Lembro-me, de entre as memórias felizes, das cocheiras do paço e do barulho metálico das ferraduras no empedrado seco. Pequeno, pouco maior do que a idade aceitável para me fazer acompanhar dos meus coeiros, ia por vezes com o meu pai até aos seus desenhos das carruagens que haveriam de transportar S.A.R.
O pai desenhava-as de forma graciosa e por aqueles dias tinha em mãos o coche coupé que o rei lhe encomendara para os seus três filhos bem amados e engendrados em mulheres limpas de todo o sangue infecto como então era uso eufemisar-se, António, Gaspar e José, que conheci no pátio, lá em baixo.
Fantástico perfil, esplendorosa a estrutura cortada da parte da frente, reluzentes os paineis que haveriam de arrancar ahs assombrosos ao povo assombrado que com ele se cruzariam, vendo-o percorrer as veredas infindas entre o largo do Calvário e a babilonicamente distante Palhavã fora de portas, com destino ao palácio que um dia serviria de cenário a golpes de opereta, amores clandestinos e embaixadas secretas.
Era verão e fez-se uma tarde de canícula insuportável. O calor tórrido que trazíamos de áfrica sufocava-nos, mesmo à beira rio, fritando a um tempo os pardais nas árvores e nós. Cheios de sorte, contávamos com a sorte de ter um amigo em Bunduango que, pacientemente e por horas infindas, abanava tamanho abanico para refresco da garotada ali estiraçada pelo chão a rabiscar os seu próprios modelos, suavisando-nos o sofrimento. Ajudava-nos à inspiração mas estava para além do seu alcance poder salvar-nos da transpiração que, em bica, insistia em esborratar-nos os papeis.
E foi precisamente numa dessas tardes que descobriria que era capaz de fazer desenhos, estranhos e coloridos, com nomes de estrelas e planetas que não tinham ainda aparecido no fundo dos tubos de ver ao longe. Seriam precisos uns quantos partir-e-voltar para chegar ao tempo em que pudessem acontecer de verdade.
Os coches que tinha sonhado no papel não se pareciam em nada com os que o pai desenhava e que por ali tomavam vida e que, pela mão da minha mãe, conheci mas adiante no tempo frente ao obelisco do grande Albuquerque, lá mais abaixo para os lados da torre que o viu partir mar adentro. Os meus não precisavam de cavalos à frente mas via-os a correr furiosos na minha cabeça.
Mas esse mundo de velocidade seria num tempo muito - mas muito - para lá dos lados do futuro, porque antes veríamos nascer, ali perto da antiga cocheira, a oficina dos modernos americanos que, apesar de tudo, ainda nos transportam com calma bairo-a-cima, encostra-a-baixo, emoldurando de amarelo os pátios, jardins e vilas que, como a luz do fim de tarde, se vão confundindo com o cinzento do rio pela calada da noite.