Havia em Campo d'Ourique um homem que não gostava de fotografias. Encontrava-o sempre, passeando pela calçada com o seu lobo de alsácia, entre o Santo Condestável e a esquina outrora lar de cinema com nome de continente por sinal moribundo no momento em que vos escrevo.
O cachorro, maneira de dizer, que tinha um porte altivo e garboso, dáva-se ao respeito espantando todos quantos por si passavam - e os que atravessam o empedrado para o ver apenas do outro lado - com o República preso entre as mandíbulas fortes mas elegantes, sempre lado a lado com o dono. Nem um passo adiante, nem um passo atrás e isto todos os dias anos a fio, o homem-que-não-gostava-de-fotografias e o seu Rebelde. Bom-dia, bom-dia e lá seguíamos aos nossos destinos. Destinos digo assim, a modo de não convencido, que isto de ir com destino ao nosso destino tem mais do que se lhe diga ou possa sequer imaginar no mais enleado dos sonhos.
O Rebelde, que imitava todos os gestos do dono - todos quantos a existência de cão lhe permitia - é, ainda hoje, o mais dócil dos cães lá do bairro. Ao vento do outono, solto e brilhante sob o sol dos verões, o Rebelde era o orgulho entre os adeptos do C.A.C.O. e o mais saudado dos convivas quando se apresentava, sempre com o dono e conduzindo-o com delicado cuidado.
Conhecido pelo Africano, do dono do Rebelde sabia-se que nascera numa aldeia, naquele tempo remota e muito para lá onde o suposto traidor teria perdido as botas, pelo sopé dos montes Hermínios. Um dia não se nota a diferença, dois ou três estalam que nem um relâmpago, um mês é passado distante e dei finalmente pela falta de ambos.
O Rebelde, hoje triste, sujo, uma sombra do lobo que foi, passeia-se ainda assim dócil mas desesperado de solidão pela calçada fria que conhece de cor, mas do Africano não mais ouvi falar mas ouvi dizer que desaparecera. As pessoas vão desaparecendo. Das que conheci, esfumaram-se umas hoje, outras por acolá, todas para além do pano fundo pintado de tinta esfumada que apenas consigo ver, desfocado.
O Africano tirava fotografias que a máquina registava e que ele nunca chegaria a ver. Tirava-as, sem parar, com a sua instamatic vinte-e-cinco de duas velocidades, daquelas que tinham o rolo em formato de cassete preta e que ganhara no longíquo Natal de setenta e poucos numa rifa que tirara no clube, com vontade mas sem fé. Foi a primeira vez que tinha tido sorte, teve-a ele e tive-a eu, que só assim fiquei a conhecer quem ele foi.
Tirava fotografias apontando ao som das coisas, dos pássaros e da brisa que agitava as árvores, tirava fotografias que só ele via na sua imaginação colorida e que hoje me mostraram a porta da sua alma, mas não gostava que lhe congelassem o olhar em pedaços de papel. Fazendo perguntas fiquei a saber que vivia numa apertada e fria água-furtada, ali mais abaixo para os lados de Santa Isabel, num prédio exíguo como exígua a escada que me levou à beira do seu mundo.
A senhoria ainda me deixou entrar por breves instantes, que a casa estava a ser esvaziada do espírito que lhe restava, mostrando-me uma velha arca, das que exitiram num tempo em que as arcas guardavam toda a vida de quem lhes confiava a vida toda, como o dono do Rebelde.
Encontrei cartas, fotografias ainda de um tempo mais antigo, recados em papel pardo de mercearia. O Africano tinha fabricado sonhos na África de outro tempo e desse império tinham sobrado dias de amargura, tendo voltado aqui mas para não voltar à sua aldeia, que vi emoldurada no fundo do tesouro. Libertei-a do pó da memória levando-a à luz breve que iluminava o espaço, coada pelo vidro sujo da janela e dela vi levantar-se um esfumado cor da pura cor que me disse onde devia procurá-lo.
Visitei-o em Nabainhos e dos que tinham partido todos se lembraram dele.