segunda-feira, 13 de outubro de 2008

Castelo de cartas.

A emergir na linha de defesa das batalhas de conquista de territórios da dimensão infinita da minha infância, o castelo de cartas configurava-se como a mais recente construção a dominar.
Depois que a avó veio viver conosco, foi todo um mundo novo de jogos antigos com que me encontava nas longas e sempre instantâneas tardes de glória, depois da escola e até muito depois de se pôr o sol.

A avó, já o tempo lhe pesava sobre os ombros e lhe soprava a luz dos seus bonitos olhos azuis, comandava os regimentos que marchavam em conquista pelo mapa estendido em cima da mesa. E lá estava eu, perfilado, encantado com o seu comando, irrequieto dentro do fardamento imaginário. Vamos a eles.
Construímos castelos, cidadelas, impérios. Tão altos os fizemos, tantas cartas recolhemos do chão e vezes sem conta. Fizemos-los cada vez mais fortes, o comandante nunca permitiu que fizessemos alto.

Jogo do burro, teimosia, aprendi a subir a pulso os alambores escorregadios da vontade num jogo de faz-de-conta, qual escorrega invisível de mundo em declínio. Jogo de vida e de morte, de queda certa e de sorte incerta.

Figura de Escher, a minha vida é hoje um bater de coração à espera de surpresas da vida, um passeio de mãos dadas com as flores do meu jardim. Este lado do mundo é bonito.

Do outro lado vejo o pouco que a fresta deixa passar mas não a compreendo a partir daqui, ainda é cedo, vem longe o tempo. E é daqui que vou partir.

A avó tinha-me ensinado a resistir às derrocadas dos castelos de cartas.