quarta-feira, 8 de outubro de 2008

A gaiola de arame.

Em minha casa havia uma gaiola de arame, uma daquelas que se compravam nas feiras. Sim, daquelas em que o arame fica áspero e a madeira encardida em pouco tempo, pelo que a gaiola rapidamente ganhou um ar de masmorra.

Lembro-me do puto que eu fui a olhar horas sem descanso para o passaroco que por ali habitava. Ele, um pintasilgo lindo de esguias guias amarelas e cabeça encarnada, crescera ali, ali fora criado à pipeta. Lembro-me, como se fosse hoje, da sua mãe a rejeitá-lo, a minha que o recolhia e lhe dava micro-doses de papa amassada de miolo de pão e água. Que bonito. O bonito bicharoco parecia sorrir agradecendo com um leve piar de encanto lá no canto do seu ninho improvisado no copo do meu iogurte natural Lisboa.

Num belo dia de irreverente aborrecimento de tanto olhar tanta quietude na gaiola, agora em cima da mesa na nossa cozinha, abri-lhe a porta facilitando a liberdade que ao miúdo parecia fazer falta. Miúdo e pássaro nas suas respectivas gaiolas, num tempo que não existe nem mais existirá no tempo do futuro.

Tantas voltas deu no infinito espaço, na infindável trajectória errática desenhada no perfume que da panela saia pelo meio-dia do domingo em que nela quase mergulhou irremediavelmente. Mas não, quase sempre nos salvamos no último instante, levados pela leve brisa soprada do outro lado do espaço para nossa felicidade, no lado de cá do momento.

Um dia pela manhã, ao acordar, ouvi o barulho do ar vazio e frio porque o pássaro já lá não estava. Tinha rumado ao seu destino e fiquei triste por não o voltar a ver, mas feliz por sabê-lo a voar porque me ensinaram a não gostar de gaiolas.

Como gosto da liberdade gostava de saber voar.