra de nada quer sobre a fachada do café gelo quer, da parte da tarde, nas paredes onde outrora parava o hospital - de que se escreveu ter sido de todos os santos - à medida que o sol se reflectia nas vidraças das clarabóias da baixa.

Anos depois e após uma intensa campanha de escritos colados nas janelas da soalheira assoalhada solitária, a edilidade conseguiria que um inquilino real quisesse aboletar-se no trapézio ainda sem trapezista lá no alto. Passava a ser habitada esta modesta água-furtada defronte do arco do bandeira e com vista sobre a betesga e o rio lá ao fundo.

De facto e dadas as circunstâncias, a vista dali até que tinha o seu encanto pelo pitoresco das corridas de formigas a caminho da paragem dos americanos que haveriam de lá estar um dia num tempo que dali até custava a acreditar que chagasse num instante. Agora que os pombos eram uns verdadeiros selvagens, umas autênticas ratazanas voadoras e a causa das cargas de nervos, para os passantes e para o novo inquilino equilibrista, sem dúvida.

Farto dos pombos dia após dia, das pobres andorinhas chilreantes na primavera e das gaivotas ruidosas quando no inverno faz tempestade soprada com ferocidade hercúlea dos lados do rio, decide ir lá abaixo, descendo do seu saguão e atrevendo-se pelas vizinhanças.

A florista, logo a seus pés, oferece-lhe uma rosa cor de alegria que se apressa a prender na lapela da farda. O homem das castanhas no repuxo pensa reconhecê-lo e passa-lhe um cartuxo com uma dúzia delas, quentes e boas. Ainda entra, do outro lado do empedrado branco e preto reluzente, na pastelaria cujo nome faz juz às suas patilhas e pede uma meia de leite que lhe perguntam se será de máquina. Que não.

Dá meia volta pela praça e um olhar de soslaio sobre os vespertinos e uma olhadela ao animatógrafo e lá vai, rua do carmo acima, e depois nova do almada abaixo, e escadinhas de são francisco acima, e capelo ainda acima, até à trindade por fim, já cansado de tanto andar depois de tanto esperar lá no alto, qual castigo continuado na gávea das galés das carreiras do brasil e do méxico.

As pessoas dirigem-lhe olhares curiosos uns, perplexos outros, mas todos com ar de quem desperta de um sono sonâmbulo, acenam-lhe nervosamente, genuflectem os mais ferrenhos com batida cardíaca subitamente acelerada e, a um tempo, entra numa loja de gravuras do seu tempo para ver se descobre gravuras do seu tempo e assim matar saudades de um tempo que não voltará. E é então que tudo acontece quando se chega às mesas das gravuras marciais.

Caramba, que parecenças entre si, que alegria e que desconforto. Quem seria? Dom pedro, dizia a legenda. Mas não sou eu este pedro, o que se interessa por ferrar os cavalos lusitanos no picadeiro? Ilusão, esquecimento. Que não, e não se tratava de bourbon, confirmava-lhe o aillaud dos livros enquanto mirava, compararando intrigado, a pessoa diante de si com a estampa a sépia e outra ainda que entretanto se lhe chegava e dizia fernando maximiliano em letra desenhada de fino recorte. Era o fim, assim descoberto, sem glória!

Aillaud de imediato ligava as pontas da estória de cordel enovelado que à boca pequena se comentava nos boudoirs dos salões da lisboa elegante e pelos botequins sem nome da lisboa marialva e que tinha servido para pintar mantas que dariam para tirar o frio de todos os sem-abrigo que deambulam da a estação do rossio à de santa apolónia. E este degraçado, bronzeado de nascença e fundido para ser quem não era e que por aqui se passeava julgando ser quem nunca foi, desgraçadamente desiludido fica.

A coisa conta-se de uma assentada.

Maximiliano, nascido em schönbrunn dos amores torridos, o que em viena não deixa de ser notável, proibidos e nada secretos de sua mãe sofia com um francês neto do homem da mão escondida, caia em desgraça ao trair todos na aventura do trono do méxico, contentando-se em deitar a perder um império à troca por coisa nenhuma e acabava falido e fuzilado, vindo com o desgosto recolher-se a lisboa.

A princípio sem poiso onde poisar, poisaria nas docas entre a tralha que num porto sempre se encontra e aproveitaria a boleia da estátua que, caído em desgraça não pôde mandar desalfandegar e que por um acaso do destino encontrara com os estivadores do porto e na qual escreveria pedro a ver se assim passava por príncipe do reino unido de portugal, do brasil e dos algarves.

Por fim, maximiliano de lado nenhum e sem eira nem beira, poisaria no rossio da cidade e pedro, de portugal e do brasil libertador, repousaria para sempre com as gentes alfacinhas.

segunda-feira, 17 de novembro de 2008

O segredo do palácio real.

As obras decorriam a bom ritmo no palácio que el-rei fez nascer nas terras que um dia, há muito tempo, pertenceram a um tal joão pires antes de passarem, confiscadas por traição, para a casa do infantado.

Concluída a talha da capela e dando por terminada a colocação dos azulejos azuis e brancos no corredor das mangas, ainda assim robillion não parava de esbracejar ordens para aqui, achegas para acolá e imagens visuais com as mãos para o mestre pedreiro lá ao fundo. Limpava-se o pó na sala ao lado, a da música, e colocava-se no sítio com a delicadeza de uma angioplastia o pianoforte muzio clementi que haveria de iluminar tantas soirées a par com os cadendelabros reflectidos nos infinitos espelhos das salas.

O francês fazia agora dois anos que tinha feito a sua aparição pela obra, o francês e o outro, o tal vatel. Antes que o corpo do pálácio, que em terras dos francos se menospreza forte e injustamente, ficasse pronto, a obra tinha investido na torre do relógio a cartada mais intensa que, sobranceira sobre o largo, perfilava a preceito como se fizesse parte da companhia da guarda real e que ainda hoje lá está garbosa como no dia em que estreou a farda número um. Aí se alojaram.

Com o avançar da obra, esta deixou à luz do dia um palácio de recortada beleza e a rainha lá se decidiu que por ali poderia passar temporadas de qualidade e vai daí lança-se ela própria no alinhar dos linhos das camas dos meninos, da aguarelas e dos óleos - que não os de fritar que esses ficavam à guarda do seu chef rigaud - e das loiças que um dia viríamos a chamar de cozinha velha. O padrão, de simples e frugal flores azuis, torna-se belo sobre os linhos nacarados cá da casa. Rigaud e vatel simplesmente nutriam entre si um sentimento que ia, por aqueles dias, muito além do que a imaginação possa fazer-nos pensar, sim, maior ainda do que o longe da taprobana. Odiavam-se.

