O expresso partia ao meio-dia, saímos já atrasados.
Era um tempo em que o tempo que ia daquele meio-dia ao destino das nossas férias demorava tempo que se fartava. Curvas e outras tantas, paragens intermináveis, faziam infindável a jornada a caminho do nosso verão azul. E o céu era então tão azul.
Lá chegávamos ao final do dia, carregados de aventuras mentais que havíamos desenhado no nosso imaginário e que desenrolaríamos no mês que chegava para nos fazer companhia.
Anos depois ainda a vi a um canto do sobrado, ferrugenta, mas naquela manhã aquela bicicleta reluzia, encarnada, ao sol que já escaldava lá pela planície a sul.
E lá partímos os três nessa mesmíssima pasteleira para a corrida que começava no adro e terminou no valente trambolhão presidido pela igreja lá ao cimo e acolitado pelos divertidos velhotes que, à porta do valente, lembravam assim a sua (e agora nossa) meninice passada.
Correríamos vidas separadas depois daquele ensaio juntos e haveria quem não viesse a levantar-se das muitas quedas no futuro. Mas não o sabíamos ainda.
Não voltámos a correr rua abaixo, cada um faria a sua corrida solitária no meio da multidão. Aquele verão não voltaria e o velho Chanquete também já partiu.