Pelas cinco da tarde o vapor saint michel aportava ao cais da ribeira e os dois, jules e o tio, apertavam-se com um daqueles abraços de levantar os mares qual sopro de hidroavião dos que por esse tempo começavam já e também eles a visitar o tejo.
Dirigem-se ao hotel bragança ali à rua do ferragial de cima onde cearão e onde trocarão ideias sobre o mar, os navegantes e as descobertas de novos mundos, que de novas latitudes de mundos por descobrir tanto o galo como o luso gostavam de falar e ali tinham oportunidade de juntar passado e futuro numa conversa de longas horas noite dentro até ao clarear da manhã levantando-se dos lados do outro lado do rio.
A decisão estava tomada e não levantaria ferro, ou por outra, levantaria mas uma semana depois e inspirado pela cidade que num tempo de outro tempo viu partir lá mais abaixo, da praia de belém, os que abriram o mar e o mostraram ao mundo. Decide escrever les conquistadores de l'amérique centrale quando, pelo meio-dia do dia seguinte, o tio lhe apresenta a biblioteca da ajuda.
Os dias seguintes serão de leitura ávida, lendo quase sem dormir numa vigília incansável os tomos salvos do desastre que naquele dia de novembro varreu sem piedade o paço da ribeira. Imaginou-se a olhar o rio, naquele dia de iradas água plúmbeas.
Das janelas do segundo andar da biblioteca do paço, à ribeira, via a casa da ópera do traço de terzi e radiante de acordes barrocos, admirava as torres do paço dos corte-real, a outra margem lá ao fundo do rio e o rio lá ao fundo que naquele dia de novembro de há tanto e em tão pouco tempo vareu de uma vez, enxorrada imparável, paço e biblioteca e tudo levando para sempre o saber que ali sempre se guardou desde que o paço era ali pela mão do rei manuel.
Viu a destruição como viu a viagem à volta do mundo, e viu que ainda assim alguma coisa sobrava e muitas voltas pelo mar daria, das docas empacotados e esquecidos, ao brasil no outro lado do mar e finalmente no seu canto ao alto da ajuda, lá em cima.
Do maço de cartas que o arquivo da ajuda lhe oferecia via sair em forma de espanto o tanto que o conteúdo impossível lhe dizia. Dirigidas a seu pai fernando, salvador escrevia sobre as sortes da sua sorte, e sobre a sorte de sua mãe isabel que não voltou a ver. Verne não pôde não dizer ao tio o que descobria e ambos os queixos não podiam cair mais do que o imenso espanto. Não estavam atónitos mas absolutamente vencidos.
Os papeis velhos do tempo e novos para o mundo diziam na sua tinta negra sobre manchas húmidas tratar-se da descoberta que mudaria o mundo conhecido para sempre.
Numa, colombo relatava como conseguira iludir todos em castela recorrendo à rede de influência infalível que o rei joão montara, das sortes com que se insinuara na corte em madrid e como isabel, a usurpadora, o aceitara e que seduzira.
Noutra desvendava a cifra da fórmula criptada da sua assinatura misteriosa; noutra ainda rendia homenagem a seu avô joão gonçalves, o zarco. Assim, tão simples. Na última das cartas que dirigiu a seu pai, verne descobre que em debaixo rubricava num enlaçado
ao jeito de bordado.Fazia-se por fim luz, juntavam ambos as peças às peças que tantos lançaram e concluiram que tinham diante de si as cartas de salvador fernandes zarco.