Naquela manhã daquela primavera mais brilhante que eu sei lá, nasci no futuro. Sim, o futuro e a dois degraus apenas de distância. Dois degraus levaram-me nessa manhã fresca a um mundo de fantasia novo. Ainda lá está, trinta e tantos anos depois.
Na manhã fresca ainda tivémos tempo de dar um saltinho ali à Primorosa onde o meu pai tinha um dia conhecido Gago Coutinho, ali mesmo ao lado da farmácia Frazão. No tempo do três-vintes, pedimos a bica do meu pai e a minha larajina-C. Todos partiram.
As legiões de soldadinhos de arfix alinhavam-se prontas para o primeiro combate das suas existências, as hostes de hulks esverdeados perfiladas para batalhas decisivas, os legos reluzentes nas suas caixas coloridas diziam à imaginação dos míudos como seria a próxima realidade delirante; as caixas dos legos.
O pensamento já não soltava das amarras sólidas do chamado colorido daquelas caixas, trampolins para as batalhas do tempo lá adiante de voos picados e razantes.
Foi o dia do meu lego grande. O meu primeiro e inesquecível lego grande.
Fui mestre de cacilheiros reluzentes, piloto de bólides estrondosamente velozes, capitão de frontas astrais por universos longínquos. Todos os autocarros do lugar, todas as aventuras pelas ruas, todas as visitas a primas, primos e tios, todas as travessias do rio tiveram direito a uma materialização no teatro novo que o meu inesquecível amigo era agora.
Continuo a gostar de juntar as peças do lego da vida, o teatro ainda cá está para representar o papel do teatro transitório e aqueles degraus fizeram toda a diferença.
O meu pai tinha-me mostrado o mundo.