terça-feira, 4 de novembro de 2008

Sine sanguine non est victoria.

Luiz Vaz vinha esbaforido quando entrou pela Brazileira dentro. Tinha decidido, ainda manhã cedo, ir lá abaixo ver as naus à ribeira das mesmas, saltando do meio do seu largo para uma caminhada rua abaixo, não sem antes se ter demorado, por breves instantes, na igreja dos italianos. Essa manhã viria a ser mostruosamente diferente do que tinha podido imaginar em sonhos e muito menos acordado.

À beira rio, enquanto lia distraidamente, via a montagem das tábuas, unidas com fé e esperança na descoberta. Luiz assistiu dali ao ruir do mundo que conhecia. Terminados os nove minutos do colapso, correu a bem correr à procura do seu amigo Fernando com quem tinha combinado encontrar-se mais tarde.

Correu quanto pôde com o seu exemplar do poeme sur le désastre de lisbonne, debaixo do braço, que o seu irmão Voltaire lhe tinha oferecido quando, recentemente, o tinha visitado em Lisboa. Que coisa, aquela profecia, pensava enquanto avançava na mole.

Enquanto isto, Fernando descia a trindade a caminho da sua bica, com a calma que se lhe conhecia apesar do dilúvio de fogo. No politheama, ali às portas de santo Antão, estava em cena por aqueles dias o domador de sogras, mas esta pessoa assistiria à estreia do afilhado de santo António no teatro do gymnásio, que lhe salvou a vida poupando-o a um fogo que, como o amor, arde e se vê. A baixa ficaria soterrada e em santo Antão não haveria espectáculos por tanto tempo.

Varrido de uma infinita água violenta e soprado por uma tormenta de adamastor, o terreiro do paço dava-se a conhecer como um campo de batalha que tinha forçosamente que transpôr. A custo lá conseguiu passar, entre escombros instáveis e labaredas ensandecidas, pela corrente de destruição e entrou no Martinho a ver se o encontrava. Mas não logrou vê-lo.

E correu a bem correr, correu quanto pôde e quanto o caminho lhe permitia, galgando a colina numa jornada que lhe pareceu infinda.

Nós vivíamos ali ao lado, perto do teatro dona Amélia e eu, que algumas vezes brincava com os miúdos ali da rua nos largos e páteos das vizinhanças, fui apanhado a jogar ao pião no Chiado. O grupo desbaratou-se ao primeiro troar da hecatombe e eu, só como muitas vezes e curioso como sempre, fiquei para trás e vi o poeta chegar sofrego de ar, lívido de cores. Quando nos encontrava sempre nos dava um carolo gingão na cabeça, mas não foi assim naquela manhã.

E foi da rua, através do vidro embaciado dos poucos que sobraram, que os vi, derrotados - o Luiz e o Fernando - a gesticular sobre o futuro negro que vinha a caminho pelo caminho do tempo. E também vi que não estavam sós.

Naquela manhã tenebrosa e de má memória em que se fez a partilha de Lisboa, meio por meio, entre a tristeza e a desolação, juntava-se-lhes a imagem bronzea de António Ribeiro cá fora e a subtil do beato Nuno que o abanar da terra lhe levava ao chão o seu convento. Um porque ali parava e o outro que ali chegou em menos de nada trespassando as casas que sobraram com a facilidade que a subtileza da matéria lhe oferecia, ambos de juntaram aos outros dois.

Chamaram-me e eu, catraio tímido, entrei. Discutiam, dois homens, uma estátua (que a outra haveria de demorar a sentar-se à porta da brasileira) e um espírito, o auto da natural invenção e de como vestir (ess)a mensagem de uma leveza que lhe permitisse atravessar o tempo e do outro lado do tempo pudesse de novo fazer nascer a esperança da independência do futuro de nós.

Assisti à invenção do novo tempo.