Hoje gostava de vos falar do circo. Eu gosto muito de circo. Em miúdo aprendi com a minha mãe que o mundo do circo é realmente belo.
Em tardes de domingo solarengas visitava o circo na feira que então acontecia lá perto de casa; cheirava mal mas, de tão bonito, preenchia de alegria, suspense e excitação o imaginário de um miúdo traquinóide, como era o miúdo que eu fui, num tempo em que a televisão ainda vinha longe na carruagem do tempo que tarde chagaria à estação onde eu ficava horas a olhar o infinito e a fazer desenhos toscos.
Treinei bem para palhaço pobre. Sabias que o palhaço pobre é o mais rico de todos? Pelo menos em alegria. E não é coisa de pouca monta. Eu era um miúdo alegre. O miúdo que eu era foi muito feliz.
Um dia dei conta, vê bem, que no circo também havia feras. Feras é mais perigoso que bichos. Bichos são bichos; são gatos, são cães. Pois, pássaros não são bichos, são aves, seres de liberdade sublime.
As feras são bonitas. As feras da natureza são bonitas. Prenderam as feras e elas ficaram bravas e começaram a fazer maldades, porque as tinham presas. Às vezes as feras comiam. Depois, passava algum tempo sem que, com o circo já desbotado, dessem de comer às feras. Elas não eram más. Mas passaram a ter muita fome.
Houve um dia em que se fartaram e fugiram. Disseram-me depois, lá na rua, que tinham visto as feras a fugir silenciosamente primeiro, depois com urros tais que todos os miúdos lá dos pátios ali à volta correram a esconder-se em casa. As feras hoje estão por todo o lado; elas eram bonitas mas de tanto sofrer são hoje como são hoje. E os miúdos que me tinham dito, estão hoje assustados com medo de que as feras lhes façam mal.
O circo bonito ainda existe, nalgum lugar. Um lugar assim vive no pensamento, eternamente e hoje, do miúdo que fui, sobra o miúdo que sou, que vive fora do circo porque o tempo do circo feliz acabou.
A minha mãe já não pode levar-me ao circo.