Vatel inaugurava um conceito que um dia - num tempo que nesse tempo dificilmente poderia ser imaginado - seria profusamente divulgado entre as equipas de futebol: o empréstimo. Veio integrado na comitiva de robillion por cedência de catarina de médicis que das suas experiências inovadoras se livrava por um tempo, depois de ter passado mal com um tal de chantilly que ele inventara e que ela deixou azedar e com que, constipada, se deixou quebrar por uma boa semana inteira. E lá vai vatel rumo a queluz. E ainda bem que veio, mas disso falaremos mais adiante que ainda a procissão vai no adro de belas e bem devagar mas logo mudaria de ritmo e de rumo.

Enquanto isto, el-rei confrontava-se com as notícias que lhe chegavam das linhas de torres, nem pelas linhas do comboio nem tão pouco pela telefónicas, mas a cavalo. À frente da horda tricolor vinha um certo junot com um exército de famintos, maltrapilhos e cansados - mas que ainda assim fariam estrago - brandindo as suas espadas e levando à frente as incautas donzelas cá da terra. Parte dos olhos azuis que por vemos ainda hoje daí provirão. E a fuga para as terras de vera cruz vem a tornar-se a alternativa viável o que só por si implicou uma operação que embarcava toda corte e adereços e deixava para trás meia vida ou mesmo a vida completa, incompleta.

Ficava para trás rigaud, francês empedernido e que sorria de soslaio com a tragédia que se abatia, e ficava com ele vatel de guarda à casa e à senhora sua rainha que entretanto perdia a noção e se passeava pelo palácio de cabelos desgrenhados, gritando de agonia e gemendo com a dor da alma com se lhe arrancassem o coração.

Que dupla explosiva, a dos homens da cozinha. O Odio que nutriam dissipava-se para dar origem a qualquer coisa que hoje se pode classificar de muito, infinitamente, mais tenebrosa. Com o chegar das tropas, o francês logo se apressou a desfazer-se em amabilidades e fazendo do outro o seu criado, e da rainha a bruxa que entretanto enloquecera - mentiras que lhes salvariam as vidas.

Robillion ao embarcar assegurara-se que vatel entendia o sinal que tinham combinado havia tempo, ainda longe de portugal, e que lhes permitiria comunicar à distância.

Chegada a fronta ao brasil - o que acontecia dois meses depois e sofrimento e piolhos com fartura a bordo - el-rei, depois de instalado, de imediato contactava o governador, luiz de albuquerque de mello pereira e cáceres, para darem início ao plano que mudaria a face da guerra, porque se tratava de guerra isso de virem aqueles bárbaros invadirem a nossa bem amada terra.

O governador e el-rei montariam um esquema de dissimulação que manteria a esperança viva no retorno à patria, trazendo também de volta ao mundo dos sãos a pobre rainha. O governador endereçaria para portugal dois tipos de correpondência, uma destinada a ser interceptada pela contra-inteligência francesa e a outra que jamais o poderia ser custasse o que custasse e que tinha como destinatário o bom vatel, que executaria as ordens tal e qual.

Na correspondência destinada a ser esquadrinhada que, a propósito e sem que desconfiassem ia escrita em francês, davam-se detalhadas indicações acerca do tesouro supremo do brasil, as suas infinitas jazidas de ouro, jazidas intermináveis que dariam para construir, escrevia-se, uma torre eiffel toda em metal amarelo. Engoliriam o isco mas tê-los-iamos um dia com ideias, frustadas com custo alto, de ficarem com o brasil.

Nas cartas secretas, que a muito custo e ao fim de cento e onze dias chegarima às mãos de vatel, el-rei dava ordens acerca de ter a sua rainha de volta. Que vatel dissimulasse quanto pudesse mas que inventasse algo que pudesse trazer à sanidade e alegria a rainha e de volta a pátria.

Escrevia acerca de como fazer reforçar o engodo e da verdadeira riqueza daquelas terras, a canela. Vatel cumpriu ao fio-da-espada as ordens do seu amo e senhor e foi falando aqui, dizendo ali, insinuando acolá que no brasil as pepitas de ouro nasciam por debaixo de cada calhau, e fazia-o enquanto pensava na sua invenção que mudaria o mundo.

E foi ao fim de onze dias e onze horas, já tarde e debruçado sobre a mesa da cozinha já livre da horda que, pela hora de jantar lhe invadia o espaço, que se fez luz e inventava o bolo de canela com que esperava operar o milagre.

Depois de frio provou e deu-o a provar à rainha, que se curava como que por milagre e trazia o reino de volta.

Frente ao museu militar.

O pai tinha saído era ainda manhã cedo, pela altura em que o encarnado do céu começa a despontar no horizonte do outro lado do rio, e tinha dito que iria para as bandas de santa apolónia, isto num tempo em que demorar-se tempo com fartura pelo campo das cebolas era tempo bem empregue, tinha sabor a boa sopa tardia, a fado trinado de alfama com marujos à pancada, em fundo, nas docas do terreiro do trigo.

Era de manhã cedo que chegavam ao porto os homens do mar com a pesa de água longínquas umas, de logo ali, outras. Também por aqui passam os que vinham do matadouro lá de cima, defronte do liceu camões.

Com os primeiros comboios da manhã, de longe, aportavam também os magalas que depois iam embarcar-se no cais lá de baixo, a alcântara, alguns para não voltarem, uns quantos para fazerem a volta do cabo que já foi da esperança e que voltava a ser território do adamastor irado que do gabinete lhes desenhava a vida e a má sorte no além-mar.

Passaram horas, horas intermináveis, longas como longos os dias infinitos sem pão, e o pai teimava em não voltar.

O ronronar da sua norton era conhecido de campo d’ourique aos mártires da pátria, do campo pequeno – que era ainda tão longe da cidade – ao de santa clara.

O talho ficava no gaveto logo a seguir ao chafariz d’el rei, colado á muralha velha, o chafariz. O ti jaquim, homem de rosto curtido pela vida, ar afável e coração de ouro – e que era também o dono da fábrica de rebuçados onde em miúdo, guloso, deixei metade da pele da mão direita colada no caramelo fervente como lava esbrazinante – esperava-o já com o alforge aviado.

Bifes, costeletas, umas quantas morcelas e uma mioleira, de vitela que as outras não era tão gostosas.

O reluzente boca-de-sapo preto vinha lá ao fundo, dos lados da estação, o meu pai viu-o quando descia o breve degrau da porta e pôs a mota a trabalhar, que naquele tempo a coisa demorava a deslindar uma operação menos automática do que hoje acontece.

E lá foi à sua vida, mas o passeio acabava-se ali mesmo, breves instantes depois, com uma babilónica queda no empedrado cúbico frente ao museu militar quase no limite de espalhar o espírito por quantas pedras encontrou. Safou-se à justa.

Mota para um lado, pai para o outro, e a massa encefálica espalhada pelo passeio. Foi assim, sem mais habilidades especiais para sensibilidades mais carentes, que a notícia saía no notícias daquela tarde.

O boca-de-sapo, daqueles que os franceses guardam numa montra dos champs elisées equipado com suspensão hidropneumática tão inovadora então como admirável é hoje, estava também ele um caco. Cacos, o carro e o desgraçado que, lívido, desfalecia na calçada. Viria depois a saber-se – porque nos bairros tudo se sabe – que o sujeito, e o caso não configurava nenhuma catástrofe etílica, se evadia de casa do marido da senhora com que privava às escondidas, descoberto com o rabo de fora.

