Naquele ano fazia já meses que se falava não de outra coisa ao longo das semanas se não na estreia do crime no palácio do duque, e isto dias a fio pelos cafés de toda a lisboa. Lembro-me de, no grande dia e a caminho de casa do tio albuquerque mello, à rua nova dos mártires, pararmos com o pai e a mãe para a bica costumeira na ferrari, que havia de ser pasto para labaredas num dia de tempo mais à frente na régua do tempo, a caminho do chiado terrasse.
A sala fim de século brilhava de nova, iluminada de eléctrico e animada pela orquestra que, antes do rugir do leão - o da fita e não o da estrela, que esse entraria noutra fita - dava com os primeiros acordes em ritmo jazz um tom de felicidade à esplanada do animatógrafo.
Passariam por nós acelerados carlos e ega animados que, descendo da tipoia vindos do número dezoito do paço dos maias, acenavam à luisa que os esperava à porta lá ao fundo, elegante como sempre, e com as novidades frescas que trazia do ermitage e das terras de catarina, em são petersburgo, onde cantara como ninguém e todos a queriam ouvir uma e outra vez.
O pai deixou-me fazer de conta ser grande, mas a bilheteira de tão alta exigiu-me um bailado contorcionista em bicos de pés com as botas ortopédicas, um tanto ou quanto esfoladas, frente ao guichet defronte do qual, de esguelha e com os caracóis negros sobre os olhos, exibi três dedos. Rimos todos, elas avançaram, eles olharam as sedas pastel com que se fizeram passear nessa soirée. Eu, com três bilhetes numa mão e uma limonada meio entornada na outra, deslizava feliz coxia abaixo.
Fila agá, cadeiras ímpares, nós, eles nas pares. E logo os lampiões ouro e azul fizeram a sua noite que assim se juntava à noite azul estrelada da esplanada e o filme começava.
Na tela e num tempo que hoje sei que se passou no futuro, descia a rua do tesouro velho um chrisler impala limousine novo em folha que, logo a seguir ao teatro de são luiz, parava dele saindo um homem de porte jovem e entroncado que se dirigiu ao prédio defronte do palácio do duque que no filme já não lhe pertencia, nem hoje, e onde funcionava uma oficina sinistra de dobragem de pessoas.
A mensagem destinava-se à embaixatriz e, em tom frio, que não precisava de ficar tão preocupada com o que tinha visto porque afinal a pessoa não passava de um qualquer sem importância. Nem mais, nem menos.
Nunca esqueceríamos a cena, eu ainda miúdo e a destinatária da carta que nunca tal visto no seu filme e que, lívida, se dirigiu ao cardeal incrédula com o que presenciou apenas por uma fresta estreita. Na penumbra indistintos e a coberto de uma lei fora da lei, dois talvez três, empurravam um homem do terceiro andar abaixo estatelando-se no chão do pátio lá em baixo, que sucumbia à violência daquela gente que o torturou, descalço e por horas, pingo a pingo de água fria até mais nada de si sobrar, nem vontade para não ser.
A viatura seguiria depois para a patriarcal, mais abaixo duas ruas, à boa-hora e comentámos à saída que nunca se passaria nada parecido em lisboa porque não éramos assim em portugal. Enganámo-nos.