sexta-feira, 17 de outubro de 2008

Até logo.

Nem em gaiato gostava de dizer adeus.
Parecia-me que o tempo não poderia acabar em tempo algum, pelo que estragar o tempo disponível, sempre pouco e em despedidas fúteis, era luxo que não podíamos oferecer-nos e adiavamos, assim, a inevitabilidade do adeus irreversível.


E foi assim por tanto tempo, até que o tempo inevitável chegou por fim, para assim lhe pôr fim. Longo até sempre, largo sofrimento, visto da minha janela escancarada para entender, sem nada perceber.

Conversámos nesse tempo eterno para recuperar o tempo perdido e o que não viríamos a ter, minutos para sempre escritos a preto na memória e tão breves na longa duração da dor. De ambos.

Havia anos que o pai estava confinado ao seu espaço, numa eterna encenação onde apenas a ele esteve reservado o papel de ver para lá de ver, antes de ver absolutamente.

Foi duro, como o seu próprio carácter, mas nunca desistindo, jamais quebrando, chama intensa, farol do Bugio, onde em miúdo chegava a vau com a maralha do seu tempo num tempo tão diferente do tempo de hoje.

Naquele Junho o espaço do pai voltava a encolher, num rude golpe, para o confinar a si próprio e aos sons que lhe chegavam da rua, da música que amava e que fiz ouvir num desespero intransponível, do zumbir das pás da ventoínha que atenuavam o calor insuportável daquele seu derradeiro verão conosco.

Era isto a inevitabilidade do adeus inadiável. Dissémos até logo e pelo final dessa tarde naquele Outubro já não existia dor e estávamos a caminho do nosso Bugio.

Até logo, meu pai.