quinta-feira, 13 de novembro de 2008

A loja de números.

Um dia, era eu miúdo, o meu pai, que me contava histórias sensacionais e aventuras fantásticas, contou-me esta passagem que se passou numa cervejaria por onde ele um dia passou, já altas horas da madrugada, num tempo em que o tempo ainda não contava para nada nem contaria por muito tempo. É assim.

Naquele tempo não sabia ainda que viria um dia, bacharel, a tornar-se o cosmógrafo-mór, mas assumia já o papel de cosmógrafo-real, bem real por sinal. Por aquela época os seus créditos como lente na sua ciência tinham causado tal furor que el-rei, o senhor dom joão, o terceiro de seu nome, não teve outra opção viável que não contratar os seus serviços como mestre dos seus irmãos benjamins ambientando-os quanto baste no bom uso da indispensável moral, da estravagante filosofia, da transcendente metafísica e, claro está, da inexorável lógica. Seguramente da tangível álgebra uma pitada também.

A coisa até nem progredia mal mas tinha dias que lhe deixavam abertura a novas abordagens e, satisfazendo um sonho antigo, abriu em lisboa, perto da sinagoga velha que a nova ainda demoraria a ser construida, a sua loja de números. Pedro vendia números avulso, não quaisquer números, não números vulgares de fanzines há muito esgotados, não números desbotados em camisolas espampanantes de uma qualquer equipa de um campeonato extinto, não. Vendia números concretos.

A sua loja tinha prateleiras repletas de esquadras e brigadas de números de espécie rara e raras eram também as vezes em que alguém os designava da forma como se chamavam, na sua loja. Hipercomplexos, talvez, agora aquilo dos cardinais é que fazia mais confusão e mais perplexidade causava por aqueles dias, até porque lhe pediam que organizasse um calendário novo em folha branca.

Mas por aquele tempo, com uma crise financeira nos mercados dos números, números era justamente a mercadoria de que o mercado se afastava, e passavam-se dias sem que entrasse vivalva na sua loja. Bem, vivalma com potencial, digamos, para os números. E entre as lições aos catraios - coisa que o salvou do sambetino e da marcha lenta - e a venda que não acontecia, avançava pelo seu livro dentro cristalizando em equações decisivas as voltas inúmeros da sua algebra en aritmetica y geometria que ainda serviria de muito governo a muito boa gente.

Nascido em Atenas, veio em visita de estudo ao teatro romano de alis ubbo não sem antes ter aportado em siracusa, mas foi por cá que mais se demorou, mas nem tanto que não chegasse a voltar à sua terra natal nem tão pouco que não ficasse amigo de casa de muitos da capital do reino.

Por causa de um programa interdepartamental entre as suas universidades - em que se explorava a natureza do número e o seu impacto no desenho do mundo - ficariam próximos. Pedro, o que ainda viria a ser conhecido como o do nónio, nunca esqueceria a intervenção de Platão em que, este com uma calma impassível, comunicava à assistência em transe o seu resultado mais sintético que sublinhava que os números governam o mundo. Sem mais nem menos.

Sendo o mundo - o visível e o invisível, o tangível e o subtil, outros ainda que não se saiba como descrever - um caldo a borbulhar numa cataplana gigantesca nas mãos de um cozinheiro bem-disposto e sempre pronto a tentar novas perspectivas para a degustação, os números são os ingredientes e as formas como se ligam, que o bom gourmand sabe distringuir com a inspiração das baforadas de imaginação que emana, fumegante.

E assim, não foi difícil que ambos se sentassem na mesma mesa no final da sessão, o do nónio e o que andava às voltas com o crítias - muito a jeito por aquele tempo de pesquisa mais activa do continente perdido - numa mesa lá ao fundo de uma cervejaria ali à trindade perto do cauteleiro eterno e do teatro onde a coisa acontecia.

Que os números representavam o movimento acelerado, que sim senhor, mas que também se mostravam como colecções de unidades, sim, sim, mas essencialmente quantidades de coisas da mesma espécie. E assim ia a conversa dos números. Pois então e que se dane o resto da sessão. E lá na loja tenho uma oferta muito segmentada, dizia o nunes.

Como assim, ripostava o grego, pois que os clientes procuram cada vez mais os números adaptados às suas necessidades, e isso resulta, resulta com uma oferta estruturada para os naturais, os cá do burgo e aos outros, aos inteiros, aos racionais, cada vez mais sumidos idos que foram para outras paragens mais aprazíveis, sem esquecer a oferta de reais, ainda não em forma amoedada, nem tão pouco os complexos, que muitos e de muitos tipos me entram porta dentro à procura de situações quase sempre imaginárias.

E vai daí a estarem a rabiscarem nas toalhas de papel da mesa foi um menos que nada, um mesmo enquanto o da pata fendida esfregou um olho. com três números derivo um triângulo, o nunes. E fazes o quê, o grego atrevidote e trocista. Calculo, com os pesos atómicos dos elementos correspondentes, um triângulo essencial e daí o padrão semente do mundo. Então mostra lá, ora toma, aqui tens e agora que dizes, digo que está bem à vista o que não viste nem lograste ver de tanto olhar.

A coisa prolonga-se noite dentro, madrugada afora, a mesa cheia de rascunhos, pingas de café, restos de tostas mistas, que a fornalha lava-se com água - mais ou menos - mas carbura com combustível.
E é nesse momento, mesmo cansados da maratona, que sob os primeiros raios da manhã coados pelos vidros embaciados do bafo da noite apontados à mesa, emerge do papel, qual criação da criação do criador, as quatro equações a três variáveis que de imediato fizeram congelar de espanto e felicidade os dois maratonistas.

Tinham encontrado, Pedro Nunes e Platão, o tesouro do mundo e podiam escrever por fim o sistema de equações das almas. Eureka.