Liberta da luva asfixiante que lhe estrangulava a alma, naquela manhã pude voltar a vê-la da varanda do miradouro enquanto procurava o vazio no rio de tantas travessias, sempre presente.
Não vos tinha contado ainda, mas estou seguro que, como eu, ficariam felizes por ver flutuar ao longe e tão perto aquela borboleta colorida, ave do paraiso, reflectida nas águas levemente onduladas do Tejo. Onduladas como foram os seus cabelos cheios de jeitos, penteados à vontade do vento na amurada do cacilheiro.
Soltas as grossas amarras, afastando-se primeiro lentamente e depois bem depressa da amarração, parte para mais uma viagem e outra ainda, espera-se pelo devir e pelo dia seguinte, pelo seguinte olhar, pelo próximo tocar de mãos, ao de leve, leve como a brisa que sopra dos lados de levante.
Amanhã posso esperar por si? E lá estava à sua espera como quem espera pela salvação de uma vida, trazida para bordo. No dia seguinte e em todos os que a esse se seguiram, até que dois se tornaram apenas num, antes de sermos três.
E lá na outra margem está hoje, pacientemente, à sua espera. Até ao infinito.