Era primavera e sentia-me cheio de esperança na concretização dos sonhos de felicidade que teimavam em acompanhar-me todo aquele mês de Junho. De tal forma que, ao contrário do que habitualmente não me apetecia, naquele fim de semana apeteceu-me com força ir ao cinema. Eu não frequentava muito o cinema e acabava de jurar bandeira no regimento de artilharia de costa. Fui sozinho ao cinema, achava eu.
Ainda passei pela menina Rosa que por sinal é florista e mora ali para as bandas do pátio da cantigas, à Graça, demos dois dedos de conversa e lá desci a passear o assobio descendo às escadinhas da dona do mesmo nome e entrei no cinema imaginário na travessa do paraíso a ver o que por lá passava. Entrei no filme e passava-se tudo quando subi ao campo de santa Clara.
Vi senhoras de sombrinha fazendo sombra sobre os seus rostos, vi meninos a correr com carrinhos de lata nas mãos a comer sobras de pão, vi banquetas de cacos reluzentes do polimento sobre a idade da faiança e do metal sob o sol do final da manhã, vi casais enamorados de aves que cantavam alegremente empoleirados nos troncos das árvores e outros que debicavam alpista, vi as clarissas à janela do tempo debruçadas sobre o bulício inacessível da praça efervechente de vida.
E, afogueado e com a farda de magala transpirada, bebi do chafariz que me aguardava como quem sabe o que aí vem e lhe serve água fresca e já lá não mora.
E vi-os, ambos. Do lado de dentro do balcão da loja, logo ao princípio do corredor. Lá estavam, soube-o no preciso momento em que os vi. Mãe e filho, ainda de colo. Uma loja de penhores tem uma aura estranha. Com a guerra as pessoas lá deixam as memórias e com a miséria nunca as recuperam. Lembro-me, deste lado do tempo, das caras lavradas a lágrimas na separação adivinhada eterna mas com esperança no resgate próximo, que nunca viria. São as suas memórias orfãs.
No quiosque ao lado da loja de penhores a menina que lá despachava serpentinas e confetis coloridos das mil cores do arco-irís trauteava, com lá-lá-lás, o fado rosa vermelha e disso nunca me esqueci; também vendia molduras. Trouxe uma e voltei pelo arco de santana e acabei a noite com Garrett nas mãos.
Do rádio guardei para sempre a letra que dizia "o que vou levar da feira?" com melodia aromática como hoje parece voltar a florir e num dia de uma terça-feira muito tempo depois do tempo em que lá estive naquela vez em que era sábado, vi a montra que mostrava uma rosa seca e um botão numa moldura das que conhecia.
Também ali habitava agora um par de corvos inseparáveis e uma pagela de são Vicente.