sábado, 1 de novembro de 2008

O coleccionador de cordas.

Ainda com o baraço na mão com que puxei o balde de água de água fria do fundo do poço do quintal lá na casa da aldeia, naquela tarde subiria ao sobrado para procurar uma corda que não estivesse tão puída e aí, por uma razão qualquer, dei de caras com ele. Maltratado, magro, afónico, lamentavelmente bafiento.

Com a tez escurecida pelos anos em que, forçado, permaneceu na penumbra do espaço entre o alto da taberna de mil conspirações e o céu feito telhado de meia-cana, de imediato emergiu do fundo da escuridão, lá ao fundo. Qual boca esventrada de milenar sobrevivente a intempéries da vida, a batalhas do ser e rasteiras naturais do viver, ainda assim se atreveria a sorrir como quem pede a mão que o arranque à lama que o agarra ao esquecimento, lá em cima.

E assim desceria do mundo sombrio ao patamar dos viventes, para deleite destes. Mas isso só o saberíamos muitos anos depois, irmanado em fraternidade musical e de que ninguém teria a mais leve suspeita por tanto tempo.

As descrições que me tinham feito a seu respeito - o tio João deu-me pistas decisivas e um livro guardado por décadas - estavam certas e não me foi de todo outra coisa que não mais do que fácil perceber que encontara o bandolim do tio Armando, antigo do tempo, velho das dores da vida. Tratei-o com o carinho intenso com que se recebe uma dádiva vinda direitinha do outro lado do tempo e que aterra à nossa beira desenterrando o passado adormecido.

O tio Armando, seu treinador gracioso, tinha partido fazia tanto tempo e com ele despediu-se a pele que acariciou, em tempos felizes ou talvez nem por isso, o bandolim de que agora eu tomava conta. Durante anos vivi na tristeza de não poder oferecer-lhe uma pele que lhe fizesse recordar os tempos em que cantou a voz plena nas mãos do seu amo, tardes a fio, noites dentro, nos bailes do grémio.

Agora, com o bandolim novo que recebi num aniversário das mãos da minha amada, posso comemorar a eternidade do ser e dos coros delestiais que, trinando, acompanha a voz inteira o bandolimm que me chegou vindo da escuridão do passado.

Tive a sorte de encontrar, esquecido, na livraria que nos faz nunca perder a esperança, o método instantâneo e sem mestre para bem cavalgar toda a sela do bandolim e que diz estar ao alcance de todas as inteligências mas do que não tenho assim tantas certezas. Eu nunca teria a mestria e inspiração do meu tio nem do Jacob do bandolim, mas nunca mais os perdi de vista.

Se o tio Armando cá estivesse cantaria com a voz do seu e agora meu bandolim as melodias do tempo, tangindo com suas mãos calejadas da vida as cordas que viveriam com a força da sua alma, o sopro que sobe das entranhas e emerge para o espaço livre do mundo.

De qualquer forma, os estreitos degraus da escada da loja, apenas com a largura de um cadafalso certo para uma extição inevitável da sua vida na ponta de uma corda qualquer, transformar-se-iam nas cordas que, duas a duas num oceano de oito, trariam ao espaço os reflexos de almas dum tempo sem tempo.

Esses, são os meus bandolins que não posso tratar por tu, ainda.