E vai daí, corre para a viatura a toda a brida, à frente do capitão armado e do homem enfurecido de enfeitado. Atravessou-se com o bólide na estrada e o resto já se sabe como acabou. Ou não, porque há sempre mais qualquer coisa para se saber.

Bem, depois do primeiro desmaio, o dom juan de marvila, como ficou conhecido o homem que desmaiava, ainda ganhava umas quantas sacodidelas do militar, bem à frente do museu.

Da norton, daquelas de um tempo em que não tinha ainda sido inventada a carenage e que rugiam rouquenhas, não mais ouvi falar. Agora que a mioleira do meu pai foi famosa por duas épocas lá no bairro e arredores, disso não restou a mais pálida dúvida.

sexta-feira, 14 de novembro de 2008

Bandarra, nostredame e as sandálias de pescador.

Um dia, muito tempo depois de ter partido lá da terra, viu picarem-lhe as pedras do túmulo, coisa que o deixou um tanto ou quanto aborrecido pois que as pedras paradas dificilmente fazem mal a quem quer que seja, já que acerca das andantes e com olhinhos será mais dificil decidir acerca da sua inocência.

Em vida ainda se viu inocentado, com sorte e por culpa das vistas curtas por parte do pessoal da mesa, mas ainda assim e por cautela com direito a desfilar em torno do pelourinho no auto-de-fé e assim exercer o seu direito de passear uma daquelas velas que indicavam tantas vezes o fim da linha e sempre a humilhação. Teve sorte, para o que contribuiu decisivamente a miopia estravagante do juiz. Safava-se.


Restava-lhe não fazer-se à estrada, que por aquela época os fundos do reino não tinham sido planeados serem assim dispersos, mas sim a caminho do caminho de ferro de vila franca, que ainda viria a chamar-se das naves - e porque só deus sabe - transformando-se no fulcro da alavanca ferroviária da beira alta. E foi a alta velocidade, seja isso do que se trate na realidade, que deixou o seu trancoso, bispado da guarda, para se instalar na rua dos sapateiros, comarca de lisboa.

Chegou aqui depois de uma penosa cavalgada carregado pelo seu burro, este cansado de tanta serra subida e tanta ladeira descida e aquele enjoado de tanto marear pela vagas alterosas das serras, que como se sabe portugal é um país de algumas cidades e muitas serras. Instalou-se num casebre daqueles a que o terramoto haveria de dar o golpe de misericórdia pela mesta altura em que lhe picavam o túmulo, e imediatamente a seguir ao arco do bandeira no lugar onde haveria um dia viria a existir um cinema com fachada arte nova de verde pintada, a fachada.

Artista jeitoso, gonçalo não teve dificuldade em encontrar de imediato um mestre que lhe cedesse um banco para trabalhar e foi assim que duas manhãs depois o encontrávamos já em grande labuta. Ele era deitar umas gáspeas novas a solas velhas; capas nos saltos que, marotos, se enfiavam por entre as pedras da calçada como que a sumir-se das donas que os calcavam; lustro nas botas dos cavalheiros a caminho dos seus ócios.

Guilherme, o mestre da oficina, aprendera o ofício com o seu velho pai e também tinha aprendido a tocar bandolim, instrumento místico e mítico entre sapateiros, e tocou sem parar até se tornar no melhor tocador de toda a lisboa a cascais, praia de pescadores no fim da linha a umas léguas valentes da capital e onde faziam uns bailaricos interessantes. Era bom, aliás muito, como excelentes eram os seus concertos acompanhados pelo ritmo frenético dos martelos nas bigornas dos consertos.

Aquela oficina era uma ímane. As linhas de força que dela emanavam abriam tanto os braços em abraços tão amplos que abraçavam se não o mundo todo pelo menos grande parte da esfera, maneira pela qual o mundo se põe a jeito de ser abarcado. Já veremos do que se trata, que por agora temos que justificar como pode tamanha inverosimilhança não corresponder a nada mais do que à pura realidade, que verdade é um campo mais movediço.

Estas notícias chegaram-me aos ouvidos porque o meu bisavô josé, pereira da família dos pereiras, aprendia o ofício lá na oficina da rua dos sapateiros, que assim se chamava porque o marquês - o de pombal - decidira arrumar as ruas por mesteres uma a uma todas as ruas da nova baixa, então em alta e não havia metre em toda a lisboa que para ali, para a respectiva rua, não quisesse transferir-se de armas e bagagens.

Como encontrava tempo para tal, ninguém sabia ao certo, o certo é que gonçalo annes, a quem entretanto passaram a chamar de bandarra, ainda encontrava forma de escrever a sua paráfrase e concordância em que profetizava sobre as coisas do futuro, no nosso futuro, do futuro de portugal.

E um tal de pessoa viria a dizer um dia que ele não era ele, ou só ele, ele era portugal todo, mas isso é outra conversa e de tal o meu bisavô nunca quis falar perto dos miúdos. Que as paredes tinham ouvidos, e os meninos fazem favor de ir jogar à cabra cega um bocado que vamos falar de um império a que virão a chamar de quinto e a que os promotores dos sambetinos do rossio chamariam quinto dos infernos fazendo, portanto, pagar em prestações de fogueira bem acesa para o relaxe - e não relax - em carne, para remissão.

Se sofria de epilepsia psíquica, de gota, ou de qualquer outra maleita debilitante nada se percebeu quando se assomou à portinhola da oficina dando a salvação - bon tarrdê monsieurs - com um sotaque tal que logo se percebeu que só podia provir da terra dos francos. Que se chamava jaques de nossa senhora e que na sua terra fazia questão de ser nostredame para desta forma mais facilmente poder iludir os que viam na alquimia o demónio, na astrologia o mafarrico e na literatura belzebu.

Que publicava almanaques astrológicos anuais, que corria mundo, que gastava solas com fartura e procurava quem lhe fizesse umas sandálias que lhe permitissem andar sobre a realidade sem que se gastassem assim sem mais nem menos. Bateu vossa senhoria na porta certa, responde de imediato mestre gonçalo, mestre também do bandolim, que temos aqui quem seja artista capaz de tal coisa, dizendo isto ia apontando, com a agulha de onde pendia alinha com que cosia umas solas, para o bandarra que entretanto, desconfiado tinha já erguido olhar por cima das lunetas de ver ao pé.

Entre o tirar a medida do pé, ajustar o preço e dar o prazo para os vir buscar o de nostredame teve tempo de dar uma olhada pela banqueta e dar de frente com o olhar num exemplar, já meio puído, das trovas do gonçalo ao lado da caixa de taxas que usava nas solas das botas caneleiras. E que daí por dois dias estariam terminadas.

