segunda-feira, 20 de outubro de 2008

Letras na areia.

Foi a minha mãe que me ensinou as primeiras letras. E isto por uma simples razão: o calendário. Naquela altura, os miúdos nascidos em Outubro e ainda com seis anos não podiam, por regra, ingressar na escola primária. Isto que parece hoje - e é, de facto - completamente deslocado da realidade, tinha um preço alto a pagar. Demasiadamente elevado.

Na nossa terra de então as possibilidades de frequentar a escola antes da escola eram remotas demais para nós e o preço daquela frustração pagava-se esperando todo um interminável ano inteiro após o que, aí sim, as portas da escola se abririam de par-em-par, franqueando-se aos excluídos do ano anterior o acesso ao bê-á-bá oficial, a partir daí sentados naquelas carteiras de pau duras que se fartava. Era assim, nada mais do que assim. E pronto.

E foi deste modo, náufrago da escola depois do batel que traria a esperança de novas aventuras, de fantásticas letras e de infinitos números ter ido a pique, que cheguei à minha praia. E lá encontrei, como sempre, sob um sol ameno, a minha primeira professora de muitas lições da vida.

Que paciência infinita ensinando-me o desenho preciso das minúsculas e o decalque das maiúsculas como se de um treino para artífice da rua da prata se tratasse. Desenhei tantas páginas com éfes-de-faquinha, com ís-de-pintinha e com zês-de-zorro que provavelmente dariam para fiar um enorme rosário.
E assim, de uma só vez, aprendi também a contagem com os números que, inteiros, me levavam do primeiro ao infinito na contagem dos cadernos da família pituxa que ia devorando, um após outro à cadência de fiadas de ditados, cópias e contas.

E quando demos conta, tinha passado o ano, eu tinha passado ao próximo nível do jogo, a minha mãe sobrevivia ao embate. Eu já sabia escrever, ler e contar e lá ia, inchado que nem um sapo ao amazonas, a caminho da escola oficial com a mala nova pintada com o pélé, o pico-pico e o zé.

Um ano passou, passou outro e tantos passaram, porque os dias passam devagar e os anos a correr, já alguém disse. Ainda bem que pudémos escrever muitas páginas com as letras que a minha mãe me ensinou. Escreveríamos uma enciclopédia de dificuldades, alegrias e felicidades.

Também ele de ritmo imparável, o ourives do tempo teceu de prata os seus cabelos, como de prata é o mar que reflete a luz das estrelas, levando da areia as letras das suas e nossas memórias ao ritmo dos dias que passam, rapidamente, rumo ao mar maior.

E é assim, até nada sobrar escrito nas folhas do caderno, de novo em branco, que continuaremos a escrever até ao outro lado do mar.