Um dia, muito tempo depois de ter partido lá da terra, viu picarem-lhe as pedras do túmulo, coisa que o deixou um tanto ou quanto aborrecido pois que as pedras paradas dificilmente fazem mal a quem quer que seja, já que acerca das andantes e com olhinhos será mais dificil decidir acerca da sua inocência.
Em vida ainda se viu inocentado, com sorte e por culpa das vistas curtas por parte do pessoal da mesa, mas ainda assim e por cautela com direito a desfilar em torno do pelourinho no auto-de-fé e assim exercer o seu direito de passear uma daquelas velas que indicavam tantas vezes o fim da linha e sempre a humilhação. Teve sorte, para o que contribuiu decisivamente a miopia estravagante do juiz. Safava-se.
Restava-lhe não fazer-se à estrada, que por aquela época os fundos do reino não tinham sido planeados serem assim dispersos, mas sim a caminho do caminho de ferro de vila franca, que ainda viria a chamar-se das naves - e porque só deus sabe - transformando-se no fulcro da alavanca ferroviária da beira alta. E foi a alta velocidade, seja isso do que se trate na realidade, que deixou o seu trancoso, bispado da guarda, para se instalar na rua dos sapateiros, comarca de lisboa.
Chegou aqui depois de uma penosa cavalgada carregado pelo seu burro, este cansado de tanta serra subida e tanta ladeira descida e aquele enjoado de tanto marear pela vagas alterosas das serras, que como se sabe portugal é um país de algumas cidades e muitas serras. Instalou-se num casebre daqueles a que o terramoto haveria de dar o golpe de misericórdia pela mesta altura em que lhe picavam o túmulo, e imediatamente a seguir ao arco do bandeira no lugar onde haveria um dia viria a existir um cinema com fachada arte nova de verde pintada, a fachada.
Artista jeitoso, gonçalo não teve dificuldade em encontrar de imediato um mestre que lhe cedesse um banco para trabalhar e foi assim que duas manhãs depois o encontrávamos já em grande labuta. Ele era deitar umas gáspeas novas a solas velhas; capas nos saltos que, marotos, se enfiavam por entre as pedras da calçada como que a sumir-se das donas que os calcavam; lustro nas botas dos cavalheiros a caminho dos seus ócios.
Guilherme, o mestre da oficina, aprendera o ofício com o seu velho pai e também tinha aprendido a tocar bandolim, instrumento místico e mítico entre sapateiros, e tocou sem parar até se tornar no melhor tocador de toda a lisboa a cascais, praia de pescadores no fim da linha a umas léguas valentes da capital e onde faziam uns bailaricos interessantes. Era bom, aliás muito, como excelentes eram os seus concertos acompanhados pelo ritmo frenético dos martelos nas bigornas dos consertos.
Aquela oficina era uma ímane. As linhas de força que dela emanavam abriam tanto os braços em abraços tão amplos que abraçavam se não o mundo todo pelo menos grande parte da esfera, maneira pela qual o mundo se põe a jeito de ser abarcado. Já veremos do que se trata, que por agora temos que justificar como pode tamanha inverosimilhança não corresponder a nada mais do que à pura realidade, que verdade é um campo mais movediço.
Estas notícias chegaram-me aos ouvidos porque o meu bisavô josé, pereira da família dos pereiras, aprendia o ofício lá na oficina da rua dos sapateiros, que assim se chamava porque o marquês - o de pombal - decidira arrumar as ruas por mesteres uma a uma todas as ruas da nova baixa, então em alta e não havia metre em toda a lisboa que para ali, para a respectiva rua, não quisesse transferir-se de armas e bagagens.
Como encontrava tempo para tal, ninguém sabia ao certo, o certo é que gonçalo annes, a quem entretanto passaram a chamar de bandarra, ainda encontrava forma de escrever a sua paráfrase e concordância em que profetizava sobre as coisas do futuro, no nosso futuro, do futuro de portugal.
E um tal de pessoa viria a dizer um dia que ele não era ele, ou só ele, ele era portugal todo, mas isso é outra conversa e de tal o meu bisavô nunca quis falar perto dos miúdos. Que as paredes tinham ouvidos, e os meninos fazem favor de ir jogar à cabra cega um bocado que vamos falar de um império a que virão a chamar de quinto e a que os promotores dos sambetinos do rossio chamariam quinto dos infernos fazendo, portanto, pagar em prestações de fogueira bem acesa para o relaxe - e não relax - em carne, para remissão.
Se sofria de epilepsia psíquica, de gota, ou de qualquer outra maleita debilitante nada se percebeu quando se assomou à portinhola da oficina dando a salvação - bon tarrdê monsieurs - com um sotaque tal que logo se percebeu que só podia provir da terra dos francos. Que se chamava jaques de nossa senhora e que na sua terra fazia questão de ser nostredame para desta forma mais facilmente poder iludir os que viam na alquimia o demónio, na astrologia o mafarrico e na literatura belzebu.
Que publicava almanaques astrológicos anuais, que corria mundo, que gastava solas com fartura e procurava quem lhe fizesse umas sandálias que lhe permitissem andar sobre a realidade sem que se gastassem assim sem mais nem menos. Bateu vossa senhoria na porta certa, responde de imediato mestre gonçalo, mestre também do bandolim, que temos aqui quem seja artista capaz de tal coisa, dizendo isto ia apontando, com a agulha de onde pendia alinha com que cosia umas solas, para o bandarra que entretanto, desconfiado tinha já erguido olhar por cima das lunetas de ver ao pé.
Entre o tirar a medida do pé, ajustar o preço e dar o prazo para os vir buscar o de nostredame teve tempo de dar uma olhada pela banqueta e dar de frente com o olhar num exemplar, já meio puído, das trovas do gonçalo ao lado da caixa de taxas que usava nas solas das botas caneleiras. E que daí por dois dias estariam terminadas.
Conversa puxa conversa, que a conversa é como as cerejas e isso já os antigos o diziam e tinham muita razão, e daí a estarem a alinhar centúrias e trovas foi menos que um piscar de olhos e, com as sandalias novas de pescador que o meu bisavô ainda aprendiz foi buscar, puderam ir pelas águas revoltas do mundo profetizando profecias e trovando trovas para a descoberta do paradeiro do encoberto.