segunda-feira, 17 de novembro de 2008

O segredo do palácio real.

As obras decorriam a bom ritmo no palácio que el-rei fez nascer nas terras que um dia, há muito tempo, pertenceram a um tal joão pires antes de passarem, confiscadas por traição, para a casa do infantado.

Concluída a talha da capela e dando por terminada a colocação dos azulejos azuis e brancos no corredor das mangas, ainda assim robillion não parava de esbracejar ordens para aqui, achegas para acolá e imagens visuais com as mãos para o mestre pedreiro lá ao fundo. Limpava-se o pó na sala ao lado, a da música, e colocava-se no sítio com a delicadeza de uma angioplastia o pianoforte muzio clementi que haveria de iluminar tantas soirées a par com os cadendelabros reflectidos nos infinitos espelhos das salas.

O francês fazia agora dois anos que tinha feito a sua aparição pela obra, o francês e o outro, o tal vatel. Antes que o corpo do pálácio, que em terras dos francos se menospreza forte e injustamente, ficasse pronto, a obra tinha investido na torre do relógio a cartada mais intensa que, sobranceira sobre o largo, perfilava a preceito como se fizesse parte da companhia da guarda real e que ainda hoje lá está garbosa como no dia em que estreou a farda número um. Aí se alojaram.

Com o avançar da obra, esta deixou à luz do dia um palácio de recortada beleza e a rainha lá se decidiu que por ali poderia passar temporadas de qualidade e vai daí lança-se ela própria no alinhar dos linhos das camas dos meninos, da aguarelas e dos óleos - que não os de fritar que esses ficavam à guarda do seu chef rigaud - e das loiças que um dia viríamos a chamar de cozinha velha. O padrão, de simples e frugal flores azuis, torna-se belo sobre os linhos nacarados cá da casa. Rigaud e vatel simplesmente nutriam entre si um sentimento que ia, por aqueles dias, muito além do que a imaginação possa fazer-nos pensar, sim, maior ainda do que o longe da taprobana. Odiavam-se.

Vatel inaugurava um conceito que um dia - num tempo que nesse tempo dificilmente poderia ser imaginado - seria profusamente divulgado entre as equipas de futebol: o empréstimo. Veio integrado na comitiva de robillion por cedência de catarina de médicis que das suas experiências inovadoras se livrava por um tempo, depois de ter passado mal com um tal de chantilly que ele inventara e que ela deixou azedar e com que, constipada, se deixou quebrar por uma boa semana inteira. E lá vai vatel rumo a queluz. E ainda bem que veio, mas disso falaremos mais adiante que ainda a procissão vai no adro de belas e bem devagar mas logo mudaria de ritmo e de rumo.

Enquanto isto, el-rei confrontava-se com as notícias que lhe chegavam das linhas de torres, nem pelas linhas do comboio nem tão pouco pela telefónicas, mas a cavalo. À frente da horda tricolor vinha um certo junot com um exército de famintos, maltrapilhos e cansados - mas que ainda assim fariam estrago - brandindo as suas espadas e levando à frente as incautas donzelas cá da terra. Parte dos olhos azuis que por vemos ainda hoje daí provirão. E a fuga para as terras de vera cruz vem a tornar-se a alternativa viável o que só por si implicou uma operação que embarcava toda corte e adereços e deixava para trás meia vida ou mesmo a vida completa, incompleta.

Ficava para trás rigaud, francês empedernido e que sorria de soslaio com a tragédia que se abatia, e ficava com ele vatel de guarda à casa e à senhora sua rainha que entretanto perdia a noção e se passeava pelo palácio de cabelos desgrenhados, gritando de agonia e gemendo com a dor da alma com se lhe arrancassem o coração.

Que dupla explosiva, a dos homens da cozinha. O Odio que nutriam dissipava-se para dar origem a qualquer coisa que hoje se pode classificar de muito, infinitamente, mais tenebrosa. Com o chegar das tropas, o francês logo se apressou a desfazer-se em amabilidades e fazendo do outro o seu criado, e da rainha a bruxa que entretanto enloquecera - mentiras que lhes salvariam as vidas.

Robillion ao embarcar assegurara-se que vatel entendia o sinal que tinham combinado havia tempo, ainda longe de portugal, e que lhes permitiria comunicar à distância.

Chegada a fronta ao brasil - o que acontecia dois meses depois e sofrimento e piolhos com fartura a bordo - el-rei, depois de instalado, de imediato contactava o governador, luiz de albuquerque de mello pereira e cáceres, para darem início ao plano que mudaria a face da guerra, porque se tratava de guerra isso de virem aqueles bárbaros invadirem a nossa bem amada terra.

O governador e el-rei montariam um esquema de dissimulação que manteria a esperança viva no retorno à patria, trazendo também de volta ao mundo dos sãos a pobre rainha. O governador endereçaria para portugal dois tipos de correpondência, uma destinada a ser interceptada pela contra-inteligência francesa e a outra que jamais o poderia ser custasse o que custasse e que tinha como destinatário o bom vatel, que executaria as ordens tal e qual.

Na correspondência destinada a ser esquadrinhada que, a propósito e sem que desconfiassem ia escrita em francês, davam-se detalhadas indicações acerca do tesouro supremo do brasil, as suas infinitas jazidas de ouro, jazidas intermináveis que dariam para construir, escrevia-se, uma torre eiffel toda em metal amarelo. Engoliriam o isco mas tê-los-iamos um dia com ideias, frustadas com custo alto, de ficarem com o brasil.

Nas cartas secretas, que a muito custo e ao fim de cento e onze dias chegarima às mãos de vatel, el-rei dava ordens acerca de ter a sua rainha de volta. Que vatel dissimulasse quanto pudesse mas que inventasse algo que pudesse trazer à sanidade e alegria a rainha e de volta a pátria.

Escrevia acerca de como fazer reforçar o engodo e da verdadeira riqueza daquelas terras, a canela. Vatel cumpriu ao fio-da-espada as ordens do seu amo e senhor e foi falando aqui, dizendo ali, insinuando acolá que no brasil as pepitas de ouro nasciam por debaixo de cada calhau, e fazia-o enquanto pensava na sua invenção que mudaria o mundo.

E foi ao fim de onze dias e onze horas, já tarde e debruçado sobre a mesa da cozinha já livre da horda que, pela hora de jantar lhe invadia o espaço, que se fez luz e inventava o bolo de canela com que esperava operar o milagre.

Depois de frio provou e deu-o a provar à rainha, que se curava como que por milagre e trazia o reino de volta.