Segunda-feira, já o lusco-fusco húmido do fim de tarde amolecia o Chiado enquanto, em principio de semana e lá fora vistos da janela, se recolhiam a casa os obreiros das semanas que, alinhadas, se irmanavam no calendário quase esgotado desse ano.
Mas aquela não seria uma semana qualquer. Eu chegava do lado de lá a tempo, esgueirando-me pela magra frincha da porta que teimava em manter-se assim, segura de não querer ceder ao seu próprio capricho. Mas nascia, a tempo de assitir à missa de todos os santos na igreja da misericórdia, ali ao lado.
Medido na escala de tempo do tempo pelo qual agora acerto o relógio e marco-passo, fazia tanto tempo que estava fora que voltar à cena, ao borburinho que antecede o subir do pano e ao nervoso miudinho da estreia, era a mais fantástica aventura do último milénio. E os (meus) Supremes lançavam The hapenning.
Suponho - e hoje calculo melhor - que por aqueles dias de noites mal dormidas e de horas atrasadas para estar onde fazia falta, apenas a felicidade de uma nova vida para uma vida renovada, renascida, enfeitiçava os corpos cansados e as almas inquietas, alimentando-lhes de esperança a esperança na nova vida, de todos. E caminhavam.
Seria duro o caminho, como é sempre íngreme a colina do nascer. Assim foi na colina dos mártires noutro tempo, há muito tempo e agora também acontecia assim.
Mas bem colado com o fundo do palco, na terceira ordem fazia eco o sorver sôfrego do primeiro ar, a pleno pulmão, ecoando acordes desafinados de choro com poema de rima em felicidade, com São Francisco como anfitrião e coros celestiais.
A nossa colina tornar-se-ia bem ingreme, de uma calçada escorregadia de pedra grada sob o aguaceiro de lágrimas e de suor que nos estiveram reservados. Mas por fim a luz mostrou-se, como se mostra sempre, por detrás do negrume de um céu baixo que se esfumou aos poucos deixando espaço para o céu claro de luz radiante e bela, deixando ver, por fim, os coros que naquele dia fizeram questão em cantar à nova vida que encarnava.
O pano subia, depois da terceira ordem a contar do fundo do palco.