Fazia tempo que se sentiam observados. Não havia dia em que se juntassem, ali à vila nova dos andrades, no palacete que nesse tempo ainda ostentava na esquina o seu cunhal de bolas resplandecentemente douradas, e que olhar para trás por cima do ombro não lhes dissesse que as sombras se moviam mais depressa do que a própria sombra, e isso não era nada bom sinal.
O cunhal ainda lá está mas já não brilha, que cunhal como aquele não haverá outro por muito tempo. Os nobres membros de ideais por demais liberais para os ditames da época que alinhavam pela partitura da academia dos generosos, identificavam-se entre si assobiando um estribilho da canção de lisboa, mas naquela noite o toque era outro. Soava a toque de caixa com passo acelerado.
Nessa noite, por precaução, os três não desceriam por são luiz dos franceses, antes se esgueirariam logo ao cair da tarde, juntando-se no destino aos restantes. Tomariam os passos do município, vindos das bandas da travessa do cotovelo e meteriam à rua da conceição, escapando-se pelo alçapão defronte do setenta e sete e ao lado da paragem do eléctrico vinte e oito. Descia da estrela e ali se apeou outro deles, cruzaram-se como se nunca se tivessem visto e este foi calcando rápido o empedrado escorregadio por força da neblina que entretanto se agarrara ao caminho como um moribundo assustado se agarra à mão última que o consola e que lhe lembra a vida que deixa.
Por essa altura do ano e além do criptopórtico subterrâneo, a inundação das água do tejo, dos regatos que escorriam pela colinas abaixo e dos esgotos a céu aberto que para lá saltavam tornavam a progressão no terreno para além de silenciosa absolutamente nojenta e a exigir-lhes tanto da alma e da vontade como da força das pernas atascadas até à cintura. Mas era absolutamente necessário e a opção clara. Ou o esgoto ou o braseiro a são domingos.
Iam estafados, mas depois de passarem pelo pedestal do esculápio dos subterrâneos, que ali guardava segredos desde sempre, era como se um elixir de esperança dado por ele lhes aclarasse a vista, retemperasse os músculos e lhes tornasse os espíritos mais fluídos.
Chegavam a alfama do mar, proletária, já noite cerrada, não que sentissem a diferença da luz mas livravam-se daquela garra nauseabunda das entranhas da baixa, passando pela cerca moura a caminho da alfama que no alto se espraiava pelos miradouros. Tiveram ainda que demorar-se pelo ambiente de casbá, vielas e escadarias, à cautela, antes de se dirigirem por fim à casa dos diamantes, pelas trazeiras, mais sombrias e não vigiadas pelos ouve aqui e conta na mesa do tribunal.
O anfitrião, brás, e os que puderam chegar antes, já os esperavam com um belo repasto em que tinham sacrificado em holocausto um anho à moda de bagencas de baião, no ponto e regado com um branco novo das lezírias, já desse ano. O céu, era o céu que os esperava, que os tempos não estavam para brincadeiras.
A coisa conta-se assim. Um antepassado nosso de que o pai falava, gonçalo inácio de loiola e que assinava a correspondência por albuquerque mello, enviara certa vez para o reino um maço de cartas em que falava de uns quantos textos antigos e onde ficava mais clara que a água límpida a sua inocência, mas como na sua terra ninguém consegue ser profeta, coisa que se verifica com muita intensidade a cada dois mil anos, não se safaria sem que o fuzilassem. No pacote chegava também uma proibidíssima primeira edição de jesus na índia e isso seria, definitivamente, o fim.
Estudioso, investigava por essa altura umas dicas que um goês já bebido e que ficara pelo pernambuco numa escala da carreira da índia lhe contara certa vez no botequim acerca de um barco mítico a que chamavam de jesus e que poderia estar enterrado nos baixios arenosos das praias de areia branca - como um forno à temparatura de cozer pão e fina como a farinha para o amassar - para as bandas de diu.
Escândalo quando se soube e em menos de um fósforo, a queimar o rastilho breve a caminho da pólvora assassina, o pobre gonçalo que o povo chamava de padre mororó, e que ainda hoje assim chama, caía fulminado diante de um pelotão de desgraçados sem eira numa praça sem beira de fortaleza, lá para os lados dos brasís.
A academia juntava na casa dos bicos nessa noite os homens que mais sabiam sobre a índia, a carreira, os amores e os temores dos nativos e da raiva que nos tinham uns e o que outros poderiam ajudar. Conspirava-se, se conspiração for a fórmula correcta. Estavam alí os vice-reis de agora, os de outro tempo e ainda aqueles de todos tempos passados e futuros e até ao fim do futuro.
Discutiam-se as chances de sucesso da empresa. Argumentava o brás citando lucas que jesus falava em passar para a outra margem do lago, afonso e matias que os demónios tinham soprado o barco onde jesus navegava e, todos em côro, que o tinham feito com tamanha ferocidade que a embarcação só poderia ter ido parar para lá da taprobana. Aí estava, era possível ser bem sucedido.
Partiriam na carreira que sairia de lisboa em fevereiro logo ao dobrar do calendário desse ano bissexto que não era porque só inventariam tal coisa muito tempo depois, pouco tempo restava para preparar em segredo a missão mais secreta das suas vidas de homens do mar, da terra e da guerra.
Sei que foram e que voltaram, afonso ficaria por goa para sempre, sei que não encontraram a esteira do barco mas que os sutras esquecidos lá estavam disso não sobrou qualquer dúvida e falavam do mestre do barco.