Enquanto a mãe terminava o nosso almoço e o belo arroz doce da nossa predilecção, saíamos os dois a caminho da nossa aventura das manhã de domingo.
Para um miúdo de quatro anos tudo é aventura, ainda por cima pela mão do pai, pelo que a daquele domingo ficaria para sempre, soube isso hoje.
Passados pelos quiosque da praça da renovação que viria a chamar-se de outra forma e revigorados um com a sua bica escaldada e outro com a sua bola de berlim, com bê pequeno porque a daquela cidade nada têm que ver com estas, lá subíamos aos paços velhos.
Quando dávamos conta ali estava, à nossa beira, o coreto e a velha árvore de retorcidas raizes centenárias à sobra da qual tantas felicidades tiveram lugar e outra tantas se imaginaram.
O coreto lá está de pé, bonito, à espera das bandas, incríveis, que por lá nunca mais vi mas que sei existirem; da árvore sobra a memória da sombra que estendia a São Tiago, ali ao lado.
O meu pai sentava-se com o seu jornal, virado de frente para a sua e nossa cidade, lá no alto da varanda do miradouro – nome estranho tratando-se do Tejo – que nos oferecia o espelho da vida da capital lá longe, buliciosa e tão bela.
O pai ainda podia ler as notícias, que noutros domingos não mais pôde ler e eu corria e saltava, fazia chicanes que só não eram intermináveis porque lá me espalhava na calçada, terminando a minha meteórica carreira de piloto de fórmula um com uns quantos pensos rápidos alinhados nos joelhos, o que, de resto, até tinha a sua graça.
Encontrei-o esta manhã a ler as nossa notícias, o meu pai sorriu-me; vi-me a correr todo o recinto e ficámos juntos em todas as fotografias.
E a sombra do jornal diluiu-se, fundindo-se com os brilhos das luzes que vinham do outro lado do rio, porque a luz não pára de iluminar-nos, do outro lado do rio.