Gostava de contar-vos o que foi possível, entre o espólio que recebemos do nosso tio-avô, descobrir no velho pergaminho o nos deu a certeza de que os rumores que passavam de geração em geração e que comentávamos nos jantares de natal, todos os anos, correspondiam a qualquer coisa que não apenas à fantasia de jovens à procura de ilusão para pintarem a cores as suas vidas de estudantes entre as pastelarias da praça de londres, com as cores do preto do café e do branco do leite com que lhe estragavam o vigor.
Antepassado nosso, mateus comandava a esquadra que acompanhaou a princesa que em florença se casava com o filho mais novo do doge mas levava também recomendações d'el rei para que contratasse os trabalhos de um tal pietro di cristoforo vanucci a quem chamavam perugino, porque ele e só ele saberia tornar eternas as feições, pose e porte da sua real pessoa e das ofuscantemente brilhantes que o secundavam pois trabalhava o óleo como nenhum outro no reino podia sequer adivinhar nem no mais descarado vislumbre do tempo que viria no futuro.
Não sabia o rei o que tal decisão traia de enleio junto da mesa do tribunal do lápis azul de então, ali às portas de santo antão.
Depositada a princesa na caixa forte do palazzo de destino e de cuja janela apenas podia ver, de viés e à custa de algum torcicolo a que seguramente ganhara direito, a torre vecchia, matias ainda se foi recomendar a santa maria novella e encaminhou-se de seguida para a judiaria velha onde, por informações, curava dar com o artista na casa de pasto mesmo ao lado da sinagoga grande. Não foi difícil de dar com a coisa já que a placas indicavam o local em caracteres hebraicos, não o da taberna mas o da casa mosaica.
Encontrou-o em irada troca de impressões com um rapaz já então famoso - e por força da exposição prolongada às tintas quase cego - a quem o de perúgia dirigia uma avalanche de sarcasmos, uma torrente de ironias e um degelo de metáforas visuais que até mesmo ele, o quase-cego, não podia deixar de ver tal a amplitude do movimento e intensidade da tónica.
Porque, perguntava o nosso homem, porquê se tinha ele decidido a encobrir com as suas tintas de um juizo final os seus afrescos da sistina, porquê? E este porquê saiu-lhe rouquenho, dilacerado, perdido, final. Fez-se silêncio e apenas os olhos de dante, na mesa ao lado, se levantaram do papel onde rascunhava, com tinta sépia de um tintureiro do rialto, as últimas linhas da comédia que disse divina e bem a propósito diriamos nós. Que lhe tinham roubado parte da sua alma mas faria ainda algo com o que dela restava e disso haveriam de ouvir falar em toda a cristandade e mais qualquer coisa. Faria e fez, e falaremos disso adiante.
Era a deixa de mateus e pagando uma rodada de vinho frizante meteu conversa e, puxando-o pelo braço, sentaram-se a uma mesa bem perto do balcão e suficientemente próximos do candeeiro de petróleo de chama trémula e luz escassa que lhes povoava os rostos com rugas mais profundas e que também aquecia um pouco o ambiente gélido. Acertariam missão, âmbito e orçamento, e partiriam sem demora, nessa mesma madrugada com a primeira luz ténue que banhasse o arno florentino onde esperavam os homens que os levariam a lisboa.
Passaream três semanas de navegação conturbada, no final das quais e não sem o alívio que a chegada naquele tempo significava não só no imaginário mas principalmente no corpo, aportaram à fonte da aguada no pontal de cacilhas e daí apontaram, por fim, no bote do mestre elias rumo ao jardim do tabaco que por ali ainda se descarregava em folhas largas das américas.
Perugino estava finalmente na lisboa que não pôde deixar de lhe fazer lembrar a velha casa na umbria da sua infância à medida que subia as tortuosas vielas, encosta acima até lá acima, com as suas tintas, paletas e telas, passando pelo limoeiro onde mãos encardidas se assomavam às grades ferrugentas e pela sé velha onde o orgão entoava um te deum emocionado por mãos lustrosas e bem tratadas, ao encontro da alcáçova do castelo onde seria presente à presença do rei.
Ficaria alojado num casebre que lhe serviria de estúdio, vizinho da travessa do funil, do beco do recolhimento e da cantora lírica que ensaiava todo o dia o minuete que cantava nas soirées do teatro dona amélia onde era cabeça de cartaz e que, contudo, não chegaria a conhecer.
Trabalhou dia e noite, semanas a fio, pressionado pelo mateus que pressionado pelo rei andava que mais não podia de aflição e nervoso miudinho. Até que pelo final de um dia de um tempo de que não fala o pergaminho mas que tardava para o patrono e que escasseava para o mastro do pincel, a obra sonhada completa vê a luz do dia e dá-se por concluída. Concluída ficaria assim a sua obra prima, que primava pelo que mostrava tanto no ângulo directo como no de paralaxe.
O retrato deixou de queixo caído todos e cada um dos cavaleiros da câmara do rei, damas da corte e o próprio monarca, principalmente este. Nunca em tempo algum do que tempo que já tinha existido nem no que poderia ser sonhado nos sonhos mais selvagens e destemidos de cada um dos presente se tinha vislumbrado algo semelhante em luz translúcida, cor profunda e sentimento perplexo.
E no entanto havia qualquer coisa essa sim perplexa com, principalmente, dois dos personagens da alegoria que deixava paralizados os que nela repousavam os olhos ligeiramente de esguelha e apenas dessa forma e nesse curto ângulo, invadindo-os de imediato o desassossego de quem contempla o impossível.
O rei transformava-se em jesus, o judas lá estava, cada um dos cortesãos se transformava em apóstolo aureolado, mas era principalmente a figura da rainha que, transfigurada na imagem de maria madalena, repousando lânguidamente no regaço do rei, e tudo isto acometia todos de um frio glacial que lhes enregelava os ossos, lhes toldava o raciocínio e os invadia de desespero.
Porque esta foi a obra prima feita com a metade não acabada da alma de perugino, que assim fazia o seu juizo final em forma de última ceia.