terça-feira, 16 de dezembro de 2008

A máquina de ouvir as vozes do éter.

O barulho seco do martelo de madeira ecoava na sala disparado à queima roupa sobre a mesa e ditava por fim o fim da ansiedade do lance, qual batalha surda de casino com a contenta resolvida a favor do tio.

Por uma razão que então escapava mas que hoje apresenta umas quantas pinceladas mais expressivas, o casal já entradote de anos e de farpela negra que do lado oposto da sala insistia em perseguir o lote que o tio tinha debaixo do seu olho arguto, levantava sempre a mão a cada tento, o que o enervava sobremaneira.

O interesse que o leilão tinha despertado entre os habituées era, na verdade, indescritível e no espírito irrequieto do meu tio desenhava-se intenso como o vento do início desse inverno arrancado de um só impulso ao final do verão que entretanto começara já a fazer a bagagem para deixar a capital.

O catálogo tinha-lhe chegado às mãos, vira-o no clube tauromático, ali à rua do chiado, mesmo a tempo da hasta, precisamente na véspera, e o que lhe despertara desde logo o interesse seria um estranho maço de cartas de rementente desconhecido que se anunciava e endereçado à academia das ciências e aí nunca recebido e nas quais se falava de emissões de rádio codificadas. Isso seria o princípio, mas era nada no tudo que as cartas - e uma em particular - teriam para contar, mas lá iremos.

Aquilo do criptado era apenas um pouco menos do que completamente desconhecido, pois o sempre infinitamente paciente tio lá se dera ao trabalho de me falar das portadoras, do ruído branco e do ruído de outras cores do firmamento das ondas da rádio, e sendo ele um dos que na lisboa daquele tempo se dedicava a trocar mensagens subversivas com o seu cê-bê da banda dos onze metros, dele recebi um par de walky-talkies e uma mão cheia de sabedoria de num tempo hertziano em que não imaginava ainda o que seria, num dia dos dias do tempo lá mais para diante, a escravatura do telemóvel às risquinhas, a tirania dos podcasts às bolinhas, e outras enfermidades que tais a povoarem os dialectos das tribos mais modernas desse tempo do futuro.

Arrematada a coisa para gáudio do tio e acabrunhanço dos outros que lá tinham ido ao mesmo e que assim voltavam tosquiados, lá fomos caminho do cê-cê-cê, o centro de comunicações do chiado como carinhosamente lhe chamavamos lá em casa e de que o pai ria a bandeiras despregadas, nada mais nada menos do que a casa do tio de que avizinhança faria chalaça com a tamanha antena plantada, erecta, lá no quintal entre o medronheiro de estimação sempre carregado de bagas rubras e o canteiro preferido do gato siamês de olho azulado da tia, que se entretinha a alisar nas suas longas e ensonadas tardes ensolaradas à sombra da emissão clandestina que teoricamente seria ouvir os noticiários da londrina bê-bê-cê.

A revelação das cartas, quais chapas de fotografia antiga em salas escuras, revelava na sala escura do maior
desconhecimento, o nosso, a maior das revelações da existência. Aquela em particular falava de uma frequência mágica, secreta por assim dizer, que daria acesso ao passo seguinte, para além do limiar da invenção da rádio, que já sabiamos o que era, e da janela da televisão, de que nada sabíamos então.

Dizia que sintonizando o his master voice de seis válvulas com cinco faixas de ondas na onda onze-onze seria possível ouvir o que pareciam vozes, conhecidas umas e desconhecidas outras, fantásticas todas, que mostrariam aos que deste lado da cortina que as ouvissem o nível seguinte do jogo sem fim.

E fomos ver o que nos dizia o relato do jogo sem fim que acontece nas bandas do éter.