Conversa puxa conversa, que a conversa é como as cerejas e isso já os antigos o diziam e tinham muita razão, e daí a estarem a alinhar centúrias e trovas foi menos que um piscar de olhos e, com as sandalias novas de pescador que o meu bisavô ainda aprendiz foi buscar, puderam ir pelas águas revoltas do mundo profetizando profecias e trovando trovas para a descoberta do paradeiro do encoberto.

quinta-feira, 13 de novembro de 2008

A loja de números.

Um dia, era eu miúdo, o meu pai, que me contava histórias sensacionais e aventuras fantásticas, contou-me esta passagem que se passou numa cervejaria por onde ele um dia passou, já altas horas da madrugada, num tempo em que o tempo ainda não contava para nada nem contaria por muito tempo. É assim.

Naquele tempo não sabia ainda que viria um dia, bacharel, a tornar-se o cosmógrafo-mór, mas assumia já o papel de cosmógrafo-real, bem real por sinal. Por aquela época os seus créditos como lente na sua ciência tinham causado tal furor que el-rei, o senhor dom joão, o terceiro de seu nome, não teve outra opção viável que não contratar os seus serviços como mestre dos seus irmãos benjamins ambientando-os quanto baste no bom uso da indispensável moral, da estravagante filosofia, da transcendente metafísica e, claro está, da inexorável lógica. Seguramente da tangível álgebra uma pitada também.

A coisa até nem progredia mal mas tinha dias que lhe deixavam abertura a novas abordagens e, satisfazendo um sonho antigo, abriu em lisboa, perto da sinagoga velha que a nova ainda demoraria a ser construida, a sua loja de números. Pedro vendia números avulso, não quaisquer números, não números vulgares de fanzines há muito esgotados, não números desbotados em camisolas espampanantes de uma qualquer equipa de um campeonato extinto, não. Vendia números concretos.

A sua loja tinha prateleiras repletas de esquadras e brigadas de números de espécie rara e raras eram também as vezes em que alguém os designava da forma como se chamavam, na sua loja. Hipercomplexos, talvez, agora aquilo dos cardinais é que fazia mais confusão e mais perplexidade causava por aqueles dias, até porque lhe pediam que organizasse um calendário novo em folha branca.

Mas por aquele tempo, com uma crise financeira nos mercados dos números, números era justamente a mercadoria de que o mercado se afastava, e passavam-se dias sem que entrasse vivalva na sua loja. Bem, vivalma com potencial, digamos, para os números. E entre as lições aos catraios - coisa que o salvou do sambetino e da marcha lenta - e a venda que não acontecia, avançava pelo seu livro dentro cristalizando em equações decisivas as voltas inúmeros da sua algebra en aritmetica y geometria que ainda serviria de muito governo a muito boa gente.

Nascido em Atenas, veio em visita de estudo ao teatro romano de alis ubbo não sem antes ter aportado em siracusa, mas foi por cá que mais se demorou, mas nem tanto que não chegasse a voltar à sua terra natal nem tão pouco que não ficasse amigo de casa de muitos da capital do reino.

Por causa de um programa interdepartamental entre as suas universidades - em que se explorava a natureza do número e o seu impacto no desenho do mundo - ficariam próximos. Pedro, o que ainda viria a ser conhecido como o do nónio, nunca esqueceria a intervenção de Platão em que, este com uma calma impassível, comunicava à assistência em transe o seu resultado mais sintético que sublinhava que os números governam o mundo. Sem mais nem menos.

Sendo o mundo - o visível e o invisível, o tangível e o subtil, outros ainda que não se saiba como descrever - um caldo a borbulhar numa cataplana gigantesca nas mãos de um cozinheiro bem-disposto e sempre pronto a tentar novas perspectivas para a degustação, os números são os ingredientes e as formas como se ligam, que o bom gourmand sabe distringuir com a inspiração das baforadas de imaginação que emana, fumegante.

E assim, não foi difícil que ambos se sentassem na mesma mesa no final da sessão, o do nónio e o que andava às voltas com o crítias - muito a jeito por aquele tempo de pesquisa mais activa do continente perdido - numa mesa lá ao fundo de uma cervejaria ali à trindade perto do cauteleiro eterno e do teatro onde a coisa acontecia.

Que os números representavam o movimento acelerado, que sim senhor, mas que também se mostravam como colecções de unidades, sim, sim, mas essencialmente quantidades de coisas da mesma espécie. E assim ia a conversa dos números. Pois então e que se dane o resto da sessão. E lá na loja tenho uma oferta muito segmentada, dizia o nunes.

Como assim, ripostava o grego, pois que os clientes procuram cada vez mais os números adaptados às suas necessidades, e isso resulta, resulta com uma oferta estruturada para os naturais, os cá do burgo e aos outros, aos inteiros, aos racionais, cada vez mais sumidos idos que foram para outras paragens mais aprazíveis, sem esquecer a oferta de reais, ainda não em forma amoedada, nem tão pouco os complexos, que muitos e de muitos tipos me entram porta dentro à procura de situações quase sempre imaginárias.

E vai daí a estarem a rabiscarem nas toalhas de papel da mesa foi um menos que nada, um mesmo enquanto o da pata fendida esfregou um olho. com três números derivo um triângulo, o nunes. E fazes o quê, o grego atrevidote e trocista. Calculo, com os pesos atómicos dos elementos correspondentes, um triângulo essencial e daí o padrão semente do mundo. Então mostra lá, ora toma, aqui tens e agora que dizes, digo que está bem à vista o que não viste nem lograste ver de tanto olhar.

A coisa prolonga-se noite dentro, madrugada afora, a mesa cheia de rascunhos, pingas de café, restos de tostas mistas, que a fornalha lava-se com água - mais ou menos - mas carbura com combustível.
E é nesse momento, mesmo cansados da maratona, que sob os primeiros raios da manhã coados pelos vidros embaciados do bafo da noite apontados à mesa, emerge do papel, qual criação da criação do criador, as quatro equações a três variáveis que de imediato fizeram congelar de espanto e felicidade os dois maratonistas.

Tinham encontrado, Pedro Nunes e Platão, o tesouro do mundo e podiam escrever por fim o sistema de equações das almas. Eureka.

segunda-feira, 10 de novembro de 2008

Eça e o teorema de Napoleão.

Desde cedo tive a fortuna de me serem apresentados grandes amigos, amigos eternos. Naquele verão ser-me-ia apresentado um grande amigo. Passei manhãs e tardes e noites e noites-dentro, com ele. Foi dessa forma que conheci o eça da relíquia, do mandarim. E das notas de viagem ao egipto onde falava de muezins, cegos como se sabe, com babuchas; do museu de antiguidades de bulak a que pouca gente naquele tempo acorria e, se calhar, hoje está mais ou menos na mesma se ainda existir; da esfinge e das pirâmides; e dos faráos. Mas era ainda cedo naquela manhã da minha mocidade e muita água o mediterâneo têm e outra tanta passaria pelo estreito.

Recentemente tive sorte outra vez, porque - e vocês conhecem-me - não sou de me armar, mas de facto tenho mesmo muita sorte, se é que receber uma herança pode significar sorte se considerarmos o ponto de vista daquele que gentilmente nos contempla como última vontade ao partir. Adiante.

