Naquela tarde, bem ao lusco-fusco do final da luz que o outono nos deixava de prenda pela hora do jantar, avistei o meu pai lá do alto da janela do meu quarto.
Com o seu passo acelerado, o calcar nervoso na calçada lá da rua, lá vinha, apressado e com o Lisboa debaixo do braço, a caminho do nosso abraço. De baixo do braço vinha também aquele que se tornaria o meu novo amigo do peito: o meu novo livro de aviões. De aviões, imagine-se. Aviões!
Lá no alto, o mais parecido com os pássaros, os aviões que levantavam da Portela rumo a distantes paragens de imaginadas aventuras que o metro-e-meio que fui imaginava de todas as cores, como as bandeiras desses destinos das mil-e-uma histórias dos aventureiros tirados dos livros com que me deixava adormecer em todas as noites de conquista de novas paragens.
O meu livro de aviões. Tantas folhas! Tantos momentos de suspense nas infindáveis descolagens no cockpit imaginado da mais possante das aeronaves, concretizado na bandeja das bolachas e na bomba de desentupir canos como manche que, passado vê-dois, me elevava nos céus de todo o mundo desconhecido.
Anos depois, ainda me lembro das tardes dos dias que se seguiram e do tempo ínfimo em que as páginas ainda se mantiveram unidas. O voo não podia parar, o vento soprava dos beirais e o livro converteu-se no aeroporto babilónico de uma nova conquista do mundo feita aviões de papel pelo céu infinito entre o nosso terceiro andar e as florestas dos quintais da vizinhança. Tanto voos, tanta ilusão, tanta felicidade.
Fiquei amigo dos aviões e dos livros; uns levavam pelos ares a minha felicidade, os outros de encontro ao meu destino.
De uma vez, o meu pai mostrou-me o mundo visto dos céus e um universo de amigos que não podia encontrar na rua.