Era uma vez há tanto tempo, num tempo em que a todos os que conheço vivos não tinham ainda sido dadas as deixas que diriam nas suas cenas desta récita breve. Nesse tempo passava-se em Lisboa um tempo diferente do tempo escasso que faz hoje e havia tempo para dois, ou mesmo três, dedos de conversa na mantegaria ou com o odreiro ou com o tanoeiro. Ou mesmo com todos eles numa mesma ida à praça da figueira.
Dizem-me que hoje, seja isso do que se trate, não há tempo e que, portanto, não há tempo a perder. Vejo daqui que segue o carrossel com os cavalinhos relinxantes, os burros teimosos que nem burros em pleno acto de teimosia e os leões que já eram assutadores quando rugiam nos filmes da éme-gê-éme. E também há serpentes e lacraus.
Não pude voltar à praça no eléctrico do poço do bispo, mas ele ainda lá vai, o coitado que nem bispo nem acólitos nem fregueses pode transportar porque já não há por ali a vida que conhecíamos para vender; vendem-se outras ilusões e algumas não são bonitas de se ver.
Seria numa manhã sibilina dos idos de quarenta que tudo terminava, lembro hoje o que me custou então, passava na rua dos condes a fita "E tudo o vento levou". Praça, pessoas, vida, dando lugar à praça sem vida e sem pessoas, porque a gente que lá passa hoje tanto se parece com máquinas disfarçadas sob o efeito de uma hipnose tresloucada e as que se demoram mais um pouco nada têm para ver para além de um cenário adornado de restos de série-bê, passeios sujos e fantasmas sem casa.
A figueira consumiu-se no fogo de uma homenagem equestre sem alma e a graça de praça viva de ferro forjada não pôde mais ver a luz do dia amontoada que a puseram num qualquer ferro velho, para venda à tonelada.
Qual feitiço ruím e incortornável, a roda de engeitados na esquina a sul ditava à praça a desditosa sina de quem ia afogar mágoas numa tasca reles, ao borratém.
Mas ainda posso lá voltar em espírito e ouvir os pregões das raparigas, sempre que quiser.