Recebi de um tio afastado num ano de que já não me lembro a terminação, mas tão somente da aproximação, a sua fantástica biblioteca. O meu tio, solteiro e sem filhos conhecidos, fez questão de não ver desbaratada pelas sessões de um qualquer leilão o seu espólio livreiro e vai daí aparece-me em casa, estava eu nos meus quarenta e qualquer coisa um advogado de que eu tinha ouvido vagamente falar.

Que era fulano de tal, que representava os interesses de Albuquerque Mello, sénior, e procurava-me na qualidade de testamentário. E vai-se a ver e não é que me calharam umas fiadas valentes de tesouro encadernado. Sorte, pura sorte. Estão a ver.

Numa das investidas de que me tornei assíduo nos meses seguintes, e foram muitos, e ainda são, dou de frente nem mais nem menos com a primeira edição do egipto, do eça, e lá de dentro, ao folheá-lo, salta uma carta assinada pela mão do próprio .

Não havia que enganar e de imediato chamei à memória uma daquelas madrugadas de há muito tempo, de um tempo em que tinha tido por companheiro de insónia noite dentro justamente aquele egipto mas numa edição popular em voga na época.


Aquela carta contava uma história fantástica que falava de napoleão e de uma descoberta que viria mudaria o mundo.

Quando visitou o egipto, eça conheceu napoleão e ainda frequentaram umas quantas soirés na missão diplomática. O francês da mão friorenta estava nesse tempo a travar a sua batalha contra os otomanos, que não venceria e contra as piramides, que cederiam e de tal forma cederiam que lhe deram passagem à câmara do achado. Mas disso falaremos ainda.

Por essa altura eça tinha o posto de consul em paris pelo que entabular conversas subtís e de meios sentidos e evidentes sobreados à francesa com o imperador não era coisa complicada, tratavam-se já por tu. Ele era José para cá, ele era león para lá. E findo o parlatório e o eça com a cabeça a cintilar de fantástico, lá foram à sua voltinha pelos bares de jazz do cairo.

Napoleão tinha-lhe confidenciado que a sua missão exploratória nas pirâmides tinha logrado encontrar o sarcófago de nada mais nada menos do que do faráo seti, o que aconteceu depois da sangrenta batalha das mesmas travada e vencida contra os mamelucos. Não podia ser, podia sim, não, sim, e que tinha já seguido uma missão especial para a europa. Assim, a seco e sem mais, que o segredo é a alma do negócio.

Eça contava na carta que herdei com o livro do tio albuquerque mello, sénior, que voltou também ele pouco depois a paris, mas não sem antes se deter pelas terras de baião com umas garrafas de vinho verde para retemperar forças que os areais do deserto, à força de calor, também amarelaram na proporção directa em que o deixaram mais trigueiro. Escreve o tesouro e volta finalmente aos seus afazeres parisienses, onde ao chegar o aguardam notícias singulares. Napoleão morrera.

Sem saber bem por onde procurar, procurava desvendar o enigma que naquele final de tarde na varanda frente às pirâmides Napoleão lhe lançava. Começou por procurar pistas e avançou para o père lachaise à procura sabe-se lá de quê. Passou pela chaise-longue do túmulo de lacroix que lhe respondeu com silêncio, pelo dólmene de kardec que lhe devolveu um sorriso enigmático; e foi apenas de volta aos invalides, perto do consulado de portugal, que, na cripta, lhe falou Napoleão. Vai a londres e saberás.

Bem dito melhor feito, que uma missão é uma missão e vai daí e pede transferência para o consulado de bristol. As festas cândidas da paris que ama fazem-lhe agora falta, substituidas pelas recepções fleumáticas so very british, tão formais.

Certa vez, seria a vez. Numa dessas recepções conheceria mister soane. Arquitecto distinto, soane tinha nessa fase da vida, da sua, um interesse muito particular pela egiptologia - por acaso em voga por esse tempo - e pelo coleccionismo simbólico, e essa conversa seria determinante. Soane convida-o para a maior festa, uma festa no estilo à londrina já se sabe, festa que duraria três-dias-e-três noites para as bandas de lincoln square, na qual o anfitrião apresentaria à sociedade essencial lá do burgo o tal do sarcófago em alabastro do faraó seti primeiro envolvo numa luz reflectida e cor subtil que lhe chegava das claboias quatro andares acima da cave.
Aí estava, de mão beijada. E não era tudo, aliás era o mundo todo mas não ficava por ali.


Soane entregava-lhe um envelope com meio mistério. E o que faço com meio mistério, fará o que num tempo do tempo futuro o futuro lhe disser o que fazer. Ora essa. Nem mais, nem menos. Do envelope tirou meio quadrado rasgado ao meio que dizia "teorema de". Nem mais.

Na carta eça falava de outro facto fantástico. Numa certa vinda, das muitas que fazia, a portugal, numa daquelas necessidades que resultavam num assombro de uma obra novinha em folhas e que desta vez deu no misterio da estrada que agora tomava para encontrar-se com dom fernando. Conheceram-se na festa dos três-dias-e-das-três-noites-de-lincoln-square e desde logo ficaria combinado visitar o seu agora anfitrião em sintra, o qual lhe entregava um envelope aberto à chegada e com ele tomariam ambos um porto seco na
sala dos vitrais.


E enquanto lhe apresentava a surpresa do dia, combinada com soane mas ignorada dele, franqueava-lhe a porta da biblioteca guardada, por são gabriel à entrada, apresentando-lhe o segundo sarcófago da sua vida, este de arenito e chegado também da terra do nilo nos idos de há um tempo. Com uma curiosidade nervosa, desconfiado mas sem desconfiar que tirava do envelope o resto do quadrado de papel almaço que emparelhava com o que guardava, bem guardado e sempre consigo, no bolso pequeno do paletó. Este dizia "napoleão" e fez-se luz, juntava as metades e tinha o tudo.

Napoleão oferecia-lhe o seu teorema de napoleão, onde explicava o que acontece aos triângulos, quaisquer que sejam, quando são projectados em equiláteros. No limite, constroem pirâmides e suportam o mundo e haverá um tempo em que conseguiremos entender isto.

domingo, 9 de novembro de 2008

Sempre que quiser.

Era uma vez há tanto tempo, num tempo em que a todos os que conheço vivos não tinham ainda sido dadas as deixas que diriam nas suas cenas desta récita breve. Nesse tempo passava-se em Lisboa um tempo diferente do tempo escasso que faz hoje e havia tempo para dois, ou mesmo três, dedos de conversa na mantegaria ou com o odreiro ou com o tanoeiro. Ou mesmo com todos eles numa mesma ida à praça da figueira.

Dizem-me que hoje, seja isso do que se trate, não há tempo e que, portanto, não há tempo a perder. Vejo daqui que segue o carrossel com os cavalinhos relinxantes, os burros teimosos que nem burros em pleno acto de teimosia e os leões que já eram assutadores quando rugiam nos filmes da éme-gê-éme. E também há serpentes e lacraus.

