Hoje senti o cansaço da vida. Senti-o tão forte que doi de pensar na impotência que me paraliza quando penso na vontade que me sobra, mas solucionar o caso é magia muito além.
O que eu gostava mesmo era de vos contar hoje uma história alegre, do tipo das que se recordam quando pensamos nos baloiços, nos escorregas e nos cavalinhos dos jardins de outro tempo, do tempo em que o tempo sobrava e o cansaço nem existia na paleta de cores, jardins do tempo em que o tempo se escoava em câmara lenta dentro da clepsidra com a areia escrita com recentes aventuras.
O navio sobrevive a custo, rangendo o madeirame, apenas unido pela força que o fez juntar, encalhado num mar de baixios, continua ao sabor da maré a marcar o ritmo de um tempo excêntrico com os cabos esgaçados, uns e frouxos, outros, na amarração que a vida lhe destinou.
E assim vamos baloiçando nesse mar incerto, escorregando pelas ondas alterosas que o destino, soprando, vai lançando contra a amurada, vagas para cavalgarmos com o nosso cavalinho de madeira de sempre, como se de outra aventura se tratasse.
Vejo ao longe a ampulheta numa mão mas recusar-me-ei sempre a conceder o ponto à foice que, ligeira, pretende fazer-se visível na outra. Vejo que o transitório acelera de forma nada linear mas nada quero ter a ver com isso enquanto fôr deste mundo.
Qualquer dia conto-vos uma história feliz.