quinta-feira, 6 de novembro de 2008

Ouve-se ao longe um violino na torre.

Lembrei-me, pelo final da tarde, de ir lá abaixo dar uma volta. Peguei na minha leitura de cabeceira, o soberbo "O violino de Viena" e fui caminho de Belém. Chegar lá foi fácil uma vez que toda a população de Lisboa parecia ter abandonado a cidade rumo aos seus destinos de férias. No verão moderado daquele ano da graça aterrei na fresca esplanada do cais e pedi o meu café curto e sem açucar.

Naquela semana o trabalho tinha sido intenso e com a criançada lá de casa em maré de serenata noite dentro e uma oitava acima, as pálpebras apenas precisavam de um argumento, por mais leve, para se entregarem a um leve deslizar de cortinas. Esquecido da leitura, do resto e de tudo, passei pelas brazas.

Encontrei-me com Sebastião José na torre. E isso era num tempo em que já não estava secretário do reino. Passava nesse tempo a maior parte do tempo pela igreja da memória, da sua e da nossa memória. E as suas memórias estavam cravadas de forma indelével, porque o papel da memória aguenta sempre o que insistimos em escrever-lhe e ele tinha escrito com força.

Tinha voltado havia pouco de Viena, onde completara a sua comissão de serviço na representação diplomática junto da corte e aí tinha ganho o gosto pela música e não só. Foi assim que o encontrei a exorcisar o seu fado com o violino barroco talhado numa linda raiz de picea abies da noruega encomendado num luthier do Graben, mesmo na esquina com santo Estévão e nem os pastéis que os frades lhe levavam do convento todos os dias lhe podiam dar consistência ao olhar vazio cravado no tempo ao longe.

No rio, orientado pela rosa dos ventos gigante, entrava a nau do padrão pela doca do bom sucesso com a safra de cana dos engenhos da terra do pau brasil, conduzida pelos ventos que sonhava pudessem trazer-lhe de uma vez a paz pela mão das pombas do espírito santo.

E ali passava dias a fio, noites sem fim à espera que o alvor da madrugada lhe trouxesse o perdão de um outro alvor, conde como ele, que lhe pesava no remorso. E matutava interminavelmente, a bordo da sua nau-torre ancorada no Tejo de águas plúmbeas, como tinha podido ser tão desgraçadamente comprado daquela forma.

Ele que tinha abolido a escravatura, ele que tinha acabado com aqueles ofícios nada santos, ele tinha também sido capaz de fazer o papel de capataz a assegurar-se que acontecia o impensável num outro tempo.
E desse tempo de cegueira desmesurada, paga a condado e maquezado, sobraria apenas um chão salgado num beco sujo do sangue que fez derramar a mando do canalha.
O seu rei teria sido outro, um Távora naturalmente. Sentou-se e, exausto, adormeceu.

Quando acordei, estremunhado, já a tarde caía e o sol se punha no horizonte a ocidente por detrás das árvores do parque, recortado pela sombra dos Jerónimos. O meu café estava mais do que frio e sem graça, mas tive a graça de ter uma pomba pacientemente à espera do meu acordar para ir comigo à igreja da memória visitar Sebastião.