quinta-feira, 23 de outubro de 2008

O cobrador.

Fui astronauta, fui mergulhador, também fui electricista, num tempo em que ser o personagem de uma história bizarra era o tema principal da conversa apressada entre os putos lá da rua, qualquer que ela fosse.

Um dia fui gatuno de verdade e não escapei sem castigo, justo como um castigo justo deve ser. Num outro também fui bombeiro imaginário de um incêndio que haveria de lavrar noutra rua, anos mais tarde ali para os lados onde nasci, umas ruas mais abaixo logo depois do Chiado. Mas aos cinco anos o que eu gostava mesmo era de ser cobrador.

Cobrador dos que existiam no tempo em se passeavam pelo autocarro ao ritmo das curvas, lá da frente até lá ao fundo, ida e volta sem parar, fazendo tilintar a malinha das moedas e distribuindo bilhetes coloridos aos felizardos que se dirigiam de encontro às surpresas, boas e más, de mil encontros. Era o que aquele cobrador achava, mas ele apenas fazia a carreira número cinco.

Tantos que coleccionei, uma miríade de quadradinhos azuis, amarelos, encarnados, de todas as cores dos destinos possíveis que a minha carreira desenhava; enxameariam o chão da nossa cozinha e o resto da casa, para desespero da minha mãe. Cidade-a-cima, cidade-a-baixo, viagens repetidas até à conversa que haveria de mudar o destino do cobrador que aquele cobrador tinha sonhado ser.

Levei velhotas ao hospital velho, que o novo nasceria quase uma eternidade depois, bilhete encarnado, dois tostões se faz favor. Viajei a todas as partes que sabia e a outras tantas no momento inventadas, bilhete amarelo e mais umas caricas de gasosa BB no seu papel de moedas reluzentes.

Mas com a dona Ermelinda era diferente, ia até perto do talho e aí sim, aí a deixava que ela sofria e caminhar, mesmo que pouco, era sempre um valente esforço nos seus oitentas e qualquer coisa já nesse tempo. Não lhe cobrava bilhete.

Nunca mais vi a dona Ermelinda, mas lembro-me do valente choque eléctrico que apanhei no fio do candeiro que ela tinha na sua sala e no qual tive que mexer apenas porque sim, numa tarde em que, por uma qualquer razão, a minha mãe me levou consigo na breve visita que lhe fez. Caramba. Se a carreira tivesse saído nessa tarde não tinha apanhado aquele choque. Mas não saiu e ainda me lembro do esticão.

Para compensação contar-me-ia a verdade. O que a verdade me doeu, porque a verdade tem esse condão. Tanta esperança e agora aquilo.

Não é que a minha mãe me dizia, com a sua paciência infinita e um jeito que só ela, que as moedas não eram dos senhores cobradores, que afinal pertenciam a uma tal de empresa, que no fim do dia o autocarro ia para a garagem e o senhor lá deixava cheia a sua malinha e que no outro dia, isso sim, lá começava tudo de novo, agora com a maldita malinha vazia. Que balde água fria. Podia lá ser, que injustiça.

E assim descobri como funcionava o mundo no mundo prático das coisas do mundo de todos os dias, como só as mães sabem ensinar aos filhos.

As aparências iludem neste jogo de sedução e de so(m)bras e terminava a carreira do cobrador da carreira número cinco.