Não pude voltar à praça no eléctrico do poço do bispo, mas ele ainda lá vai, o coitado que nem bispo nem acólitos nem fregueses pode transportar porque já não há por ali a vida que conhecíamos para vender; vendem-se outras ilusões e algumas não são bonitas de se ver.

Seria numa manhã sibilina dos idos de quarenta que tudo terminava, lembro hoje o que me custou então, passava na rua dos condes a fita "E tudo o vento levou". Praça, pessoas, vida, dando lugar à praça sem vida e sem pessoas, porque a gente que lá passa hoje tanto se parece com máquinas disfarçadas sob o efeito de uma hipnose tresloucada e as que se demoram mais um pouco nada têm para ver para além de um cenário adornado de restos de série-bê, passeios sujos e fantasmas sem casa.

A figueira consumiu-se no fogo de uma homenagem equestre sem alma e a graça de praça viva de ferro forjada não pôde mais ver a luz do dia amontoada que a puseram num qualquer ferro velho, para venda à tonelada.
Qual feitiço ruím e incortornável, a roda de engeitados na esquina a sul ditava à praça a desditosa sina de quem ia afogar mágoas numa tasca reles, ao borratém.

Mas ainda posso lá voltar em espírito e ouvir os pregões das raparigas, sempre que quiser
.

sábado, 8 de novembro de 2008

A ourives do campo de santa Clara.

Era primavera e sentia-me cheio de esperança na concretização dos sonhos de felicidade que teimavam em acompanhar-me todo aquele mês de Junho. De tal forma que, ao contrário do que habitualmente não me apetecia, naquele fim de semana apeteceu-me com força ir ao cinema. Eu não frequentava muito o cinema e acabava de jurar bandeira no regimento de artilharia de costa. Fui sozinho ao cinema, achava eu.

Ainda passei pela menina Rosa que por sinal é florista e mora ali para as bandas do pátio da cantigas, à Graça, demos dois dedos de conversa e lá desci a passear o assobio descendo às escadinhas da dona do mesmo nome e entrei no cinema imaginário na travessa do paraíso a ver o que por lá passava. Entrei no filme e passava-se tudo quando subi ao campo de santa Clara.

Vi senhoras de sombrinha fazendo sombra sobre os seus rostos, vi meninos a correr com carrinhos de lata nas mãos a comer sobras de pão, vi banquetas de cacos reluzentes do polimento sobre a idade da faiança e do metal sob o sol do final da manhã, vi casais enamorados de aves que cantavam alegremente empoleirados nos troncos das árvores e outros que debicavam alpista, vi as clarissas à janela do tempo debruçadas sobre o bulício inacessível da praça efervechente de vida.

E, afogueado e com a farda de magala transpirada, bebi do chafariz que me aguardava como quem sabe o que aí vem e lhe serve água fresca e já lá não mora.

E vi-os, ambos. Do lado de dentro do balcão da loja, logo ao princípio do corredor. Lá estavam, soube-o no preciso momento em que os vi. Mãe e filho, ainda de colo. Uma loja de penhores tem uma aura estranha. Com a guerra as pessoas lá deixam as memórias e com a miséria nunca as recuperam. Lembro-me, deste lado do tempo, das caras lavradas a lágrimas na separação adivinhada eterna mas com esperança no resgate próximo, que nunca viria. São as suas memórias orfãs.

No quiosque ao lado da loja de penhores a menina que lá despachava serpentinas e confetis coloridos das mil cores do arco-irís trauteava, com lá-lá-lás, o fado rosa vermelha e disso nunca me esqueci; também vendia molduras. Trouxe uma e voltei pelo arco de santana e acabei a noite com Garrett nas mãos.

Do rádio guardei para sempre a letra que dizia "o que vou levar da feira?" com melodia aromática como hoje parece voltar a florir e num dia de uma terça-feira muito tempo depois do tempo em que lá estive naquela vez em que era sábado, vi a montra que mostrava uma rosa seca e um botão numa moldura das que conhecia.
Também ali habitava agora um par de corvos inseparáveis e uma pagela de são Vicente.

quinta-feira, 6 de novembro de 2008

O alfarrabista de viagens.

Apanhámos o ferry do cais do Sodré. Bem, o cais diz-se ser dele e de facto foi porque o construiu. Vindo de Águas Belas, lugar de gente afável para as bandas de Tomar nos idos de há muito tempo, embarcou com as voltas que o mundo dá ao lado do Gama, mar abaixo.

Naquele dia de inverno nublado de há tanto tempo em que, com o meu pai, apanhámos o barco junto ao velho farol verde que se ergia por entre os bancos de nevoeiro que abafavam Cacilhas e congelavam o mar da palha, como que a demarcar o território entre o conhecido e o oceano por descobrir, o miúdo que eu fui e que ainda mal sabia ler veria que o mundo se escreve em mãos cheias de páginas repletas de mundo por conhecer. Mas lá iremos.

Passámos os portalós da estação e subimos à trindade debaixo de uma chuva miudinha que teimava em encharcar-nos, deixando-nos que nem pintos. Eu tinha pé chato - naquele tempo apenas o pé - e íamos a uma daquelas sapatarias que vendiam calçado tão adequado à função quanto horrivel se mostrava à luz fosca daquela manhã.

Lá nos despachámos e, porque eu insistia com o pai sempre que íamos à capital em dar uma volta pelas ruas onde se vendiam livros antigos, lá fomos.
Esculpido numa filigrana de ferro fundido, o elevador de santa justa representava um trabalho de ourives de ouro fino e por isso o aprendiz de Eiffel o fez nascer na rua áurea. O pai fez-me a vontade e pediu ao capataz que nos permitisse descer na cabine já à experiência e descemos.


Era o elevador de santa Justa e faríamos a viagem numa gaiola à justa atafulhada de operários que, apressados para a hora curta do almoço parco, bufavam de desespero pela lentidão da viagem. A vida de trabalho esforçado daqueles homens não me pareceu nada fácil então e hoje acho que já sei o que me esperava.

Com os sapatos novos, o calcar no empedrado escorregardio da rua Garrett tornava-se mais difícil a cada passo, que aquele tipo de instrumentos de tortura ortopédicos pareciam naquele tempo especialmente desenhados se não para dar completamente cabo dos pés, pelo menos para dar conta dos calcanhares, já com bolhas.

Ainda assim foi sem esforço que demos com o velho alfarrabista. O senhor, já cota de anos e de entradas fundas de sabedoria e que encontraria noutro tempo num tempo lá no futuro, lá percebeu que o catraio procurava não outra coisa senão um fascículo do Mosquito. Fomos direitinhos às estantes dos quadradinhos, milhares deles, universos a rodar à velocidade da imaginação e da cores das tiras com balões de letra miudinha.

E foi ao passar pelo estreito corredor, depois da sala meio bafienta porém luminosa de uma luz eterna da entrada, que o mundo que conhecia aceleraria a alta velocidade ao entrar no livro enorme e de página amareladas nas pontas que o senhor abria e me mostrava, direito ao encontro que teria no Rossio. Encontrei-me sentado à mesa do Nicola com Manuel Maria e rodeado de indivíduos que deliravam de entusiamo com as prédicas que o haveriam de tornar famoso num tempo que ele ajudaria a inventar.

