Tínhamos ido dar uma volta ao castelo e lá descansámos sentados nas ameias a contemplar a largueza das vistas e do terreiro que já foi do paço lá em baixo, e lá ao fundo a costa; e na volta ainda demos de caminho dois dedos de conversa com o costa entretido com o ensaio da aula de guitarra que começava e, qual maçã lançada lá do alto, da graça e pelo bem formoso abaixo, antes de dar com a rua de um newton lá tomámos a esquerda para um pastel de bacalhau no perna de pau que nesse tempo era assim como que a mais aperaltada locanda da lisboa fidalga.
Naquele tempo em que ainda não se subia a avenida do almirante mas podia descer-se a de dona amélia com opção sempre aceite para umas taças de clarete sincero no retiro dos pacatos, fomos caminho da cerâmica a ver se o painel mourisco estaria já pronto, lustroso e alinhado para rumas ao seu destino de esquadria na parede à entrada do salão ensolarado e repleto de plantas de mil verdes que a tia fazia gosto em tornar felizes, elas e todos os que a viamos dar-lhes de beber.
Já com os pacotes atados com corda de sisal na mala do riley eleven verde com rodas raiadas daqueles loucos anos que lá vão ao longe mais rápidos que o vento, passámos ao largo do diogo geral do contrabando e dos descaminhos a quem as ideias faziam uma especial comichão e que hoje partilha o largo que teve um tempo em que foi apenas e só seu e que hoje partilha com as pombas que por ali saltitam de pedra em pedra da calçada gasta de tanto o ser, e lá fomos.
Deixámos para trás a igreja de anjos onde uns quantos desgraçados aos caídos - uns quase são ainda do tempo em que o regueirão por ali banhava os pés da santa outros noviços nesse calvário - se prostram à porta da sopa do matemático sidónio e a quem o grão e massa com chouriço sem falta do casqueiro mata quem vai teimando em querê-los matar.
Hoje, qual fábrica do tijolo, quase nada de viúva e de azulejos lá vai sobrando uma fachada escondida dos olhos dos ávidos da cidade que mais dia menos dia por ali vão passar a direito e queira deus que me engane mas à sopa andam cada vez mais caidos como nós, e tudo cai. E que os tempos da fome em fila de espera voltaram aos bairros pobres de lisboa, lá isso voltaram.