quinta-feira, 9 de outubro de 2008

Balão azul e farturas.

Naquela tarde de domingo solarenga de final de verão desci, inchado de orgulho e pela mão da minha mãe, a alameda das barracas de farturas e algodão doce da feira. Tinha ansiado e sonhado esse passeio maravilhoso durante toda a manhã, de tal forma que nem outra qualquer coisa fora suficiente para acalmar o meia-léca.
A miríade de luzes coloridas haveriam ainda de voltar a acender-se, recobravam agora do esfoço da noite longa da véspera.

Era dia de São Felizardo. Para mim e para a imensa multidão ruidosa de miniaturas de gente em volta do homem dos moinhos de papel, da tenda dos tirinhos, da mulher dos bonecos de loiça.

Já lambuzado, empunhava a fartura como espada afiada ávido do combate imaginário e imaginado contra os invasores azuis, infinitamente maiores que os estrunfes, que ondulavam em cardume nas mãos do senhor dos óculos grossos que ganhava a vida com as moedas das mães, distribuindo em troca felicidade à catraiada. Nunca fui à bola com os estrunfes mas escolhi o balão azul.

Sempre fui um miúdo metido comigo mesmo. Eventualmente demasiado, mas as coisas são como são e isso tinha fortes desvantagens para mim. Não sendo um gordo mas sem conseguir fugir ao estatuto de muito bom candidato, os outros miúdos, que por sinal até gostavam bastante de jogar à bola, podiam eleger com relativa facilidade o seu alvo a abater. A chatice é que lá na minha rua não era habitual não gostar de jogar à bola e a feira era infinitamente mais sexy para um miúdo de cinco anos.

A curiosidade pelas coisas da feira, dos combates e das corridas era maleita que não se curava com um gargarejo qualquer de porta-te bem, uma aplicação tópica de está-lá-quieto ou mesmo uns pinguinhos de assim-não-se-faz. E ainda bem.

Com a feira ainda me encontro, das farturas terei a doce memória por muito tempo, para lá do tempo para onde envio esta carta.

Tinha começado o outono.
Já não posso descer a alameda das farturas e o balão azul voou para sempre.