Vimos ruir o hospital de todos os santos; assitimos ao nascer, das cinzas dos estaús, o dona Maria; estivémos no erguer das fontes simétricas na imensidão da praça; e ensinou-me que no alto do obelisco estava aprisionado outro que não dom Pedro, porque esse tinha alcançado o estado da liberdade que também nos estava destinado.

E o tempo medido na escala de sonho tinha passado à velocidade de menos de nada, percebi-o quando o já parco movimento de caleches era apenas o que acontecia na praça e fez-se hora de sair do livro para encontrar-me com o meu pai que deixara na sala da entrada.

Vi um livro aberto em cima da mesa, só e espreitando percebi que tinha chegado no momento em que acabava de embarcar à procura da sua viagem. Na capa estava escrito "Até à eternidade".

Ouve-se ao longe um violino na torre.

Lembrei-me, pelo final da tarde, de ir lá abaixo dar uma volta. Peguei na minha leitura de cabeceira, o soberbo "O violino de Viena" e fui caminho de Belém. Chegar lá foi fácil uma vez que toda a população de Lisboa parecia ter abandonado a cidade rumo aos seus destinos de férias. No verão moderado daquele ano da graça aterrei na fresca esplanada do cais e pedi o meu café curto e sem açucar.

Naquela semana o trabalho tinha sido intenso e com a criançada lá de casa em maré de serenata noite dentro e uma oitava acima, as pálpebras apenas precisavam de um argumento, por mais leve, para se entregarem a um leve deslizar de cortinas. Esquecido da leitura, do resto e de tudo, passei pelas brazas.

Encontrei-me com Sebastião José na torre. E isso era num tempo em que já não estava secretário do reino. Passava nesse tempo a maior parte do tempo pela igreja da memória, da sua e da nossa memória. E as suas memórias estavam cravadas de forma indelével, porque o papel da memória aguenta sempre o que insistimos em escrever-lhe e ele tinha escrito com força.

Tinha voltado havia pouco de Viena, onde completara a sua comissão de serviço na representação diplomática junto da corte e aí tinha ganho o gosto pela música e não só. Foi assim que o encontrei a exorcisar o seu fado com o violino barroco talhado numa linda raiz de picea abies da noruega encomendado num luthier do Graben, mesmo na esquina com santo Estévão e nem os pastéis que os frades lhe levavam do convento todos os dias lhe podiam dar consistência ao olhar vazio cravado no tempo ao longe.

No rio, orientado pela rosa dos ventos gigante, entrava a nau do padrão pela doca do bom sucesso com a safra de cana dos engenhos da terra do pau brasil, conduzida pelos ventos que sonhava pudessem trazer-lhe de uma vez a paz pela mão das pombas do espírito santo.

E ali passava dias a fio, noites sem fim à espera que o alvor da madrugada lhe trouxesse o perdão de um outro alvor, conde como ele, que lhe pesava no remorso. E matutava interminavelmente, a bordo da sua nau-torre ancorada no Tejo de águas plúmbeas, como tinha podido ser tão desgraçadamente comprado daquela forma.

Ele que tinha abolido a escravatura, ele que tinha acabado com aqueles ofícios nada santos, ele tinha também sido capaz de fazer o papel de capataz a assegurar-se que acontecia o impensável num outro tempo.
E desse tempo de cegueira desmesurada, paga a condado e maquezado, sobraria apenas um chão salgado num beco sujo do sangue que fez derramar a mando do canalha.
O seu rei teria sido outro, um Távora naturalmente. Sentou-se e, exausto, adormeceu.

Quando acordei, estremunhado, já a tarde caía e o sol se punha no horizonte a ocidente por detrás das árvores do parque, recortado pela sombra dos Jerónimos. O meu café estava mais do que frio e sem graça, mas tive a graça de ter uma pomba pacientemente à espera do meu acordar para ir comigo à igreja da memória visitar Sebastião.

terça-feira, 4 de novembro de 2008

Sine sanguine non est victoria.

Luiz Vaz vinha esbaforido quando entrou pela Brazileira dentro. Tinha decidido, ainda manhã cedo, ir lá abaixo ver as naus à ribeira das mesmas, saltando do meio do seu largo para uma caminhada rua abaixo, não sem antes se ter demorado, por breves instantes, na igreja dos italianos. Essa manhã viria a ser mostruosamente diferente do que tinha podido imaginar em sonhos e muito menos acordado.

À beira rio, enquanto lia distraidamente, via a montagem das tábuas, unidas com fé e esperança na descoberta. Luiz assistiu dali ao ruir do mundo que conhecia. Terminados os nove minutos do colapso, correu a bem correr à procura do seu amigo Fernando com quem tinha combinado encontrar-se mais tarde.

Correu quanto pôde com o seu exemplar do poeme sur le désastre de lisbonne, debaixo do braço, que o seu irmão Voltaire lhe tinha oferecido quando, recentemente, o tinha visitado em Lisboa. Que coisa, aquela profecia, pensava enquanto avançava na mole.

Enquanto isto, Fernando descia a trindade a caminho da sua bica, com a calma que se lhe conhecia apesar do dilúvio de fogo. No politheama, ali às portas de santo Antão, estava em cena por aqueles dias o domador de sogras, mas esta pessoa assistiria à estreia do afilhado de santo António no teatro do gymnásio, que lhe salvou a vida poupando-o a um fogo que, como o amor, arde e se vê. A baixa ficaria soterrada e em santo Antão não haveria espectáculos por tanto tempo.

Varrido de uma infinita água violenta e soprado por uma tormenta de adamastor, o terreiro do paço dava-se a conhecer como um campo de batalha que tinha forçosamente que transpôr. A custo lá conseguiu passar, entre escombros instáveis e labaredas ensandecidas, pela corrente de destruição e entrou no Martinho a ver se o encontrava. Mas não logrou vê-lo.

E correu a bem correr, correu quanto pôde e quanto o caminho lhe permitia, galgando a colina numa jornada que lhe pareceu infinda.

Nós vivíamos ali ao lado, perto do teatro dona Amélia e eu, que algumas vezes brincava com os miúdos ali da rua nos largos e páteos das vizinhanças, fui apanhado a jogar ao pião no Chiado. O grupo desbaratou-se ao primeiro troar da hecatombe e eu, só como muitas vezes e curioso como sempre, fiquei para trás e vi o poeta chegar sofrego de ar, lívido de cores. Quando nos encontrava sempre nos dava um carolo gingão na cabeça, mas não foi assim naquela manhã.

E foi da rua, através do vidro embaciado dos poucos que sobraram, que os vi, derrotados - o Luiz e o Fernando - a gesticular sobre o futuro negro que vinha a caminho pelo caminho do tempo. E também vi que não estavam sós.

