Em toda a lisboa nada mais servia tanto de chalaça pública como o galheiteiro ali à praça dos chapeleiros de que restam apenas quase nenhuns, no rossio, que os chapéus apesar de passarem por muitos estão afinal em extinção e pelas ruas da amargura.
Aquele amontoado pedregulhoso de coisa nenhuma erguia-se, medonho, no centro da praça projectando uma sobra de nada quer sobre a fachada do café gelo quer, da parte da tarde, nas paredes onde outrora parava o hospital - de que se escreveu ter sido de todos os santos - à medida que o sol se reflectia nas vidraças das clarabóias da baixa.
Anos depois e após uma intensa campanha de escritos colados nas janelas da soalheira assoalhada solitária, a edilidade conseguiria que um inquilino real quisesse aboletar-se no trapézio ainda sem trapezista lá no alto. Passava a ser habitada esta modesta água-furtada defronte do arco do bandeira e com vista sobre a betesga e o rio lá ao fundo.
De facto e dadas as circunstâncias, a vista dali até que tinha o seu encanto pelo pitoresco das corridas de formigas a caminho da paragem dos americanos que haveriam de lá estar um dia num tempo que dali até custava a acreditar que chagasse num instante. Agora que os pombos eram uns verdadeiros selvagens, umas autênticas ratazanas voadoras e a causa das cargas de nervos, para os passantes e para o novo inquilino equilibrista, sem dúvida.
Farto dos pombos dia após dia, das pobres andorinhas chilreantes na primavera e das gaivotas ruidosas quando no inverno faz tempestade soprada com ferocidade hercúlea dos lados do rio, decide ir lá abaixo, descendo do seu saguão e atrevendo-se pelas vizinhanças.
A florista, logo a seus pés, oferece-lhe uma rosa cor de alegria que se apressa a prender na lapela da farda. O homem das castanhas no repuxo pensa reconhecê-lo e passa-lhe um cartuxo com uma dúzia delas, quentes e boas. Ainda entra, do outro lado do empedrado branco e preto reluzente, na pastelaria cujo nome faz juz às suas patilhas e pede uma meia de leite que lhe perguntam se será de máquina. Que não.
Dá meia volta pela praça e um olhar de soslaio sobre os vespertinos e uma olhadela ao animatógrafo e lá vai, rua do carmo acima, e depois nova do almada abaixo, e escadinhas de são francisco acima, e capelo ainda acima, até à trindade por fim, já cansado de tanto andar depois de tanto esperar lá no alto, qual castigo continuado na gávea das galés das carreiras do brasil e do méxico.
As pessoas dirigem-lhe olhares curiosos uns, perplexos outros, mas todos com ar de quem desperta de um sono sonâmbulo, acenam-lhe nervosamente, genuflectem os mais ferrenhos com batida cardíaca subitamente acelerada e, a um tempo, entra numa loja de gravuras do seu tempo para ver se descobre gravuras do seu tempo e assim matar saudades de um tempo que não voltará. E é então que tudo acontece quando se chega às mesas das gravuras marciais.
Caramba, que parecenças entre si, que alegria e que desconforto. Quem seria? Dom pedro, dizia a legenda. Mas não sou eu este pedro, o que se interessa por ferrar os cavalos lusitanos no picadeiro? Ilusão, esquecimento. Que não, e não se tratava de bourbon, confirmava-lhe o aillaud dos livros enquanto mirava, compararando intrigado, a pessoa diante de si com a estampa a sépia e outra ainda que entretanto se lhe chegava e dizia fernando maximiliano em letra desenhada de fino recorte. Era o fim, assim descoberto, sem glória!
Aillaud de imediato ligava as pontas da estória de cordel enovelado que à boca pequena se comentava nos boudoirs dos salões da lisboa elegante e pelos botequins sem nome da lisboa marialva e que tinha servido para pintar mantas que dariam para tirar o frio de todos os sem-abrigo que deambulam da a estação do rossio à de santa apolónia. E este degraçado, bronzeado de nascença e fundido para ser quem não era e que por aqui se passeava julgando ser quem nunca foi, desgraçadamente desiludido fica.
A coisa conta-se de uma assentada.
Maximiliano, nascido em schönbrunn dos amores torridos, o que em viena não deixa de ser notável, proibidos e nada secretos de sua mãe sofia com um francês neto do homem da mão escondida, caia em desgraça ao trair todos na aventura do trono do méxico, contentando-se em deitar a perder um império à troca por coisa nenhuma e acabava falido e fuzilado, vindo com o desgosto recolher-se a lisboa.
A princípio sem poiso onde poisar, poisaria nas docas entre a tralha que num porto sempre se encontra e aproveitaria a boleia da estátua que, caído em desgraça não pôde mandar desalfandegar e que por um acaso do destino encontrara com os estivadores do porto e na qual escreveria pedro a ver se assim passava por príncipe do reino unido de portugal, do brasil e dos algarves.
Por fim, maximiliano de lado nenhum e sem eira nem beira, poisaria no rossio da cidade e pedro, de portugal e do brasil libertador, repousaria para sempre com as gentes alfacinhas.