quarta-feira, 15 de outubro de 2008

Cromos do Vicky pelas missangas.

Naquela tarde de um dia do verão quente daquele ano, emudeceu de espanto o meu pai ao chegar a casa.

Eu, corado que nem um perú do Natal ainda distante à conta da corrida empenhada em que nos esforçámos em força lá na rua durante horas, deambulava decorado com uma pulseira de missangas com tantas voltas que forçosamente me fazia enganar na contagem. Das voltas e das missangas.

Ainda me lembro dos longos fios de pedrinhas de uma miríade de cores que um dia, depois do negócio, fiz espalhar, por acidente planeado, pelo chão lá em casa.

Não podia ser, uma coisa daquelas era simplesmente impossível. De pequeno se torce o pepino, que o dito popular sempre teve o seu fundo e o hábito faz o monge. Ná! Nada de pulseiras e ademais de missangas. Missangas, imagine-se.

Pois que a coisa a frio nunca funcionou em tempo algum com garoto algum desde que o mundo é mundo e disso o meu pai sabia, da natureza humana. E vá de propôr uma negociaçãozinha a ver se o catraio agarrava a ideia e se se resolvia a bem a coisa e de uma vez. Missangas!

Vinte carteiras de cromos do vicky por uma pulseira mesclada de missangas, que por acaso até era bem gira. Missão afinal dificil. Hey, hey, Vicky! Hey, Vicky, hey!

Se os cromos representavam o elan supremo dos bonecos do momento, num tempo em que os quadradinhos coloridos se colavam com cola feita com papas de farinha, a bela da pulseira representava a irreverência tentada em território movediço.

A coisa acabou por fazer-se com vinte e cinco carteiras de cromos, que guardo ainda religiosamente, brilhantes e lindos, desfilando na sua caderneta perfilados. Eternamente.

O meu pai ensinava-me uma arte a cada passo mais rara, negociar a cada passo a sobrevivência da vida, com o valor do nós solidário infinitamente mais forte do que o eu solitário.
Obrigado, pai, (e)ternamente.