Tinhamos ido, eu e o meu pai, tratar de uns assuntos à baixa, já não me lembro bem de quê, mas lembro-me que foi num tempo em que as estações do metro ainda eram suficientemente pequenas para que nós, na última carruagem, tivéssemos que ir até ao apeadeiro seguinte, à avenida, e trocar de sentido para poder, por fim, voltar à anterior mais à mão do nosso destino.
Isto foi num tempo que aconteceu há muito tempo mas guardo na ideia que o meu pai me mostrara a ginjinha do rossio e me falara de umas fogueiras que um dia, há ainda mais tempo, atearam ali no largo.
Por ali passavam-se coisas estranhas desde fazia tanto tempo que parecia assim ter sempre sido, se considerarmos coisas estranhas as coisas estranhas que alguns, que só podem ser ruins, fazem a outros lá porque pensam por outra perspectiva, por outro postigo, com outro estado de alma.
A última das coisas que por ali acontecera e que a todos por ali pareceu tão estranho foi o lavrar em labaredas imensas o teatro naquela noite do primeiro de dezembro que nunca deveria ter acontecido. Era como se o espírito do lugar e dos que aí padeceram às mãos dos seus carrascos dissesse de sua justiça na ribalta ardente desse palco. Um dia também a casa da masmorra, ao rossio, dita santa assim terminaria para não se levantar nunca.
No balcão e à nossa beira vicente, não o santo, o do autos, que por esse tempo andava a esculpir a custódia que hoje habita às janelas verdes e que também ela se salvou à fornalha da casa da moeda, e o garrett, às voltas com um auto de gil vicente para estrear na rua dos condes onde hoje apenas sobra nada, falavam da encenação que preparavam e que um dia faria cada um em lisboa representar o seu papel.
Entretanto lá fora foi correndo a azáfama das gentes, de tantas cores e humores, a correr e desenhando o dia e o fim da tarde sombria, e levantando do traço do arquitecto o teatro de dona maria defronte a são domingos que, por ser dezembro ameno, não se safava da chuva miudinha em suaves pingos.
Fez-se tarde, chegava de ginjinhas com elas umas, e outras sem. Fomos cada um ao seu destino à espera do destino de cada um, gil vicente lá no alto, joão baptista ao panteão da santa a quem chamaram engrácia, e todos ao mesmo destino de lidar com o desatino da nossa (ence)nação.