Certa vez li num livro do autor dos miseráveis que a vida sendo curta, é tornada ainda mais curta por nós próprios sempre que desperdiçamos tempo, mas adiante porque não quero alinhar no pelotão dos que gastando-o mal tanto se queixam da velocidade com que o perdem.
A coisa estava dita mais uma menos assim, que a minha memória já me vai pregando uma partidas, por vezes breves, de outras mais intensas dando uma perspectiva que desejo ainda longe de verosímil do que será viver num tempo sem memória ou, ainda pior, num tempo que de não haja memória.
E assim, e porque recentemente tinha voltado a tentar as travessias ribeirinhas tejo adentro até à outra margem, das quais até estava a gostar, peguei da prateleira lá em cima na estante que guarda o que vai sobrando do tempo que depressa vai passando e fiz-me ao caminho com o diário de anne frank.
Eu nunca tive a sorte de ter vontade de escrever um diário, e tenho pena, mesmo muita pena, mas tive a sorte de ter pegado naquele naquele dia, para aquela viagem curta, que mudaria a minha vida para sempre. Wilde terá dito, que isto do diz-que-disse tem também a sua bruma de mistério e incerteza mas deve ter dito mesmo, que cada um ao viajar deve fazer acompanhar-se de algo extraordinário e assim, não tendo o meu próprio diário, peguei no meu examplar do dela. E lá fui.
Aquele diário nunca deveria ter existido, mas tendo acontecido muito me enriqueceu e me fez chorar. Eu não gosto de chorar mas as lágrimas, se bem que tímidas, rolavam pela minha cara gelada contra o fresco da manhã e do fresquinho do rio, misturadas com umas quantas pingas que, metediças em seara alheia, entornaram da coberta de lona do ferry enrugando o papel.
Na sua ode à sua caneta de tinta permanente que a sua querida avó lhe oferecera num dia de anos, anne rendia homenagem aquela que poderia ter escrito tantas histórias e que, apenas porque sim, acabava em holocausto no forno da sala. A sua caneta de tinta permanente calava-se para sempre e o ferry acostava terminando a viagem por aquele tempo de holocasto.
Na vida as coisas que acontecem à vida acontecem sempre com uma razão mesmo que escondida, um propósito mesmo que sinuoso, uma vontade mesmo que invisível, numa cadência afinal harmónica qual pauta de uma partitura escrita com a força da alma e inspirada pelo maestro de uma orquestra universal com o instrumento da preferência de cada um.
Saí do barco aperando o cachecol e saltando o portaló que se entretinha a subir e a descer à cadência que a ondulação do rio lhe ditava - e visto pelas gaivotas lá em cima o rio até dava pasto a uns quantos carnerinhos de branca espuma - e fui direito ao meu destino com o livro debaixo do braço e pensando na vontade decidida do homem do leme que governa as coisas da existência a partir da estátua que nos saúda à saída do terminal em pleno cais do sodré e que ali está apenas para nos dizer isso mesmo.
Dei comigo à porta do número oitenta e dois, e dava a impressão de que lá ao fundo ainda parecia poder ouvir-se o clamor do dia em que tinham morto el-rei. Deu-me vontade de escrever, de escrever tudo, de escrever como se não houvesse amanhã, como se se acabasse hoje o papel e as árvores e a tinta toda e não pudesse voltar a fazê-lo, toda a tinta que correu, corre e correrá a contar como o mundo foi, é e será. Entrei na tabacaria do rei das canetas, que ficava logo a seguir à travessa do cotovelo como quem vem dos lados do corpo santo.
Queria muito uma caneta nova de aparo brilhante, com tinta nova, sépia que é a mais bonita, e papel por estrear para dar asas à ilusão de escrever de um mundo fraterno e de um tempo novo, lisinho e sem marcas da página anterior, como se tratasse do caderno pautado que se estreou no primeiro dia da primeira classe na escola primária de um tempo que aconteceu há tanto tempo.
E lá fui ao meu novo destino, que se calhar era o mesmo destino que estava destinado desde o tempo em que achava que não me sobrava destino nenhum, com a minha krone que ainda guardo na minha colecção e com a qual vos escrevo a contar das coisas de que me vou lembrando e que um dia, se se proporcionar, vos mostrarei.