Naquela manhã tenebrosa e de má memória em que se fez a partilha de Lisboa, meio por meio, entre a tristeza e a desolação, juntava-se-lhes a imagem bronzea de António Ribeiro cá fora e a subtil do beato Nuno que o abanar da terra lhe levava ao chão o seu convento. Um porque ali parava e o outro que ali chegou em menos de nada trespassando as casas que sobraram com a facilidade que a subtileza da matéria lhe oferecia, ambos de juntaram aos outros dois.

Chamaram-me e eu, catraio tímido, entrei. Discutiam, dois homens, uma estátua (que a outra haveria de demorar a sentar-se à porta da brasileira) e um espírito, o auto da natural invenção e de como vestir (ess)a mensagem de uma leveza que lhe permitisse atravessar o tempo e do outro lado do tempo pudesse de novo fazer nascer a esperança da independência do futuro de nós.

Assisti à invenção do novo tempo.

segunda-feira, 3 de novembro de 2008

Do tempo em que se desenhavam coches.

Lembro-me, de entre as memórias felizes, das cocheiras do paço e do barulho metálico das ferraduras no empedrado seco. Pequeno, pouco maior do que a idade aceitável para me fazer acompanhar dos meus coeiros, ia por vezes com o meu pai até aos seus desenhos das carruagens que haveriam de transportar S.A.R.

O pai desenhava-as de forma graciosa e por aqueles dias tinha em mãos o coche coupé que o rei lhe encomendara para os seus três filhos bem amados e engendrados em mulheres limpas de todo o sangue infecto como então era uso eufemisar-se, António, Gaspar e José, que conheci no pátio, lá em baixo.

Fantástico perfil, esplendorosa a estrutura cortada da parte da frente, reluzentes os paineis que haveriam de arrancar ahs assombrosos ao povo assombrado que com ele se cruzariam, vendo-o percorrer as veredas infindas entre o largo do Calvário e a babilonicamente distante Palhavã fora de portas, com destino ao palácio que um dia serviria de cenário a golpes de opereta, amores clandestinos e embaixadas secretas.

Era verão e fez-se uma tarde de canícula insuportável. O calor tórrido que trazíamos de áfrica sufocava-nos, mesmo à beira rio, fritando a um tempo os pardais nas árvores e nós. Cheios de sorte, contávamos com a sorte de ter um amigo em Bunduango que, pacientemente e por horas infindas, abanava tamanho abanico para refresco da garotada ali estiraçada pelo chão a rabiscar os seu próprios modelos, suavisando-nos o sofrimento. Ajudava-nos à inspiração mas estava para além do seu alcance poder salvar-nos da transpiração que, em bica, insistia em esborratar-nos os papeis.

E foi precisamente numa dessas tardes que descobriria que era capaz de fazer desenhos, estranhos e coloridos, com nomes de estrelas e planetas que não tinham ainda aparecido no fundo dos tubos de ver ao longe. Seriam precisos uns quantos partir-e-voltar para chegar ao tempo em que pudessem acontecer de verdade.

Os coches que tinha sonhado no papel não se pareciam em nada com os que o pai desenhava e que por ali tomavam vida e que, pela mão da minha mãe, conheci mas adiante no tempo frente ao obelisco do grande Albuquerque, lá mais abaixo para os lados da torre que o viu partir mar adentro. Os meus não precisavam de cavalos à frente mas via-os a correr furiosos na minha cabeça.

Mas esse mundo de velocidade seria num tempo muito - mas muito - para lá dos lados do futuro, porque antes veríamos nascer, ali perto da antiga cocheira, a oficina dos modernos americanos que, apesar de tudo, ainda nos transportam com calma bairo-a-cima, encostra-a-baixo, emoldurando de amarelo os pátios, jardins e vilas que, como a luz do fim de tarde, se vão confundindo com o cinzento do rio pela calada da noite.

sábado, 1 de novembro de 2008

O coleccionador de cordas.

Ainda com o baraço na mão com que puxei o balde de água de água fria do fundo do poço do quintal lá na casa da aldeia, naquela tarde subiria ao sobrado para procurar uma corda que não estivesse tão puída e aí, por uma razão qualquer, dei de caras com ele. Maltratado, magro, afónico, lamentavelmente bafiento.

Com a tez escurecida pelos anos em que, forçado, permaneceu na penumbra do espaço entre o alto da taberna de mil conspirações e o céu feito telhado de meia-cana, de imediato emergiu do fundo da escuridão, lá ao fundo. Qual boca esventrada de milenar sobrevivente a intempéries da vida, a batalhas do ser e rasteiras naturais do viver, ainda assim se atreveria a sorrir como quem pede a mão que o arranque à lama que o agarra ao esquecimento, lá em cima.

E assim desceria do mundo sombrio ao patamar dos viventes, para deleite destes. Mas isso só o saberíamos muitos anos depois, irmanado em fraternidade musical e de que ninguém teria a mais leve suspeita por tanto tempo.

As descrições que me tinham feito a seu respeito - o tio João deu-me pistas decisivas e um livro guardado por décadas - estavam certas e não me foi de todo outra coisa que não mais do que fácil perceber que encontara o bandolim do tio Armando, antigo do tempo, velho das dores da vida. Tratei-o com o carinho intenso com que se recebe uma dádiva vinda direitinha do outro lado do tempo e que aterra à nossa beira desenterrando o passado adormecido.

O tio Armando, seu treinador gracioso, tinha partido fazia tanto tempo e com ele despediu-se a pele que acariciou, em tempos felizes ou talvez nem por isso, o bandolim de que agora eu tomava conta. Durante anos vivi na tristeza de não poder oferecer-lhe uma pele que lhe fizesse recordar os tempos em que cantou a voz plena nas mãos do seu amo, tardes a fio, noites dentro, nos bailes do grémio.

Agora, com o bandolim novo que recebi num aniversário das mãos da minha amada, posso comemorar a eternidade do ser e dos coros delestiais que, trinando, acompanha a voz inteira o bandolimm que me chegou vindo da escuridão do passado.

Tive a sorte de encontrar, esquecido, na livraria que nos faz nunca perder a esperança, o método instantâneo e sem mestre para bem cavalgar toda a sela do bandolim e que diz estar ao alcance de todas as inteligências mas do que não tenho assim tantas certezas. Eu nunca teria a mestria e inspiração do meu tio nem do Jacob do bandolim, mas nunca mais os perdi de vista.

Se o tio Armando cá estivesse cantaria com a voz do seu e agora meu bandolim as melodias do tempo, tangindo com suas mãos calejadas da vida as cordas que viveriam com a força da sua alma, o sopro que sobe das entranhas e emerge para o espaço livre do mundo.

De qualquer forma, os estreitos degraus da escada da loja, apenas com a largura de um cadafalso certo para uma extição inevitável da sua vida na ponta de uma corda qualquer, transformar-se-iam nas cordas que, duas a duas num oceano de oito, trariam ao espaço os reflexos de almas dum tempo sem tempo.

Esses, são os meus bandolins que não posso tratar por tu, ainda.