Apanhámos o ferry do cais do Sodré. Bem, o cais diz-se ser dele e de facto foi porque o construiu. Vindo de Águas Belas, lugar de gente afável para as bandas de Tomar nos idos de há muito tempo, embarcou com as voltas que o mundo dá ao lado do Gama, mar abaixo.
Naquele dia de inverno nublado de há tanto tempo em que, com o meu pai, apanhámos o barco junto ao velho farol verde que se ergia por entre os bancos de nevoeiro que abafavam Cacilhas e congelavam o mar da palha, como que a demarcar o território entre o conhecido e o oceano por descobrir, o miúdo que eu fui e que ainda mal sabia ler veria que o mundo se escreve em mãos cheias de páginas repletas de mundo por conhecer. Mas lá iremos.
Passámos os portalós da estação e subimos à trindade debaixo de uma chuva miudinha que teimava em encharcar-nos, deixando-nos que nem pintos. Eu tinha pé chato - naquele tempo apenas o pé - e íamos a uma daquelas sapatarias que vendiam calçado tão adequado à função quanto horrivel se mostrava à luz fosca daquela manhã.
Lá nos despachámos e, porque eu insistia com o pai sempre que íamos à capital em dar uma volta pelas ruas onde se vendiam livros antigos, lá fomos.
Esculpido numa filigrana de ferro fundido, o elevador de santa justa representava um trabalho de ourives de ouro fino e por isso o aprendiz de Eiffel o fez nascer na rua áurea. O pai fez-me a vontade e pediu ao capataz que nos permitisse descer na cabine já à experiência e descemos.
Era o elevador de santa Justa e faríamos a viagem numa gaiola à justa atafulhada de operários que, apressados para a hora curta do almoço parco, bufavam de desespero pela lentidão da viagem. A vida de trabalho esforçado daqueles homens não me pareceu nada fácil então e hoje acho que já sei o que me esperava.
Com os sapatos novos, o calcar no empedrado escorregardio da rua Garrett tornava-se mais difícil a cada passo, que aquele tipo de instrumentos de tortura ortopédicos pareciam naquele tempo especialmente desenhados se não para dar completamente cabo dos pés, pelo menos para dar conta dos calcanhares, já com bolhas.
Ainda assim foi sem esforço que demos com o velho alfarrabista. O senhor, já cota de anos e de entradas fundas de sabedoria e que encontraria noutro tempo num tempo lá no futuro, lá percebeu que o catraio procurava não outra coisa senão um fascículo do Mosquito. Fomos direitinhos às estantes dos quadradinhos, milhares deles, universos a rodar à velocidade da imaginação e da cores das tiras com balões de letra miudinha.
E foi ao passar pelo estreito corredor, depois da sala meio bafienta porém luminosa de uma luz eterna da entrada, que o mundo que conhecia aceleraria a alta velocidade ao entrar no livro enorme e de página amareladas nas pontas que o senhor abria e me mostrava, direito ao encontro que teria no Rossio. Encontrei-me sentado à mesa do Nicola com Manuel Maria e rodeado de indivíduos que deliravam de entusiamo com as prédicas que o haveriam de tornar famoso num tempo que ele ajudaria a inventar.
Vimos ruir o hospital de todos os santos; assitimos ao nascer, das cinzas dos estaús, o dona Maria; estivémos no erguer das fontes simétricas na imensidão da praça; e ensinou-me que no alto do obelisco estava aprisionado outro que não dom Pedro, porque esse tinha alcançado o estado da liberdade que também nos estava destinado.
E o tempo medido na escala de sonho tinha passado à velocidade de menos de nada, percebi-o quando o já parco movimento de caleches era apenas o que acontecia na praça e fez-se hora de sair do livro para encontrar-me com o meu pai que deixara na sala da entrada.
Vi um livro aberto em cima da mesa, só e espreitando percebi que tinha chegado no momento em que acabava de embarcar à procura da sua viagem. Na capa estava escrito "Até à eternidade".