O pai tinha saído era ainda manhã cedo, pela altura em que o encarnado do céu começa a despontar no horizonte do outro lado do rio, e tinha dito que iria para as bandas de santa apolónia, isto num tempo em que demorar-se tempo com fartura pelo campo das cebolas era tempo bem empregue, tinha sabor a boa sopa tardia, a fado trinado de alfama com marujos à pancada, em fundo, nas docas do terreiro do trigo.
Era de manhã cedo que chegavam ao porto os homens do mar com a pesa de água longínquas umas, de logo ali, outras. Também por aqui passam os que vinham do matadouro lá de cima, defronte do liceu camões.
Com os primeiros comboios da manhã, de longe, aportavam também os magalas que depois iam embarcar-se no cais lá de baixo, a alcântara, alguns para não voltarem, uns quantos para fazerem a volta do cabo que já foi da esperança e que voltava a ser território do adamastor irado que do gabinete lhes desenhava a vida e a má sorte no além-mar.
Passaram horas, horas intermináveis, longas como longos os dias infinitos sem pão, e o pai teimava em não voltar.
O ronronar da sua norton era conhecido de campo d’ourique aos mártires da pátria, do campo pequeno – que era ainda tão longe da cidade – ao de santa clara.
O talho ficava no gaveto logo a seguir ao chafariz d’el rei, colado á muralha velha, o chafariz. O ti jaquim, homem de rosto curtido pela vida, ar afável e coração de ouro – e que era também o dono da fábrica de rebuçados onde em miúdo, guloso, deixei metade da pele da mão direita colada no caramelo fervente como lava esbrazinante – esperava-o já com o alforge aviado.
Bifes, costeletas, umas quantas morcelas e uma mioleira, de vitela que as outras não era tão gostosas.
O reluzente boca-de-sapo preto vinha lá ao fundo, dos lados da estação, o meu pai viu-o quando descia o breve degrau da porta e pôs a mota a trabalhar, que naquele tempo a coisa demorava a deslindar uma operação menos automática do que hoje acontece.
E lá foi à sua vida, mas o passeio acabava-se ali mesmo, breves instantes depois, com uma babilónica queda no empedrado cúbico frente ao museu militar quase no limite de espalhar o espírito por quantas pedras encontrou. Safou-se à justa.
Mota para um lado, pai para o outro, e a massa encefálica espalhada pelo passeio. Foi assim, sem mais habilidades especiais para sensibilidades mais carentes, que a notícia saía no notícias daquela tarde.
O boca-de-sapo, daqueles que os franceses guardam numa montra dos champs elisées equipado com suspensão hidropneumática tão inovadora então como admirável é hoje, estava também ele um caco. Cacos, o carro e o desgraçado que, lívido, desfalecia na calçada. Viria depois a saber-se – porque nos bairros tudo se sabe – que o sujeito, e o caso não configurava nenhuma catástrofe etílica, se evadia de casa do marido da senhora com que privava às escondidas, descoberto com o rabo de fora.
E vai daí, corre para a viatura a toda a brida, à frente do capitão armado e do homem enfurecido de enfeitado. Atravessou-se com o bólide na estrada e o resto já se sabe como acabou. Ou não, porque há sempre mais qualquer coisa para se saber.
Bem, depois do primeiro desmaio, o dom juan de marvila, como ficou conhecido o homem que desmaiava, ainda ganhava umas quantas sacodidelas do militar, bem à frente do museu.
Da norton, daquelas de um tempo em que não tinha ainda sido inventada a carenage e que rugiam rouquenhas, não mais ouvi falar. Agora que a mioleira do meu pai foi famosa por duas épocas lá no bairro e arredores, disso não restou a mais pálida dúvida.